Citações espúrias de autores patrísticos e o erro do “sola scriptura”

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Circulam em mensagens de aplicativo no meio evangélico supostas citações de autores patrísticos que serviriam para apoiar a visão do protestantismo sobre o Cristianismo. Embora não costumem aparecer em sites com o mínimo de seriedade, tais “citações” são postadas em redes sociais por pessoas que combatem o catolicismo, como se vê abaixo:

(Link do post)

As citações acima postadas atestariam a afirmação recorrente de que a igreja primitiva começou a ser corrompida na época de Constantino, mostrando assim que os autores patrísticos mais antigos são um testemunho histórico contra a atual Igreja Católica, pois esta seria uma corruptela da igreja original, sendo então necessário combatê-la.

Bem, considerando o fato de que o próprio nome “católica” para se referir à verdadeira igreja foi cunhado por um discípulo direto dos apóstolos, Inácio de Antioquia, seria surpreendente que antigos escritores cristãos a partir dessa época, da chamada Patrística, tivessem escrito coisas que depusessem contra a própria igreja que eles ajudaram a formar.

A verdade, porém, é que as referidas citações foram completamente falsificadas por quem as pôs para circular, em um aparente notório ato de desonestidade intelectual, que poderá ser constatado a seguir. As citações espúrias estão destacadas e numeradas.

Para enriquecer a exposição, acrescentei ao longo do texto algumas citações igualmente distorcidas que aparecem em sites evangélicos, além de fazer breves comentários a respeito do popular conceito protestante chamado “sola scriptura”, segundo o qual somente a Bíblia é a fonte para a prática do Cristianismo.

1. “As Escrituras são suficientes para nos ensinar a verdadeira doutrina. Não precisamos de nada além das Escrituras para conhecer a vontade de Deus”. (Atanásio de Alexandria, Contra os gentios 1,1)

Palavras atribuídas a Atanásio, mas o que ele realmente escreveu nessa parte de sua apologia foi o seguinte:

“Pois embora as Escrituras sagradas e inspiradas sejam suficientes para declarar a verdade e embora existam outras obras de nossos abençoados professores compiladas para este propósito, se ele encontrar um homem obterá algum conhecimento da interpretação das Escrituras, e será capaz de aprender o que deseja saber – ainda assim, como não temos atualmente em mãos as redações de nossos professores, devemos comunicar-vos por escrito o que aprendemos deles – a fé, a saber, de Cristo Salvador; para que ninguém menospreze a doutrina ensinada entre nós, ou considere a fé em Cristo irracional.” (Contra os Gentios, 1:3)

Claramente uma referência à tradição oral da igreja que anda de mãos dadas com a Palavra de Deus, conforme Atanásio afirmou mais claramente em outras ocasiões, a exemplo dessas:

“Mas as palavras do Senhor que vieram através do Concílio Ecumênico de Nicéia, permanecerão para sempre.” (2ª Carta Sinodal aos Bispos da África).

Como se vê, os hereges atribuíam suas crenças à Bíblia, o que demonstra que isto por si só não garante que o indivíduo esteja com a verdade, mesmo que ele acredite piamente nisso. É preciso algo mais e Atanásio disse o que é.

2. “A Sagrada Escritura é o único livro que contém a verdadeira doutrina. É suficiente para nossa instrução, pois contém tudo o que é necessário para a salvação” (Orígenes, Contra Celso, I, 8)

O que Orígenes realmente escreveu nesse capítulo de seu livro contra Celso foi:

“Ele acaba de dizer: ‘Aquele que abraçou uma boa doutrina, se vier a correr o perigo da parte dos homens por causa dela, não deve renunciar a esta doutrina, fingir que a abandona ou renegá-la’, e ele mesmo cai em atitude contraditória!” (Livro I, Cap. 8)

Orígenes não achava que o ensino da igreja advinha somente da Bíblia, como se nota em várias afirmações dele ao longo de seus escritos, a exemplo destas:

“Embora haja muitos que acreditam que eles próprios se apegam aos ensinamentos de Cristo, ainda há alguns entre eles que pensam de forma diferente dos seus antecessores. O ensinamento da Igreja foi de fato transmitido mediante uma ordem de sucessão dos apóstolos e permanece nas igrejas até ao presente. Somente isso deve ser acreditado como a verdade que não está de forma alguma em desacordo com a tradição eclesiástica e apostólica (As Doutrinas Fundamentais, 1:2).

“A Igreja recebeu dos Apóstolos o costume de administrar o batismo até mesmo para as crianças. Pois aqueles que foram confiados os segredos dos mistérios divinos sabiam muito bem que todos carregam a mancha do pecado original, que deve ser lavada com água e do espírito.” (Homilias Sobre Romanos, 5:9).

Assim, fica muito claro que ele reconhecia a autoridade da tradição apostólica.

Inclusive, um dos motivos porque Orígenes se sentiu livre para postular a tese da pré-existência da alma humana foi justamente porque a Igreja ainda não tinha definido esse ponto até aquele momento, durante a vida de Orígenes, definição que nem a Bíblia apresenta:

“Mas com respeito à origem da alma, se ela surge do sêmen por um processo de traducianismo [ou seja, da combinação entre as almas do pai e da mãe], de modo que se considere que a racionalidade, ou sua substância, foi colocada nas partículas seminais do próprio corpo ou se a alma tem outro começo. E esse começo, seja ele por nascimento ou não, seja concedido ao corpo por algo externo ou não, não está definido com suficiente clareza no ensinamento da Igreja.” (Dos Princípios, prefácio, seção 5)

Mais detalhes sobre tal opinião de Orígenes na seção 10 desse artigo abaixo que escrevi:

A filosofia grega influenciou mesmo o conceito do Cristianismo sobre imortalidade?

3. “As Escrituras são a única fonte confiável de doutrina. Devemos basear nossa fé somente no que a Bíblia ensina” (Basílio de Cesareia, Carta 189, 2)

Basílio não disse isso na carta 189, como pode ser confirmado no link abaixo. Ele estava tratando de outro assunto nessa carta, mas, coincidentemente, ele faz uma reclamação no trecho referenciado – de que pessoas inventavam coisas sobre ele:

“Ao adotarem uma atitude inesperada de ódio contra mim, os meus oponentes parecem estar a repetir a velha história de Esopo. […] inventam apelos e acusações contra mim […] Em nenhum caso a sua malícia é consistente; mas quando são frustrados em uma acusação, apegam-se a outra e, frustrados nesta, recorrem a uma terceira; e se todas as suas acusações forem dispersas, eles não abandonam a sua má vontade” (Carta 189, Basílio).

Há sites protestantes que também citam Basílio como tendo dito que apenas as Escrituras são autoridade para o cristão, entretanto, tal suposta afirmação foi criada a partir da leitura que fizeram de uma obra de Basílio sobre as regras monásticas (Moralia). Os referidos sites citam assim um trecho desse livro:

“Rejeitar alguma coisa que se encontra nas Escrituras, ou receber algumas coisas que não estão escritas, é um sinal evidente de infidelidade, é um ato de orgulho… o fiel deve crer com plenitude de espírito todas as coisas que estão nas Escrituras sem tirar ou acrescentar nada” (Basílio, Lib. de Fid. — regul. moral. reg. 80).

A citação acima foi traduzida de um livro em italiano chamado La tradizione discussione dottrinale, de Luigi De Sanctis.  

A obra Moralia de Basílio não está no site New Advent, mas pode ser obtida no link indicado abaixo. Ao verificá-la, descobrimos o que Basílio realmente disse:

“Qual é a marca de um cristão? Fé operando pela caridade. Qual é a marca da fé? Uma convicção segura da verdade das palavras inspiradas, que não deve ser abalada por qualquer processo de raciocínio, nem pela alegação de requisitos naturais, nem pelas pretensões de falsa piedade. Qual é a marca de uma alma fiel? Estar nestas disposições de plena aceitação da autoridade das palavras, não se aventurando a rejeitar nada – nem fazendo acréscimos. Pois, se ‘tudo o que não é de fé é pecado’, como diz o Apóstolo, e ‘a fé vem pelo ouvir e o ouvir pela palavra de Deus’, tudo fora da Sagrada Escritura, que não é de fé, é pecado. […]  Qual é a marca de um cristão? […] que ele não tenha defeito, nem mancha […] e assim coma o Corpo de Cristo e beba Seu Sangue; pois ‘aquele que come e bebe indignamente, come e bebe julgamento para si mesmo’.” (As Regras Morais, Regra 80, Cap. 22)

Todo cristão que aceita a Bíblia como inspirada por Deus sabe que ela nos orienta e não faz acréscimos a ela, pois quem assim fizesse estaria adulterando as Escrituras. Quem conhece as obras de Basílio sabe que era apenas isso o que ele estava expressando ao escrever as palavras supracitadas.

No entanto, Basílio não achava que tudo o que a igreja primitiva acreditava advinha somente do que está escrito na Bíblia, pelo menos não sempre de modo explícito. Por exemplo, em seu livro sobre o Espírito Santo, Basílio disse no capítulo 27, versículo 66 que tanto a Bíblia quanto a tradição oral vinda dos apóstolos possuíam a mesma autoridade para o cristão:

“Das crenças e práticas, geralmente aceitas ou publicamente prescritas, que são preservadas na Igreja, algumas que possuímos derivam de ensinamentos escritos; outros recebemos e nos foram entregues em mistério pela tradição dos apóstolos; e ambos em relação à religião verdadeira TÊM A MESMA FORÇA. E ninguém irá contestá-los – ninguém, em todo o caso, que seja mesmo moderadamente versado nas instituições da Igreja. Pois se tentássemos rejeitar costumes que não têm autoridade escrita, alegando que a importância que possuem é pequena, deveríamos involuntariamente ferir o Evangelho em seus próprios pontos vitais; ou melhor, deveríamos fazer da nossa definição pública uma mera frase e nada mais”. (Sobre o Espírito Santo, 27:66, 67).

Em seguida, ele cita alguns exemplos:

“Por exemplo (para relembrar o que vem primeiro e é o mais comum), quem ensinou por escrito a assinalar com o sinal-da-cruz aqueles que esperam em nosso Senhor Jesus Cristo? […] Qual dos santos nos deixou por escrito as palavras da “epiclese” no momento da consagração do pão na Eucaristia e do cálice da bênção? […] Benzemos também a água batismal e o óleo do crisma e além disso o próprio batizado. Conformamo-nos a que escrito?” (Tradução da editora Paulus).

Quem faz o sinal da cruz? São os protestantes ou são os católicos?

O próprio Tertuliano, disse que as crenças dos cristãos resultam tanto da Palavra escrita quanto da tradição oral da Igreja, pois esta também possui autoridade dada por Cristo para isso:

“Perguntemos, portanto, se a tradição, a menos que seja escrita, não deveria ser admitida. Certamente diremos que isso não deveria ser admitido, se nenhum caso de outras práticas que, sem qualquer instrumento escrito, mantemos apenas com base na tradição […] Para tratar brevemente deste assunto, começarei com o batismo […] somos imersos três vezes, fazendo um compromisso um pouco mais amplo do que o Senhor designou no Evangelho […] Sempre que chega o aniversário, fazemos oferendas aos mortos como homenagem ao aniversário”. (Da Coroa, 3).

Quem tem o costume de fazer ofertas pelos mortos (por exemplo, a missa de sétimo dia), mesmo isso não sendo ordenado na Bíblia? São os protestantes ou são os católicos?

Portanto, baseando-se nas obras patrísticas, nota-se que, embora os antigos cristãos achassem que somente a Bíblia é inspirada por Deus, não havia o conceito do Sola Scriptura[1] na igreja. Só escapará desse inconveniente quem rejeitar totalmente os escritores cristãos do século II em diante.

Ainda há outro inconveniente: por que os que vieram logo depois dos apóstolos e que eram responsáveis pela igreja não entendiam da Bíblia o que os protestantes costumam entender? Será que todos naquele tempo foram desviados da sã doutrina? Se assim tivesse acontecido seria muita incompetência dos membros da igreja deixada por Cristo!

Obviamente, contudo, é claro que um ensinamento vindo da tradição não pode contradizer ou ferir de morte algum ensino claro que esteja no Novo Testamento. Por isso que a Igreja geralmente aponta para algumas passagens bíblicas a fim de demonstrar que há base bíblica para ensinamentos rotulados de invenção romanista pelos protestantes.

O que acontece é que eles não aceitam a explicação. Esse comportamento refratário por parte dos que abandonaram a igreja católica já era visto nos tempos antigos, conforme dito por Inácio de Antioquia, discípulo dos apóstolos Paulo e João, no início do segundo século:

“[…] onde há divisãoe ira, Deus não habita. […] os que se arrependem, o Senhor concede perdão, se voltarem em penitência para a unidade de Deus e para a comunhão com o bispo. […] Quando ouvi alguns dizerem: Se não encontrar isso nas Escrituras antigas, não acreditarei no Evangelho; quando eu lhes disse: Está escrito, eles me responderam: Isso ainda precisa ser provado.” (Carta aos Filadélfios, 8).

Isso ocorre, por exemplo, em relação aos textos bíblicos utilizados para demonstrar que na Eucaristia há realmente um sacrifício ofertado no altar de Deus. Está tudo dito no próprio Novo Testamento e confirmado na Patrística, em ambos os casos de forma bem enfática, mas alguns chegam a outro entendimento baseando-se em um raciocínio humano que desconsidera o poder de Deus e as palavras expressas dos antigos cristãos.

Ademais, caso leiamos o que autores cristãos antigos disseram sobre breves afirmações que há na Bíblia, mas não explicada por ela, veremos que elas se revelam muito mais abrangentes do que um leitor “solaescriturista” é capaz de compreender pela simples leitura da Bíblia. Ver um comentário sobre isso no apêndice do final deste artigo.

4. “As Escrituras são a única norma de fé e prática para os cristãos. Nós não devemos buscar a verdade em outro lugar senão nas Escrituras” (Gregório de Nissa, De professione christiana, 3)

Eu não achei nenhuma versão em inglês ou português desse escrito de Gregório de Nissa, mas somente em grego e latim. Essa obra é um tratado que aborda o modo de vida cristão e a origem divina do Cristianismo. Ao ler o capítulo inteiro nota-se que não há nele o que foi dito acima. No final deste artigo há uma tradução livre de um trecho desse capítulo do livro de Gregório de Nissa.

Quem escreveu o trecho supracitado e o atribuiu a Gregório, provavelmente estava pensando nas seguintes afirmações dele:

“Mas como diz a Escritura, o ser divino não pode ser explicado e compreendido por palavras, visto que ultrapassa toda concepção e compreensão, por isso foi necessário que aqueles que foram divinamente arrebatados em nome do Espírito Santo, os profetas e os apóstolos, explicassem com o uso de muitos nomes, conceitos e considerações, a fim de se compreender a natureza incorruptível, como se nos conduzissem pela mão, cada um nos direcionando para considerações e entendimentos adequados de Deus, para que, de fato, o poder imposto a todos seja declarado em nome do reino”.

Não é difícil perceber que Gregório não estava estipulando uma regra de fé segundo a qual toda a crença do cristão está especificada apenas na Bíblia. O objetivo dele era outro, o de demonstrar que as Escrituras inspiradas encaminham o cristão para o Deus cuja natureza divina deve ser imitada. Este era o foco de Gregório, como revela o restante de sua escrita, da qual se extrai mais um trecho:

“Se alguém se reveste do nome de Cristo, mas não leva em consideração esse nome em sua vida, o nome de Cristo se torna sem efeito e a pessoa se torna com que um macaco querendo ser homem. Pois é impossível para Cristo não ser justiça e pureza e verdade e alienação de todo mal, do mesmo modo que não é verdadeiramente cristão quem não manifesta em si mesmo tais virtudes. Aqueles que ouviram as palavras do cristianismo interpretaram em suas mentes, por assim dizer, que o cristianismo é a imitação da natureza divina. E ninguém que transcende a natureza com humildade desacredita a palavra, pois não excedeu essa natureza”.

Para que não haja nenhuma dúvida que Gregório não foi aderente do Sola Scriptura, vejamos o que ele afirmou em outras ocasiões:

“Se um problema é desproporcional ao nosso raciocínio, o nosso dever é permanecer bem firmes e irremovíveis na Tradição que recebemos dos Padres” (Não três deuses).

“Pois é suficiente para provar nossa afirmação de que a Tradição veio até nós por nossos pais, transmitida como uma herança, por sucessão dos apóstolos e dos santos que os sucederam. Aqueles, por outro lado, que mudaram suas doutrinas com novidades, necessitariam do suporte de abundantes argumentos, se quisessem mostrar seus pontos de vista, não à luz de homens controversos e instáveis, mas de homens de peso e firmeza. Mas já que suas posições se apresentam sem fundamentos e sem provas, quem é tão louco e tão ignorante para considerar os ensinamentos dos evangelistas e apóstolos, e daqueles que sucessivamente brilharam como luzes nas igrejas de menos força do que tais coisas sem sentido e sem provas?” (Contra Eunômio, 4:6).

No segundo texto acima Gregório estava rebatendo alguém que não acreditava que o Filho foi gerado, mas criado, e tal pessoa utilizava passagens bíblicas para se opor à explicação teológica da igreja sobre o assunto, explicação que vinha da tradição da igreja.

5. “Ouça as divinas Escrituras e não as tradições humanas que não têm valor. A Escritura é suficiente para nos ensinar a verdadeira fé” (Cirilo de Jerusalém, Catequese 4, 17)

Ao ler o trecho indicado nessa obra de Cirilo, nota-se que não foi dito o que está acima, sendo tal citação uma aparente interpretação de quem leu as palavras de Cirilo a seguir transcritas:

“Você já teve em mente este selo, que no momento foi tocado levemente em meu discurso, a título de resumo, mas será declarado, se o Senhor permitir, com o melhor de meu poder, com a prova das Escrituras. Pois no que diz respeito aos divinos e santos mistérios da Fé, nem mesmo uma declaração casual deve ser feita sem as Sagradas Escrituras; nem devemos ser desviados pela mera plausibilidade e artifícios de discurso. Mesmo a mim, que te digo estas coisas, não dês crédito absoluto, a menos que recebas a prova das coisas que anuncio nas Escrituras Divinas. Pois esta salvação em que acreditamos não depende de raciocínios engenhosos, mas da demonstração das Sagradas Escrituras” (Lição catequética 4, Cirilo de Jerusalém).

Essa passagem não representa nenhum problema, pois os ensinos católicos costumam ter tal ancoragem nas Escrituras, em maior ou menor grau. Não são resultado de “raciocínios engenhosos”, frutos da imaginação. E o que não está tão explícito na Bíblia não vem de tradições seculares, mas da tradição da igreja, enfatize-se bem essa distinção.

De todo modo, para que não se tenha nenhuma dúvida que Cirilo não está se referindo ao conceito do Sola Scriptura, vejamos o que ele mesmo escreveu em outra parte:

“Aprenda também diligentemente, e com a Igreja, quais são os livros do Antigo Testamento e quais são os do Novo Testamento. […] Leia as Escrituras Divinas, os vinte e dois livros do Antigo Testamento, estes que foram traduzidos pelos Setenta e dois Intérpretes […] Muito mais sábios e mais piedosos do que você foram os apóstolos e os bispos dos tempos antigos, os presidentes da Igreja que transmitiram estes livros. Portanto, sendo você um filho da Igreja, não ultrapasse os seus estatutos.” (Leituras Catequéticas, Carta 4: 33, 35).

Obviamente, o que Cirilo disse acima é uma alusão à tradução do Antigo Testamento para o grego, chamada de Septuaginta ou Versão dos Setenta, nome dado devido aos seus 72 tradutores.

Como sabemos, nessa versão grega havia os livros “extras” que estão na Bíblia católica, chamados de deuterocanônicos pelos católicos e de “apócrifos” pelos protestantes. Outros autores da igreja primitiva mencionaram textualmente alguns desses livros, a exemplo de Orígenes e de Santo Agostinho. Ver mais detalhes sobre isso no texto sobre as visões de Santa Perpétua.

Naquele tempo os judeus agrupavam os livros do Antigo Testamento em 22 volumes, para coincidir com o número de letras do alfabeto hebraico. Para conseguirem isso, eles juntavam alguns livros para que se tornassem um livro único, como foi o caso dos “profetas menores” (de Oséias a Malaquias) e também do livro de Baruque na Septuaginta, que era colocado junto com o de Jeremias.

6. “A Bíblia é o juiz final em todas as questões de fé e prática. Não devemos depender da tradição ou da autoridade da igreja além do que a Bíblia nos ensina”. (São Jerônimo, Comentário sobre Isaías, prólogo)

Jerônimo não fez tal afirmação. É bizarro achar que ele diria isso em pleno século V, quando a autoridade da Igreja já estava bem estabelecida e reconhecida! Abaixo o que ele realmente escreveu no livro referenciado:

“[…] quem ignora as Escrituras ignora o poder de Deus e sua sabedoria, ignorar as Escrituras é ignorar Cristo […] Tudo o que há nas santas Escrituras, tudo o que a língua humana pode proferir e uma inteligência mortal receber, está contido neste livro [de Isaías]” (Comentário sobre Isaías, Jerônimo).

Nenhum cristão discordará do que Jerônimo disse acima e que não anula o fato de que Jerônimo reconhecia a tradição da Igreja em matéria de ensino, como pode ser visto nas afirmações abaixo dele:

“Você não sabe que a imposição de mãos, depois do batismo e, em seguida, a invocação do Espírito é um costume das Igrejas? Você exigiu prova das Escrituras? Você pode encontrá-la no livro dos Atos dos Apóstolos. E mesmo que não descansasse sobre a autoridade das Escrituras o consenso de todo o mundo a este respeito teria a força de um mandamento, pois muitas outras observâncias das igrejas, que são devidas à tradição, adquiriram a autoridade da lei escrita.” (Diálogo Contra os luciferianos, 8).

Jerônimo ainda disse que se o Papa Dâmaso decretasse um novo decreto sobre as três hypostases da Trindade, mesmo assim ele acataria:

“Se você acha certo promulgar um decreto; então eu não hesitaria em falar de três hipóstases. Encomende um novo credo para substituir o de Nicéia; e então, se somos arianos ou ortodoxos, uma confissão dirá para todos nós”. (Carta 15:4).

Por fim, convém citar dois trechos de Jerônimo que têm sido adulterados em sites protestantes. O primeiro deles é uma citação do comentário de Jerônimo sobre o livro de Isaías, que tem sido erroneamente apresentada da seguinte forma:

“Se vós quereis clarificar as coisas em dúvida, ide à lei e ao testemunho da Escritura; fora dali estais na noite do erro. Nós admitimos tudo o que está escrito, e rejeitamos tudo o que não está”. (Comentário ao livro de Isaías, 7).

O trecho em questão está no livro 3 e não no livro 7. Nele vemos o que Jerônimo realmente escreveu, conforme pode ser confirmado na versão original em latim:

Unde si vultis nosse quae dubia sunt, magis vos legi, et testimoniis tradite Scripturarum. Quod si noluerit vestra congregatio verbum Domini quaerere, non habebit lucem veritatis: sed versabitur in errore tenebrisque.

“Portanto, se vocês querem saber o que é incerto, entreguem-se antes à lei e aos testemunhos das Escrituras. Mas se a sua congregação não estiver disposta a buscar a palavra do Senhor, ela não terá a luz da verdade, mas permanecerá nas trevas do erro” (Comentário ao livro de Isaías, Livro III, 8:37,38 [ou 3:29 na edição em inglês de Thomas P. Scheck, p. 167]).

Quando Jerônimo escreveu tais palavras, ele estava comentando o texto de Isaías 8:19–22, segundo o qual os israelitas não deviam buscar esclarecimento dos mortos e dos adivinhos, mas somente o esclarecimento de Deus. Da mesma forma os cristãos deviam proceder, caso contrário ocorreriam a angústia e escuridão mental descritas na continuação do texto:

“E em sua necessidade você olhará para cima, para o céu e para a terra abaixo, e verá problemas e trevas, fraqueza nas pernas, angústia mental e uma névoa sobre os olhos, e você não será capaz de sair dessa angústia” (Jerônimo).

Esse estado espiritual decaído ocorria precisamente com os hereges, que afirmavam ser cristãos, mas se multiplicavam em seitas conflitantes, em contraste com a unidade da igreja comandada pelos sucessores dos apóstolos. Sobre isso, disse Jerônimo na continuação do texto:

“E quando sempre se mostram no erro, eles nunca ficam satisfeitos com seus erros, devorando a carne de seu próprio braço e lutando contra a Igreja com igual zelo. […] eles têm discórdia entre si, de modo que um heresia se torna duas e as duas se tornam mais, e novamente eles próprios são divididos em partes, para levar seus próprios rebanhos […] Em todas estas coisas não será evitada a ira do Senhor […] quanto mais avançam para o pecado, mais ele estende a mão para punir.” (Comentário sobre Isaías, Livro IV, 9:20,21)

Jerônimo também disse que “os hereges […] na arrogância do seu coração desprezam a igreja”. (Comentário sobre Isaías, 4:2, Scheck).

Sendo assim, se for considerado o devido contexto em uma tradução correta, o trecho de Jerônimo que sites protestantes querem citar não servirá para “provar” o conceito de Sola Scriptura, pelo contrário. Jerônimo nunca disse: “Nós admitimos tudo o que está escrito, e rejeitamos tudo o que não está”. Esta é uma notória adulteração do que foi escrito por ele, uma tentativa grosseira de justificar um conceito criado por dissidentes do Cristianismo original.

O mesmo acontece com o comentário de Jerônimo sobre o livro de Ageu, que aparece em citações espúrias, como se vê em um comentário de Lucas Banzoli, um escritor que se “especializou” em distorcer autores patrísticos (mais exemplos aqui):

“As coisas que se inventam sob o nome de tradição apostólica sem a autoridade da Escritura são feridas pela espada de Deus”. (Comentário ao livro de Ageu, 1:42)

Jerônimo também não escreveu isso. A tradução acima está errada! Isso pode ser constatado no texto em latim. O que Jerônimo realmente afirmou foi o seguinte:

Infertur etiam gladius super montes elevantes se adversus scientiam Dei […] haereticorum conciliabula deceptis populis blandiuntur […] et alia quae absque auctoritate et testimoniis Scripturarum quasi traditione apostolica sponte reperiunt atque confingunt, percutit gladius Dei

“Uma espada também é trazida sobre as montanhas que se levantam contra o conhecimento de Deus […] A assembleia dos hereges induz o povo ao erro […] do mesmo modo outras coisas sem autoridade e sem o testemunho das Escrituras, como se fossem tradição apostólica que eles espontaneamente encontrassem e confinassem, a espada de Deus derruba” (Comentário a Ageu, 1:42).

Se o texto correto fosse o que está na tradução errônea, contradiria todo o argumento que permeia as obras de Jerônimo sobre essa questão, a exemplo do que vimos antes no comentário dele ao livro de Isaías.

Considerando-se a tradução correta desse trecho do comentário sobre Ageu, nota-se facilmente que Jerônimo está se referindo aos hereges que a igreja sempre combatia. Eles agiam como se possuíssem uma tradição apostólica e enganavam as pessoas com seus ensinos, os quais eram derrubados pela Palavra de Deus, como que abatidos por uma espada.

Há mais casos de traduções erradas em sites protestantes. O acima são apenas alguns exemplos.

Ressalte-se que outros escritos patrísticos também mencionam a pretensão dos hereges de se apresentarem como verdadeiros cristãos, ao mesmo tempo em que se contrapunham à igreja e causavam divisões. Um dos que mencionou isso foi Irineu de Lyon:

“Ele [o homem espiritual de 1 Coríntios 2] também julgará aqueles que dão origem a cismas, que são destituídos do amor de Deus e que buscam sua própria vantagem especial em vez da unidade da Igreja; e que, por razões insignificantes ou qualquer tipo de razão que lhes ocorra, cortam em pedaços e dividem o grande e glorioso corpo de Cristo e, até onde neles esteja, positivamente o destroem – homens que falam de paz enquanto dão origem à guerra e, na verdade, coam um mosquito, mas engolem um camelo. Pois nenhuma reforma de tão grande importância pode ser efetuada por eles, de modo a compensar o mal decorrente de seu cisma. Ele também julgará todos aqueles que estão fora do alcance da verdade, ou seja, que estão fora da Igreja; mas ele mesmo não será julgado por ninguém.” (Irineu de Lyon, Contra as Heresias, Livro IV, 33:7)

7. “A Escritura é superior a qualquer autoridade da igreja. Os concílios podem errar e, de fato, já erraram, mas as Escrituras nunca erram”. (Santo Agostinho, Contra epistolam Manichaei, 5)

O que Agostinho mencionou nessa carta é praticamente o oposto do que está transcrito acima. Vejamos:

“Mas se você se encontrasse com uma pessoa que ainda não crê no evangelho, como você responderia se ela dissesse: Eu não acredito? De minha parte, eu não deveria acreditar no Evangelho, exceto quando movido pela autoridade da Igreja Católica […] Se você disser: Acredite nos católicos: o conselho deles para mim é não ter fé em você; de modo que, acreditando neles, estou impedido de acreditar em você – se você disser: Não acredite nos católicos: você não pode usar o evangelho de maneira justa para me levar à fé em Maniqueu; pois foi por ordem dos católicos que eu acreditei no evangelho […] É, portanto, mais justo e mais seguro para mim, tendo em um caso depositado fé nos católicos, não recorrer a você, até que, em vez de me obrigar a acreditar, você me faça entender algo da maneira mais clara e aberta. Para me convencer, então, você deve deixar de lado o evangelho. Se você seguir o evangelho, eu obedecerei àqueles que me ordenaram a crer no evangelho; e, em obediência a eles, não acreditarei em você de forma alguma. Mas se por acaso você conseguir encontrar no Evangelho um testemunho incontestável do apostolado de Maniqueu, você enfraquecerá meu respeito pela autoridade dos católicos que me ordenaram a não acreditar em você […] Portanto, se nenhuma prova clara do apostolado de Maniqueu for encontrada no Evangelho, acreditarei nos católicos e não em você” (Contra a epístola fundamental de Maniqueu, capítulo 5, Santo Agostinho).

Apenas para reforçar, mais uma citação de Agostinho dentre várias que há sobre o tema, para não haver dúvidas de que Santo Agostinho não serve para apoiar o Sola Scriptura:

“Mas com relação àquelas observâncias que seguimos cuidadosamente e que o mundo [cristão] todo mantém, e que não vêm da Escritura, mas da Tradição, é-nos concedido compreender que foi ordenado e recomendado que a guardássemos seja pelos próprios apóstolos, seja pelos Concílios plenários, a autoridade que é tão vital para a Igreja. Por exemplo, a paixão do Senhor, a ressurreição, a ascensão ao céu, a vinda do Espírito Santo do céu, são celebradas a cada ano. O mesmo podemos dizer de qualquer outra tal prática que se observa em toda a Igreja universal”. (Carta a Januário 54:1,1).

8. “As Escrituras e apenas as Escrituras são a norma da fé e conduta. A autoridade da igreja é secundária e deve ser avaliada à luz da Palavra de Deus” (Tertuliano, De praescriotione haereticorum, 19)

Embora a linguagem moderna da “citação” já denuncie que ela não é realmente uma afirmação de Tertuliano, alguém até poderia pensar que Tertuliano disse algo assim, tendo em vista que em dado momento de sua vida ele rejeitou a autoridade da Igreja Católica e aderiu ao montanismo.

No entanto, na referida obra ele não disse o que está acima transcrito e ainda reconheceu que a regra de fé advém tanto das Escrituras quanto da tradição da igreja, vejamos:

“Nosso apelo, portanto, não deve ser feito às Escrituras; nem deve ser admitida controvérsia em pontos em que a vitória será impossível, ou incerta, ou não suficientemente certa. Mas mesmo que uma discussão baseada nas Escrituras não resultasse de tal maneira que colocasse ambos os lados em pé de igualdade, ainda assim a ordem natural das coisas exigiria que este ponto fosse proposto primeiro, que é agora o único que devemos discutir: Com quem está a mesma fé à qual pertencem as Escrituras. De que e através de quem, e quando, e a quem, foi transmitida essa regra pela qual os homens se tornam cristãos? Pois onde quer que seja manifesto que existirá a verdadeira regra e fé cristã, também haverá as verdadeiras Escrituras e suas exposições, e todas as tradições cristãs.” (Da Prescrição contra os Hereges, 19).

E ainda reforçou o argumento em outros trechos, a exemplo desse:

“Mas se houver alguma heresia que seja ousada o suficiente para se apresentar como sendo da era apostólica, de modo que possa parecer ter sido transmitida pelos apóstolos, porque existia no tempo dos apóstolos, podemos dizer: Que produzam os registros originais de suas igrejas! Deixe-os desdobrar o papel de seus bispos, recuando na sucessão até o início, de tal maneira que o bispo deles seja capaz de mostrar que seu ordenador e predecessor é algum dos apóstolos ou dos homens apostólicos […] Pois esta é a maneira pela qual as igrejas apostólicas transmitem seus registros: como a igreja de Esmirna, que registra que Policarpo foi colocado nela por João; como também a igreja de Roma, o que faz com que Clemente tenha sido ordenado da mesma maneira por Pedro. […] mesmo que efetuem esse artifício, não avançarão um passo. Pois a própria doutrina deles, após comparação com a dos apóstolos, declarará, por sua própria diversidade e contrariedade, que não teve como autor nem um apóstolo nem um homem apostólico […] Então, que todas as heresias, quando desafiadas a estes dois desafios pela nossa igreja apostólica, ofereçam a sua prova de como se consideram apostólicas. Mas na verdade eles não são assim, nem são capazes de provar que são o que não são”. (Da Prescrição contra os Hereges, 32).

9. “Porque eu não vos ensinei nada terreno, nem dogmas vãos, mas a doutrina divina; a Escritura é suficiente por si mesma, e nada mais deve ser aceito, nem mesmo uma letra”. (Inácio de Antioquia, Carta aos Filadélfios, 4)

O que Inácio de Antioquia realmente disse nessa carta foi o seguinte (no capítulo oito, não no quatro):

“Fiz, portanto, o que me pertencia, como homem devotado à unidade. Pois onde há divisão e ira, Deus não habita. A todos os que se arrependem, o Senhor concede perdão, se voltarem em penitência para a unidade de Deus e para a comunhão com o bispo. Confio [quanto a você] na graça de Jesus Cristo, que o libertará de todo vínculo. E exorto-vos a não fazer nada por conflito, mas de acordo com a doutrina de Cristo. Quando ouvi alguns dizerem: Se não encontrar isso nas Escrituras antigas, não acreditarei no Evangelho; quando eu lhes disse: Está escrito, eles me responderam: Isso ainda precisa ser provado. Mas para mim Jesus Cristo está no lugar de tudo o que é antigo: Sua cruz, e morte, e ressurreição, e a fé que vem dele, são monumentos imaculados da antiguidade; pelo qual desejo, através de suas orações, ser justificado.” (Carta aos Filadélfios, 8).

Como se vê, ele menciona que algumas pessoas deixavam a igreja sob qualquer pretexto. Diziam que queriam ver nas Escrituras antigas a prova do que era ensinado na igreja e quando a prova lhes era apresentada, achavam que o ponto não estava suficientemente provado. Ou seja, era inútil mostrar as Escrituras para quem já estava no coração apartado da igreja.

Além disso, ele falou que aquele que provocasse divisões na igreja católica comprometeria a própria salvação pessoal:

“Portanto, como filhos da luz e da verdade, fujam da divisão e das doutrinas iníquas; mas onde está o pastor, ali segue como ovelhas. Pois há muitos lobos que parecem dignos de crédito, que, por meio de um prazer pernicioso, levam cativos aqueles que correm para Deus; mas na sua unidade eles não terão lugar […] Porque todos os que são de Deus e de Jesus Cristo também estão com o bispo. E todos os que, no exercício do arrependimento, retornarem à unidade da Igreja, estes também pertencerão a Deus, para que possam viver de acordo com Jesus Cristo. Não erre, meus irmãos. Se alguém seguir aquele que causa cisma na Igreja, não herdará o reino de Deus. Se alguém anda segundo uma opinião estranha, não concorda com a paixão de Cristo”. (Carta aos Filadélfios, 3)

Quem nos tempos modernos não fez o que Inácio recomendou nessa carta e causou uma divisão na Igreja católica?

10. “Nada, portanto, deve ser ensinado na igreja, exceto o que pode ser lido nas Escrituras” (Santo Agostinho, Da Doutrina Cristã, II, 9)

De novo Agostinho… Quanta ousadia insistir em mencionar esse padre notoriamente católico, como se ele tivesse ensinado outra coisa fora do que o catolicismo ensina!

O capítulo 2 desse livro fala sobre signos linguísticos e seus significados. O que foi dito por Santo Agostinho que inspirou a citação espúria acima está no capítulo 7, e o que ele disse difere substancialmente do que está acima “citado”:

“[…] é preciso tornar-nos mansos pela piedade, para não contradizermos a Escritura divina. Seja quando ela for compreendida e vier repreender alguns de nossos vícios, seja quando, incompreendida, nós nos imaginarmos capazes de julgar e ensinar melhor do que ela. Devemos, ao contrário, pensar e crer que é muito melhor e mais verdadeiro o que está escrito ali, ainda que oculto, do que o que possamos saber por nós próprios”. (Da Doutrina Cristã, Livro II, 7:9)

Conforme já comentado, este é um ponto pacífico no ensino cristão: mesmo aquilo que foi aprendido apenas pela tradição não contradiz as Escrituras. Provas disso são apresentadas aos protestantes de maneira recorrente, mas a obstinação deles não os deixa aceitar.

Embora muito mais de Santo Agostinho pudesse ser citado, o que foi mostrado até agora é suficiente.

APÊNDICE

1. O sentido ampliado de textos bíblicos breves: um exemplo

Jesus certa vez disse: “Na casa do Pai há muitas moradas” (João 14:2). Disto se infere que Deus não proverá uma única morada ao fiel. Como se daria isso?

Lendo obras antigas extrabíblicas escritas por cristãos descobrimos que escritores da igreja primitiva, a exemplo de Tertuliano, não acreditavam que o fiel iria diretamente para a presença de Deus ao falecer, salvo exceções. Haveria gradações ao longo do tempo até o fiel chegar à morada máxima e excelsa, onde o próprio Deus está. Até lá ele ficaria em paraísos intermediários, por assim dizer. Pápias, um dos discípulos do apóstolo João, mencionou isso em um de seus escritos, como pode ser visto em um livrinho que eu escrevi, acessível no link abaixo:

A vida atual dos patriarcas e a tradução correta de Hebreus 11:16

O ponto de partida desse meu livro é Hebreus 11:8, 16, que diz:

“Pela fé Abraão, quando chamado, obedeceu, saindo para um lugar que estava destinado a receber em herança [na Terra de Canaã]… e morava em tendas, com Isaque e Jacó… Mas agora eles procuram alcançar um lugar melhor, isto é, um pertencente ao céu. Por isso, Deus não se envergonha deles, de ser chamado seu Deus, porque aprontou para eles uma cidade”.

Se eles já estavam com Deus no céu, por que Paulo disse “agora procuram”? É assim mesmo que está no grego original, entretanto muitos tradutores costumam deixar o verbo no passado, ao que parece para eliminar essa aparente contradição, como se vê na Nova Versão Internacional:

“Em vez disso, esperavam eles uma pátria melhor, isto é, a pátria celestial”.

No entanto, caso se busque nos escritores antigos o que se entendia sobre o assunto veremos que não há contradição alguma. Procurei discorrer sobre esse assunto o mais detalhadamente possível no livro acima indicado.

2. “Da profissão cristã”, trecho do cap. 3, Gregório de Nissa, tradução livre da versão grega mediante consulta ao texto em latim.

Pois assim como pela participação em Cristo recebemos o título de cristãos, segue-se que também somos atraídos a participar dos elevados nomes que lhe pertencem. E assim os que dele participam estão ligados um no outro por meio de uma aliança, assim como em nome de Cristo em todo o resto se multiplica a felicidade inefável, unidos por natureza e que move à ação de uns para com os outros.

Se alguém se reveste do nome de Cristo, mas não leva em consideração esse nome em sua vida, o nome de Cristo se torna sem efeito e a pessoa se torna com que um macaco querendo ser homem. Pois é impossível para Cristo não ser justiça e pureza e verdade e alienação de todo mal, do mesmo modo que não é verdadeiramente cristão quem não manifesta em si mesmo tais virtudes.

Aqueles que ouviram as palavras do cristianismo interpretaram em suas mentes, por assim dizer, que o cristianismo é a imitação da natureza divina. E ninguém que transcende a natureza com humildade desacredita a palavra, pois não excedeu essa natureza. Se alguém considerar a primeira condição do homem para que fosse explicada, foi mediante as Escrituras que a explicação dos limites da natureza chegou até nós. O primeiro homem foi feito à semelhança de Deus. Moisés filosofou ao dizer que o homem havia sido criado por Deus segundo à Sua imagem. Assim, a proclamação do Cristianismo é que o homem seja restaurado à sua antiga felicidade.

(…)

Mostra-se a espécie na forma de imagem da espécie, pois o arquetípico são formas conceituais. Se o Cristianismo é uma imitação de Deus em nome Dele, não teremos recebido o mistério da Palavra se em nossa vida não estivermos imitando o Deus em quem se acreditou, para que nós e Deus sejamos cridos. Assim, se todos forem exemplos amorosos, acreditarão em nós e nos respeitarão, aceitando o Deus que mostramos. Mas se nossas paixões forem ferozes e bestiais, se multiplicando em muitas outras (os animais estão longe de combater essa natureza, pois não são formados para combatê-la), então quem se comporta assim, mesmo professando ser cristão que imita a Deus, será reprovado pelos incrédulos, e por isso não aceitarão o Deus em quem acreditamos.

Pois mesmo a Escritura proclama coisas terríveis, dizendo: “Porque o meu nome é blasfemado entre as nações”. E entendi que o Senhor disse aos que têm ouvidos: “Sede perfeitos assim como vosso Pai celestial é perfeito”, pois o pai do que chamou os que creram é o verdadeiro pai, quer também quer a perfeição dos que são considerados dele, e aqueles por meio dele.


Notas

[1] Parece-me que há uma contradição no próprio conceito de sola scriptura, que faz com que ela se auto anule. Se o cristão não deve acreditar em ensinos que não estão especificados na Bíblia, então o sola scriptura deve ser rejeitado, pois em nenhum lugar a Bíblia o apresenta. Não há essa regra exegética nas Escrituras. E nem poderia, pois conforme vemos na Patrística, a tradição oral dos apóstolos era um forte parâmetro balizador das crenças dos cristãos, sem necessidade de documentos escritos. Aliás, nas primeiras décadas do Cristianismo praticamente só havia essa fonte de informação, pois muitos livros do Novo Testamento nem tinham sido escritos ainda.

Autor: Adelmo Medeiros

Fortaleza, 11 de julho de 2026.

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