Textos amiúde mal aplicados pelos aniquilacionistas

Publicações teológicas geralmente afirmam que a punição dos maus será o sofrimento eterno num “inferno de fogo”, e chamam de “aniquilacionistas” os que repudiam tal ensino e não acreditam na imortalidade da alma. O conceito que utilizei no tema acima é uma definição mais restrita, que se refere apenas à crença de que a pessoa deixa de existir por completo quando morre, não havendo, portanto, uma alma espiritual que sobrevive à morte do corpo físico, ficando a pessoa fiel na dependência de ser “recriada” por Deus.

Existem alguns versículos das Escrituras que são frequentemente citados por aniquilacionistas para tentar provar que o homem desaparece por completo depois da morte. Eles dogmatizam tais passagens e ignoram aquilo que o restante da Bíblia realmente diz sobre o assunto, em conexão com a formação tricotômica do homem, composta por corpo físico, alma e espírito. Essa natureza está subentendida na seguinte declaração do apóstolo Paulo:

“O próprio Deus de paz vos santifique completamente. Que em todo respeito sejam preservados sãos o espírito, e a alma, e o corpo de vós, dum modo inculpe, na presença de nosso Senhor Jesus Cristo”. – 1 Tessalonicenses 5:23.

Além disso, segundo a Bíblia, depois da morte o corpo vai para a sepultura, porém sua alma vai para o Seol (ou Hades), que é o domínio dos mortos. Para mais informações, consulte os artigos Seol, ou Hades, e Conceitos Relacionados e Linguagem materialista não é necessariamente aniquilacionismo.

Leia a seguir uma consideração das passagens bíblicas geralmente utilizadas para tentar apoiar o conceito do aniquilacionismo.

1. ALMAS FALECIDAS

A expressão “alma falecida” significa apenas “pessoa falecida”, como pode ser visto numa ordem similar dada mais adiante em Números:

“Quem tocar no cadáver de qualquer alma humana também terá de ser impuro por sete dias”. – Número 19:11.

Dizer “cadáver de qualquer alma humana” é o mesmo que dizer “o corpo de qualquer pessoa”.

Leia uma explicação adicional nos comentários do ponto 7.

2. QUANDO O HOMEM MORRE SEUS PENSAMENTOS PERECEM

“Não confieis nos nobres, nem no filho do homem terreno, a quem não pertence a salvação. Sai-lhe o espírito, ele volta ao seu solo. Neste dia perecem deveras os seus pensamentos”. – Salmo 146:3, 4.

Ao contrário do que um leitor desavisado poderia concluir, o texto acima se refere aos planos e consecuções do ser humano. Qualquer coisa que o homem pense e planeje perde o sentido quando ele morre, pois depois da morte não há nada mais a fazer “debaixo do sol”, em conexão com a vida que se possuía. – Eclesiastes 9:5, 6.

Essa realidade é descrita no livro de Jó:

“Mas o varão vigoroso morre e jaz prostrado e o homem terreno expira, e onde está ele?…. Meus próprios dias passaram adiante, romperam-se os meus próprios planos, os desejos do meu coração”. – Jó 14:10; 17:11.

Que o sentido de Salmos 146:4 é esse mesmo pode ser percebido em outras traduções da Bíblia. Note como elas traduzem a conclusão do versículo:

“Naquele mesmo dia acabam-se os seus planos”. – Nova Versão Internacional.

“No mesmo dia seus planos se acabam”. – Vozes.

“Naquele dia vão-se seus desígnios”. – Santos Saraiva.

Uma nota da Bíblia Apologética informa que a palavra hebraica traduzida em algumas Bíblias por “pensamentos” é estonath, e que ela significa também “planos”, “propósitos” ou “desígnios”, conforme demonstram as traduções acima. Portanto, o texto não significa que ao morrer os pensamentos da pessoa desaparecem completamente, mas sim que os planos dela, qual ser humano, se acabam ou perecem. – Compare com Lucas 12:13-21 e 16:22-31.

3. TODOS VOLTAM PARA O PÓ

“Todos vão para um só lugar. Todos eles vieram a ser do pó e todos eles retornam ao pó”. – Eclesiastes 3:20.

Esse texto se refere ao corpo biológico quando morre. É ele que vai para o pó do solo, de onde Deus tirou a matéria-prima usada para criá-lo, a fim de que o homem vivesse na Terra, conforme o texto de Gênesis 2:7 descreve.

“Javé Deus plasmou o homem, pó da terra, insulflou em suas narinas um sopro de vida, e o homem se tornou um ser vivo”. – Mensagem de Deus.

“O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou no seu rosto um sopro de vida, e o homem tornou-se alma (pessoa) vivente”. – Matos Soares.

Dizer que a pessoa desaparece completamente ao morrer, com base nesse versículo, é dogmatizar o assunto e desconsiderar aquilo que o restante das Escrituras diz sobre o que acontece depois da morte do corpo físico. Leia a seguir alguns exemplos:

“E aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão”. – Lucas 16:22.

“Além disso, irmão entregará irmão à morte, e o pai ao seu filho, e os filhos se levantarão contra os pais e os farão matar. E vós sereis pessoas odiadas por todos, por causa do meu nome…. O que eu vos digo na escuridão, dizei na luz; e o que ouvis sussurrando, pregai dos altos das casas. E não fiqueis temerosos dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma”. – Mateus 10:27, 28.

“E quando abriu o quinto selo, vi por baixo do altar as almas dos que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa da obra de testemunho que costumavam ter. E [as almas desses que morreram] gritaram com voz alta, dizendo:…”. – Apocalipse 6:9-10, colchetes acrescentados.

“Então o pó retorna à terra, assim como veio a ser, e o próprio espírito retorna ao verdadeiro Deus que o deu”. – Eclesiastes 12:7.

“[Quando certa menina morreu, Jesus] a tomou pela mão e chamou, dizendo: ‘Menina, levanta-te!’ E voltou-lhe o espírito e ela se levantou instantaneamente, e ele ordenou que se lhe desse algo para comer”. – Lucas 8:49-55, colchetes acrescentados.

“E Jesus exclamou com voz alta e disse: ‘Pai, às tuas mãos confio o meu espírito.’ Dizendo isso, expirou”. – Lucas 23:46.

“No entanto, o próprio Deus remirá a minha alma da mão do Seol, pois ele me receberá”. – Salmo 49:15.

Portanto, são os corpos dos que morrem que vão para o pó do solo, e não suas almas ou espíritos. E o lugar onde Deus pode receber quem morre é o mundo espiritual, não o mundo terreno, pois “carne e sangue não podem herdar o reino de Deus, nem pode a corrupção herdar a incorrupção”. – 1 Coríntios 15:50.

4. OS MORTOS NÃO SABEM NADA E NÃO HÁ ATIVIDADES NO SEOL

“Com efeito, os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem mais nada; para eles não há mais recompensa, porque sua lembrança está esquecida. Amor, ódio, tudo já pereceu; não terão mais parte alguma, para o futuro, no que se faz debaixo do sol”. – Eclesiastes 9:5, 6, Centro Bíblico Católico.

“Tudo o que a tua mão possa fazer, faze-o com todas as tuas faculdades, porque não região dos mortos para onde vais, não há nem trabalho, nem ciência, nem inteligência, nem sabedoria”. – Eclesiastes 9:10, Missionários Capuchinhos.

Se o primeiro texto acima tivesse que ser entendido de maneira absolutamente literal, significaria que o ser humano não tem nenhuma esperança, pois é dito que para os que morrem “não há mais recompensa”.

Mas não é isso o que outras partes da Bíblia dizem:

“[Deus] dará a cada um segundo as suas obras: vida eterna aos que estão buscando glória, e honra e incorruptibilidade, pela perseverança na obra que é boa [enquanto se está vivo neste mundo]; no entanto, para os que são briguentos e que desobedecem à verdade, mas que obedecem à injustiça, haverá furor e ira”. – Romanos 2:6-8, colchetes acrescentados.

“Vem a hora em que todos os que estão nos túmulos memoriais ouvirão a sua voz e sairão, os que fizeram boas coisas, para uma ressurreição de vida, os que praticaram coisas ruins, para uma ressurreição de julgamento”. – João 5: 28, 29.

“E muitos dos adormecidos no solo de pó acordarão, estes para a vida de duração indefinida e aqueles para vitupérios e para abominação de duração indefinida”. – Daniel 12:2.

Conforme se vê, há sim recompensa para os que morrem, de acordo com suas ações enquanto estavam vivos quais seres humanos. De modo que aquilo que está nessa porção do livro de Eclesiastes tem que ser compreendido de outra maneira, para não haver contradição com outras partes das Escrituras. Dogmatizá-la e desconsiderar o resto da Bíblia para tentar apoiar uma ideia pré-concebida não é o caminho recomendado. – Filipenses 4:5.

O próprio trecho em apreço dá a dica sobre como entendê-lo. Tudo o que ele descreve se refere às atividades que são feitas “debaixo do sol”, ou seja, na Terra. Quando determinada pessoa morre, ela deixa para trás tudo aquilo que prezava e fazia. Tudo da sua outrora rotina, qual ser humano, não lhe pertence mais e nunca mais vai pertencer. Não terá qualquer participação nas atividades às quais se dedicava. Não voltará para os seus negócios, não se preocupará com o dinheiro que tinha, não sairá para se divertir nos lugares que gostava etc. Tudo o que fazia debaixo do sol desapareceu para sempre.

Portanto, é sob o ponto de vista dos que ficam na Terra que Eclesiastes 9:5, 6 deve ser compreendido, conforme sugerido nos colchetes abaixo:

“Com efeito, os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem mais nada [no que diz respeito à vida e expectativas do ser humano]; para eles não há mais recompensa [neste mundo, algo que os humanos sempre buscam por seus esforços], porque sua lembrança está esquecida [pois forçosamente chega o dia quando quem morreu não é mais lembrado por ninguém aqui na Terra]. Amor, ódio, ciúme [relacionados à vida humana que tiveram], tudo já pereceu; não terão mais parte alguma, para o futuro, no que se faz debaixo do sol [ou seja, no planeta Terra].” – Tradução do Centro Bíblico Católico (CBC).

Da mesmíssima maneira pode ser entendida a passagem mais adiante de Eclesiastes:

“Tudo o que a tua mão possa fazer, faze-o com todas as tuas faculdades, porque não região dos mortos para onde vais, não há nem trabalho [humano], nem ciência [humana], nem inteligência [humana], nem sabedoria [humana].” – Eclesiastes 9:10, Missionários Capuchinhos, colchetes acrescentados.

Não terão mais parte alguma, para o futuro, no que se faz debaixo do sol…

Curiosamente, os dois casos mencionados na Bíblia de pessoas que voltaram do mundo dos mortos aconteceram sob o véu da noite, e não durante o dia, que foi a aparição de Samuel para Saul e a conversa que Jesus teve com Moisés e Elias, na transfiguração. Talvez isto seja apenas coincidência, mas, de qualquer modo, seguiu exatamente o que Eclesiastes disse, de que ‘os mortos não fazem mais nada debaixo do sol’. – 1 Samuel 28:7, 8; Marcos 9:2-7.

5. OS MORTOS NÃO LOUVAM O SENHOR

“Os mortos não louvam ao SENHOR, nem os que descem ao silêncio. Mas nós bendiremos ao SENHOR”. – Salmos 115:17, 18, Almeida Fiel.

É preciso considerar o contexto específico do versículo acima. O texto completo (115:1-17) está repleto de palavras que denotam coletividade: “nós”, “vós” “Israel”, “casa de Arão”, “deles” (se referindo às pessoas que adoram deuses falsos) etc. Era justamente em coletividade que Davi e os demais judeus louvavam a Deus:

“Vou declarar o teu nome aos meus irmãos; No meio da congregação te louvarei”. – Salmos 22:22.

“Vou elogiar-te na grande congregação; Louvar-te-ei entre um povo numeroso”. – Salmos 35:18.

Depois que Davi morresse ele não poderia mais louvar a Deus publicamente, conforme está descrito em outra parte dos Salmos:

“Louvarei ao SENHOR durante a minha vida; cantarei louvores ao meu Deus enquanto eu viver”. – Salmos 146:2, NVI.

Era somente enquanto estivesse vivo na Terra que as pessoas poderiam ver Davi cantando louvores a Deus, diante da congregação de louvadores. Então, dizer que os mortos não louvam a Deus significa que aqueles que morreram não podem mais ser vistos louvando a Deus publicamente.

Uma nota da Bíblia Apologética informa que a palavra traduzida por “louvar” é yadah, em hebraico, e ela aparece 103 vezes no Antigo Testamento, sendo que em todos os casos denota adoração em coletividade, aquela que era típica da nação de Israel.

Sobre essa particularidade, o tradutor Santos Saraiva menciona que a estrutura do capítulo 115 dos Salmos sugere que eram cantados “durante o oferecimento do sacrifício; de sorte que suas diversas partes eram alternadamente entoadas por diferentes pessoas. Assim, as estrofes desde 1 até 8, eram cantadas pela congregação ou povo reunido; desde 9 até 11 alternavam-se os levitas e o coro; de 12 até a 15 competiam ao sacerdote” e a estrofe “de 16 até 18 eram ainda da competência da congregação”. – Harpa de Israel (1898), p. 449, 450.

Portanto, a perspectiva correta de textos como esse de Salmos 115:17 é o ponto de vista dos que ficam na Terra, que não vêem mais aqueles que morreram louvando a Deus em coletividade, diante dos homens. Esses textos não anulam o que outras partes das Escrituras dizem sobre a alma e o espírito, que continuam a existir depois da morte. – Eclesiastes 12:7; Mateus 10:28; Lucas 16:22-31; 1 Pedro 3:19, 20.

“Depois de morto…. não poderei mostrar aos homens como Tu és fiel”. – Salmos 88:11, A Bíblia Viva.

Que a situação em que se encontram as pessoas que vivem na Terra e as que morreram é mera questão de ponto de vista, pode ser percebido nas passagens abaixo:

“Mas, que os mortos são levantados, até mesmo Moisés expôs, no relato sobre o espinheiro, quando ele chama Jeová ‘o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó’. Ele é Deus, não de mortos, mas de viventes, pois, para ele, todos estes vivem”. – Lucas 20:37, 38.

Os personagens mencionados (Abraão, Isaque e Jacó) estão vivos para Deus, mas para os homens eles estão mortos. Mas se eles fossem trazidos de volta para este mundo, na linguagem bíblica eles estariam “ressuscitados” ou “levantados dentre os mortos”.

“Estas pessoas prestarão contas àquele que está pronto para julgar os viventes e os mortos. Com este objetivo se declararam as boas novas também aos mortos, para que fossem julgados quanto à carne, do ponto de vista dos homens, mas vivessem quanto ao espírito, do ponto de vista de Deus”. – 1 Pedro 4:5, 6; compare com 1 Pedro 3:19.

Ressalte-se que o continuar a existir da alma e do espírito não é ainda a vida eterna prometida aos justos, em contraste com a punição que os ímpios receberão quando chegar o julgamento de Deus. Em tal época haverá outro tipo de morte:

“Eu darei de graça da fonte de água viva. O vencedor receberá esta herança: eu serei o Deus dele, e ele será o meu filho. Quanto aos covardes, infiéis, corruptos, assassinos, imorais, feiticeiros, idólatras, e todos os mentirosos, o lugar deles é o lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte”. – Apocalipse 21:6-8, Edição Pastoral.

Os comentários do ponto seguinte fornecem mais esclarecimentos.

6. O SEOL E A SEPULTURA NÃO PODEM ELOGIAR A DEUS

“Porque na morte não há menção de ti; no Seol, quem te elogiará?” – Salmos 6:5.

“Que lucro há no meu sangue quando desço à cova? Acaso te elogiará o pó? Acaso contará ele a tua veracidade?” – Salmos 30:10.

“Acaso farás uma maravilha para os que estão mortos? Ou levantar-se-ão os que estão impotentes na morte, elogiar-te-ão eles?” – Salmo 88:10, 11.

“Pois não é o Seol que te pode elogiar; a própria morte não te pode louvar. Os que descem ao poço não podem olhar esperançosamente para a tua veracidade. O vivente, o vivente, é ele quem te pode elogiar. Assim como eu posso neste dia”. – Isaías 38:18, 19.

Conforme Provérbios 15:11, Deus é Aquele que pode ver o que transcorre no Seol:

“O Sheol e o Abismo estão diante do SENHOR”. – Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB).

“O Senhor sabe o que acontece até mesmo no mundo dos mortos”. – Nova Bíblia na Linguagem de Hoje.

Mas para o homem isto não é possível. Quem desce ao Seol é silenciado, do ponto de vista dos que ficam:

“Ó Jeová, não seja eu envergonhado, pois te invoquei. Fiquem envergonhados os iníquos. Fiquem eles quietos no Seol”. – Salmo 31:17.

Já os que ficam na Terra podem ser vistos mencionando e elogiando o nome de Deus. Quando o ser humano morre, ele não é mais visto fazendo isso. Mas as almas dos mortos permanecem no mundo delas, aquele que está desnudo diante de Deus. Para que elas louvassem a Deus conforme os seres humanos podem fazer, debaixo do sol, seria necessário que elas voltassem para este mundo. O que não é possível, a menos que Deus os ressuscitasse em novos corpos carnais. Este aspecto é mencionado no texto a seguir:

“Acaso farás uma maravilha para os que estão mortos? Ou levantar-se-ão os que estão impotentes na morte, elogiar-te-ão eles?” – Salmo 88:10, 11.

Na verdade, o salmista não enfatizou a ressurreição propriamente dita, mas sim que as almas que estão no Seol não podem voltar para este mundo por si próprias. O texto hebraico desse versículo diz literalmente: “As sombras dos mortos se levantarão e te louvarão?” (Santos Saraiva) A palavra “sombras” (rephaim, em hebraico), trocada por “impotentes” na TNM, se refere às almas que habitam o mundo dos mortos, conforme explica o tradutor Santos Saraiva, ao comentar esse versículo em sua tradução dos Salmos:

“É de notar, que a palavra rephaim, sendo propriamente aplicada à antiga raça canaanítica de gigantes, é aqui tomada poeticamente pelas gigantescas sombras ou espectros dos mortos: é equivalente ao latim manes, quando significa almas dos mortos”. – Harpa de Israel (1898), p. 412.

Veja outras traduções em edições da Bíblia que seguiram o hebraico mais de perto nesse versículo:

“Tu fazes maravilhas aos mortos? Levantam-se as sombras para te louvar?” – The New American Bible.

“Farás maravilhas pelos mortos? As sombras se levantarão para te louvar?” – Edição Pastoral.

“Farás milagres em favor dos mortos? As sombras se erguerão para louvar-te?” – Mensagem de Deus.

“Por acaso, tu mostrarás maravilhas aos mortos, ou irão as sombras levantar-se e te darem graças?” – The Bible in Living English, de Steven T. Byíngton, publicado pela Torre de Vigia.

Etc.

Portanto, as ações de Deus que Davi mencionou se referem aos adoradores humanos. São eles que louvam a Deus no modelo de adoração que fora estabelecido em Israel, e não as almas dos mortos (“sombras”). Mas elas continuam a existir no Seol, ainda que presas e sem permissão para estarem entre os humanos louvando a Deus.

Sentido semelhante contém Isaías 38:18, que menciona a presença de alguém em contraste com sua ausência devido à morte. Como mostra o contexto, é um agradecimento do rei Ezequias, que estava doente e triste por saber que estava morrendo. Por isso ele suplicou a Deus que prolongasse sua existência na Terra, e foi atendido. Ganhou mais quinze anos de vida. Tomado de agradecimento, ele fez um retrospecto do que lhe aconteceu e concluiu:

“Não é o Seol que te pode elogiar; a própria morte não te pode louvar…. O vivente, o vivente, é ele quem te pode elogiar. Assim como eu posso neste dia”. – Isaías 38:18, 19.

Em outras palavras, foi como se ele dissesse: “Se eu tivesse morrido eu não poderia te louvar, como estou louvando hoje (diante dos meus irmãos)”.

Um exame mais minucioso do Salmo 6:5 também revela um obstáculo adicional para que as almas no Seol façam aquilo que o salmista mencionou. Uma nota da Bíblia TEB informa que no hebraico o trecho “porque na morte não há menção de ti” está literalmente assim: “Não há comemoração de ti entre os mortos”. O Seol (ou Hades) não se apresenta como local adequado para isso, se os textos a seguir forem levados em consideração:

“Cercaram-me as cordas da morte e acharam-me as próprias circunstâncias aflitivas do Seol”. – Salmo 116:3.

“A seca, bem como o calor, arrebatam as águas da neve. Assim faz também o Seol com os que pecaram!” – Jó 24:19 (Logicamente, os que não pecaram têm um destino diferente).

“Também o rico morreu e foi enterrado. E no Hades, ele ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu Abraão de longe…”. – Lucas 16:22, 23.

À exceção do “seio de Abraão”, mencionado em Lucas 16:22, o mundo dos mortos não parece ser o lugar apropriado para comemorações, mesmo estando vivas as almas que moram lá.

7. A ALMA QUE PECAR MORRERÁ

“Eis que todas as almas – a mim me pertencem. Como a alma do pai, assim também a alma do filho – a mim me pertencem. A alma que pecar – ela é que morrerá”. – Ezequiel 18:4.

Por Gênesis 2:7 dizer que o homem é uma “alma vivente” pode-se chegar à conclusão que a alma morre, pois todo ser humano morre. É por isso que os que pensam assim acham que o texto acima de Ezequiel contraria o conceito da imortalidade da alma, pois diz que a alma que pecar vai morrer.

Mas note o seguinte uso da palavra “alma” no livro de Levítico:

“Pois a alma de todo tipo de carne é seu sangue”. – Levítico 17:14.

Percebe-se que a palavra “alma” está sendo utilizada num sentido restrito, e não se refere à alma descrita nos textos abaixo (o primeiro menciona a morte de Raquel e o segundo a ressurreição de uma criança pelo profeta Elias):

“E o resultado foi que, enquanto a sua alma partia (porque estava morrendo), ela chamou-o pelo nome de Ben-Oni; mas o seu pai chamou-o de Benjamim”. – Gênesis 35:18. (Partia para onde? Para o Seol, a morada das almas).

“E [Elias] passou a estender-se três vezes sobre o menino e a clamar a Jeová, e a dizer: ‘Ó Jeová, meu Deus, por favor, faze a alma deste menino voltar para dentro dele.’ Jeová escutou finalmente a voz de Elias, de modo que a alma do menino voltou para dentro dele e este reviveu”. – 1 Reis 17:21, 22, colchetes acrescentados.

Obviamente, não foi o sangue do menino que voltou para dentro dele. A linguagem de ambos os textos também não indica que essa “alma” fosse simplesmente a vida, pois o escritor dá uma ideia de deslocamento da alma, que vai de um lugar para outro. E isto está de acordo com aquilo que demonstram diversos versículos bíblicos, i.e., que depois da morte a alma do ser humano vai para o Seol (ou Hades), mas se for da vontade de Deus ela pode ser trazida de volta por Ele, conforme aludiu o salmista em sua linguagem poética:

“Ó Jeová, fizeste subir a minha alma do próprio Seol. Mantiveste-me vivo, para que eu não descesse ao poço”. – Salmos 30:3.

“No entanto, o próprio Deus remirá a minha alma da mão do Seol, pois ele me receberá”. – Salmos 49:15.

Portanto, a “alma” de Ezequiel 18:4 é também uma aplicação restrita do termo. De modo que, dizer que a ‘alma que pecar é a que morrerá’ significa apenas que a pessoa que pecar é a que morrerá, conforme indica a continuação do texto:

“E no que se refere ao homem…. Se tem andado nos meus estatutos e tem guardado as minhas decisões judiciais para praticar a verdade, ele é justo. Ele positivamente continuará a viver’, é a pronunciação do Soberano Senhor Jeová”. – Ezequiel 18:4-9.

A “alma” de Ezequiel 18:4 não se refere à alma que continua a existir depois da morte, e que pode ser trazida de volta se for da vontade de Deus. Em apoio a isto, note as seguintes afirmações categóricas que são encontradas na Bíblia:

“Além disso, irmão entregará irmão à morte, e o pai ao seu filho, e os filhos se levantarão contra os pais e os farão matar. E vós sereis pessoas odiadas por todos, por causa do meu nome…. O que eu vos digo na escuridão, dizei na luz; e o que ouvis sussurrando, pregai dos altos das casas. E não fiqueis temerosos dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma”. – Mateus 10:27, 28.

“E eu vi tronos, e havia os que se assentavam neles, e foi-lhes dado poder para julgar. Sim, vi as almas dos executados com o machado, pelo testemunho que deram de Jesus e por terem falado a respeito de Deus”. – Apocalipse 20:4.

Outro exemplo que a palavra “alma” pode ser usada com sentido restrito é o que aconteceu certa vez com Jesus num dia de sábado, quando ele encontrou um homem com a mão ressequida e se compadeceu dele (Mateus 6:6-11; Marcos 3:1-3). Os fariseus ficaram perto quando aquele homem estava prestes a ser curado, a fim de acharem um pretexto para entregar Jesus à morte, por ele estar curando num dia de sábado. Mas antes de fazer o milagre, sabiamente Jesus perguntou aos fariseus:

“É lícito, no sábado,…. salvar ou destruir uma alma?”

Por “salvar” ele se referiu a curar o doente, e por “destruir” à intenção assassina dos fariseus (ou “matar”, conforme a versão do evangelista Marcos). Mas será que, com base nesse relato, pode-se afirmar que os homens podem tanto matar como destruir a alma de alguém? Claro que não, pois o próprio Jesus disse depois:

“Não fiqueis temerosos dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma; antes, temei aquele que pode destruir na Geena tanto a alma como o corpo”. – Mateus 10:28.

É claro que a alma de Jesus não seria destruída se os fariseus tivessem conseguido matá-lo naquele dia, pois ela ficaria bem guardada no Seol e seria trazida de volta na ressurreição, conforme predito nas Escrituras:

“Não deixarás a minha alma no Seol”. – Salmo 16:10.

Somente Deus pode matar ou destruir a alma de alguém. Mas isto não impediu que Jesus dissesse que os fariseus queriam “matar” ou “destruir” a alma dele. Ele quis dizer com isso apenas que aqueles homens queriam matá-lo. Da mesma maneira, quando Ezequiel diz que a alma que pecar morrerá, significa simplesmente que a pessoa (humana) que pecar é que morrerá. Mas a verdadeira alma vai para o Seol, como dizem diversos textos da Bíblia. – Veja também Atos 3:23, na TNM.

Outra aplicação especial que se faz da palavra “alma” pode ser vista em textos como o de Salmos 146:1, que diz: “Louvai a Jah! Louve a Jeová, ó minha alma”. A expressão “que minha alma louve” significa “que eu louve intensamente”, pois a alma, neste caso, representa o desejo mais profundo da pessoa, conforme Jesus Cristo mencionou ao dizer como se deve amar a Deus: “Tens de amar a Jeová, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de toda a tua mente, e de toda a tua força”. – Marcos 12:30.

Outra possibilidade de entendimento

É fato que mesmo os que agiram com retidão e foram justos, de acordo com o conselho escrito em Ezequiel 18:4-9, por fim morreram. Mas suas almas continuaram a existir no Seol e um dia receberiam sua plena recompensa (Salmos 16:10; Jó 14:15; 2 João 8). As almas dos injustos, porém, poderiam ter o seguinte destino aludido por Jesus: “Temei aquele que pode destruir na Geena tanto a alma como o corpo”. – Mateus 10:28b.

Sendo assim, a alma espiritual de cada pessoa realmente vive neste mundo, enquanto estiver dentro do corpo biológico. É uma “alma vivente” na Terra. Mas se o corpo físico morre, essa alma se ausenta do corpo e vai para o Seol, e do ponto de vista dos que ficam é uma “alma falecida”, ou seja, alguém que partiu. (Levítico 19:28; Gênesis 35:18). Mas a alma continua viva no Seol, e só Deus tem o poder de matá-la ou destruí-la. Portanto, a alma que pecar (enquanto viver na Terra) é a que morrerá (quando chegar o julgamento de Deus).

8. OS QUE DORMEM NA MORTE

“Além disso, irmãos, não queremos que sejais ignorantes no que se refere aos que estão dormindo [na morte], para que não estejais pesarosos como os demais que não têm esperança”. – 1 Tessalonicenses 4:13 e similares.

Alguns argumentam que a morte é um estado de completa inatividade porque a Bíblia, às vezes, a compara ao sono e que isto seria uma “prova” de que não existe uma alma que sobrevive à morte. Como entender isso?

Primeiramente, há pessoas que acham que essas passagens se referem ao sono da alma, e não do corpo. Por este entendimento, as almas continuam existindo depois da morte, porém ficam dormindo. Embora tal conceito seja melhor que o defendido pelos aniquilacionistas, ele não está completamente de acordo com o que a Bíblia menciona sobre a alma.

Leia atentamente o que Paulo falou a respeito da morte:

“Enquanto tivermos o nosso lar no corpo, estamos ausentes do Senhor…. Mas, temos boa coragem e bem nos agradamos antes de ficar ausentes do corpo e de fazer o nosso lar com o Senhor”. – 2 Coríntios 5: 6, 8; leia também Filipenses 1:21-26.

Possuir um corpo físico significa estar vivo na Terra, qual ser humano. Na morte esse “lar” terreno é abandonado, e o que fica aqui é um corpo morto:

“O pó volte à terra, de onde veio, e o espírito volte a Deus, que o deu”. – Eclesiastes 12:7, NVI.

“O corpo sem espírito está morto”. – Tiago 2:26.

Aos olhos dos que ficam o corpo parece estar apenas dormindo. É sob essa perspectiva que Paulo certamente escreveu aos Tessalonicenses, pois foi ele mesmo quem disse que é necessário ficar “ausente do corpo [físico]”, isto é, morrer, para o cristão ir para o seu novo “lar com o Senhor”. A expressão “ausente no corpo” tem uma implicação lógica, que é o fato de que antes desse abandono algo estava “presente no corpo”. É justamente aquilo que a Bíblia ora chama de “alma”, ora chama de “espírito”. Essa parte imaterial do homem é que permanece viva depois da morte do corpo físico. (E dificilmente a descrição de Paulo significa que quem fosse para esse novo lar ficaria dormindo na presença de Cristo).

Uma evidência adicional a esse respeito é aquilo que Jesus prometeu na cruz para o malfeitor arrependido:

“Então ele [o malfeitor] disse: ‘Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino.’ Jesus lhe respondeu: ‘Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso”. – Lucas 23: 42, 43, NVI, colchetes acrescentados.

(A Tradução do Novo Mundo subverte Lucas 23:43 e coloca os dois pontos depois da palavra “hoje”: “Deveras, eu te digo hoje: Estarás comigo no Paraíso”).

“E abriram-se os túmulos memoriais e muitos corpos dos santos que tinham adormecido foram levantados”. – Mateus 27:54.

O que adormeceu foram os corpos dos santos, e não as almas deles ou seus espíritos.

Quando alguém morre apenas seu corpo fica como que “dormindo”, mas sua alma e seu espírito vão para outro lugar, conforme demonstrado nos episódios a seguir:

“E [Elias] passou a estender-se três vezes sobre o menino e a clamar a Jeová, e a dizer: ‘Ó Jeová, meu Deus, por favor, faze a alma deste menino voltar para dentro dele.’ Jeová escutou finalmente a voz de Elias, de modo que a alma do menino voltou para dentro dele e este reviveu”. – 1 Reis 17:21, 22.

“Enquanto ainda falava, chegou certo representante do presidente da sinagoga, dizendo: ‘A tua filha morreu; não incomodes mais o instrutor.’ Ouvindo isso, Jesus respondeu-lhe: ‘Não temas, apenas exerce fé, e ela será salva.’ Chegando à casa, não deixou ninguém entrar com ele, exceto Pedro, e João, e Tiago, e o pai e a mãe da menina. E todos choravam e se batiam de pesar por ela. De modo que ele disse: ‘Parai de chorar, pois ela não está morta, mas dorme.’ Começaram então a rir-se dele desdenhosamente, porque sabiam que ela havia morrido. Mas ele a tomou pela mão e chamou, dizendo: ‘Menina, levanta-te!’ E voltou-lhe o espírito e ela se levantou instantaneamente, e ele ordenou que se lhe desse algo para comer”. – Lucas 8:49-55; compare com Salmos 78:39.

O relato de Lucas 8:49-55 está em harmonia com o que Jesus falou em outro momento:

“Mas, que os mortos são levantados, até mesmo Moisés expôs, no relato sobre o espinheiro, quando ele chama Jeová ‘o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó’. Ele é Deus, não de mortos, mas de viventes, pois, para ele, todos estes vivem”. (apesar de estarem mortos para os homens). – Lucas 20:37, 38.

Portanto, o “adormecer” mencionado algumas vezes no Novo Testamento se refere apenas ao corpo físico e não à alma ou ao espírito.

É dessa mesma maneira que se pode entender aquilo que Jesus disse sobre a ressurreição de Lázaro (que não era o mesmo Lázaro da Parábola): “Nosso amigo foi descansar, mas eu viajo para lá para o despertar do sono”. – João 11:11.

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“Pois, os que estão de acordo com a carne fixam as suas mentes nas coisas da carne, mas os que estão de acordo com o espírito, nas coisas do espírito”. – Romanos 8:5.

“Destas coisas também falamos, não com palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas com as ensinadas pelo espírito, ao combinarmos assuntos espirituais com palavras espirituais. Mas o homem físico não aceita as coisas do espírito de Deus, porque para ele são tolice; e ele não pode chegar a conhecê-las, porque são examinadas espiritualmente. No entanto, o homem espiritual examina deveras todas as coisas”. – 1 Coríntios 2:13-16.

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