Conclusão
7. O verdadeiro motivo porque não abandonam o ano 607 a.C.
Conforme percebeu-se nos comentários precedentes, existem muitas informações importantes que não foram abordadas na série publicada na Sentinela sobre o ano da destruição de Jerusalém (A Sentinela, 01/10/11 e 01/11/11). Na verdade, seria necessário um livro para a Torre de Vigia tratar o assunto da maneira que ele merece. No entanto, dificilmente ela fará isso um dia, pois, à medida que seus escritores tentassem se aprofundar no tema, ficaria evidente até mesmo para eles que não há fundamento bíblico nem histórico para a data 607 AEC*. O que já foi comentado aqui é suficiente para perceber isso. Além do mais, é fato notório que a maioria das “Testemunhas de Jeová” não se interessa por cronologia neobabilônica, de modo que as contradições não explicadas pela Torre de Vigia cairão, por fim, no esquecimento. Mas os que desejarem se aprofundar nessa matéria é altamente recomendado que leiam o livro “Tempos dos Gentios Reconsiderados”, do escritor sueco Cal Olof Jonsson.
* E isso realmente já aconteceu com um deles, o ex-membro do “Corpo Governante” Raymond Franz. Na década de 70, ele recebeu um farto material enviado por Carl Olof Jonsson junto com a árdua tarefa de refutá-lo. Devido ao que leu, Franz se convenceu de que a data 607 AEC está errada. Com o tempo, Raymond Franz passou a discordar de outros assuntos. Posteriormente, foi excomungado como “queima de arquivo (não ‘oficialmente’)”. Em seguida, lançou os livros Crise de Consciência e Em Busca da Liberdade Cristã.
Qual o verdadeiro motivo para a Torre de Vigia não abandonar 607 AEC?
Em 1844, o reverendo Edward Bishop Elliott, titular da Igreja de Marcos, em Brighton, e graduado no Trinity College, de Cambridge, publicou o livro Horae Apocalypticae, onde discorria sobre temas proféticos e cronológicos. Ele foi provavelmente o primeiro comentarista a publicar uma aplicação dos “sete tempos dos gentios” que leva ao ano de 1914. Neste caso, para ele os “sete tempos” deveriam começar no ano de ascensão do monarca Nabucodonosor, de Babilônia. Erroneamente, ele achou que o ano de ascensão de Nabucodonosor fosse o ano 606 a.C. Somando 2.520 anos a 606 concluiu que os “sete tempos dos gentios” terminariam em 1914. Disse ele:
“Naturalmente, se for calculado desde a própria ascensão de Nabucodonosor e invasão de Judá, em 606 A.C., o fim será bem mais tarde, em 1914 A.D.” – Horas Com o Apocalipse, Vol. III (1844), p. 1429, de E. B. Elliott.
Nesse cálculo ele cometeu um outro erro, pois não existe “ano zero” (o que vem depois do ano 1 a.C. é o ano 1 d.C, não existe um ano de “ligação”). Corrigindo-se esse erro o término do cálculo feito por Elliott seria, na verdade, em 1913.

(fac-símile publicada em Tempos dos Gentios Reconsiderados, de Carl Olof Jonsson)
Os quatro volumes da obra de Elliott podem ser adquiridos nos links abaixo:
— Horae Apocalypticae , parte 1 (18,5 Mb, pdf).
— Horae Apocalypticae , parte 2 (18,5 Mb, pdf).
— Horae Apocalypticae , parte 3 (15,8 Mb, pdf).
— Horae Apocalypticae , parte 4 (21,6 Mb, pdf).
Então, para os 2.520 anos terminarem em 1914, seria necessário recuar o ponto de partida para 607 a.C. E assim foi feito posteriormente por aqueles que se apegaram à teoria dos “sete tempos dos gentios”. Foi o caso do adventista Nelson Barbour e outros. Os “Estudantes Internacionais da Bíblia”, como eram chamadas as “Testemunhas de Jeová” (eles mudaram de nome na década de 30), aprenderam sobre os “sete tempos dos gentios” no contato que mantiveram com Barbour, conforme já admitiu a Torre de Vigia em algumas publicações:
“Em 1844, um clérigo britânico, E. B. Elliott, chamou atenção a 1914 como possível data para o fim dos ‘sete tempos’ de Daniel, capítulo 4. Em 1849, Robert Seeley, de Londres, abordou o assunto de modo similar. Joseph Seiss, dos Estados Unidos, indicou 1914 como data significativa na cronologia bíblica numa publicação editada por volta de 1870. Em 1875, Nelson H. Barbour escreveu em sua revista Herald of the Morning que 1914 marcava o fim de um período que Jesus chamou de ‘tempos designados das nações’.” – Despertai!, 8/11/1994, p. 10.
“Em 1877, Russell juntou-se a Nelson H. Barbour na publicação do livro Três Mundos e a Colheita Deste Mundo. Este indicava que o fim dos Tempos dos Gentios, em 1914, seria precedido por um período de quarenta anos, a começar com uma colheita de três anos e meio a partir de 1874 E. C.” – A Sentinela, 15/02/1975, p. 122.
Mas para Nelson Barbour e os “Estudantes da Bíblia” o ponto de partida dos “sete tempos dos gentios” deveria ser o ano da destruição de Jerusalém, e não o ano de ascensão de Nabucodonosor. Consequentemente, visto que acreditavam que o exílio judaico durou 70 anos, a destruição de Jerusalém deveria ser mudada para 607 a.C., descartando-se a data informada pelos historiadores (587 a.C.). Ou seja, mudaram uma data bem estabelecida por simples “decreto”.
Uma vez criada essa “cronologia bíblica”, eles estavam prontos para iniciar suas especulações proféticas. Por exemplo, predisseram que todos os governos do mundo seriam eliminados pelo reino de Deus em outubro de 1914. Esta foi a primeira de uma série de datas que eles já marcaram para o “fim do mundo” (o que não fazem mais hoje). O ano de 1914 passou e o Armagedom não veio. Entretanto, aconteceu algo realmente significativo em 1914. Em agosto daquele ano começou a Primeira Guerra Mundial. Ou seja, miraram no que viram e acertaram no que não viram. Desde então se apegam ao discurso de que 1914 foi o início das “dores de aflição” da humanidade.
A Torre de Vigia não mede esforços para encontrar falhas ou contradições nas fontes arqueológicas que dão suporte à verdadeira data da destruição de Jerusalém, 587 a.C. O motivo dela não abandonar a especulação dos “sete tempos dos gentios”, como já foi feito pelos adventistas*, é que 1914 se tornou um divisor de águas em sua história. Um mito, na verdade. Eles criaram uma série de outras especulações associadas a esta data. Dizem que 1914 é o início dos “últimos dias”. Que nesse ano Jesus olhou para o mundo e reprovou todas as religiões, exceto as “Testemunhas de Jeová”, o que faz delas os “únicos cristãos verdadeiros” da atualidade. Além disso, Jesus teria designado os líderes da Torre de Vigia seus únicos representantes na Terra, através dos quais ele ensinaria a humanidade.
* Quando o primeiro presidente da Torre de Vigia morreu, Charles Taze Russell, muitas congregações dos “Estudantes da Bíblia” não aceitaram o novo presidente. Por isso, se desligaram da Torre de Vigia e formaram suas próprias associações. Algumas delas existem até hoje, e seus integrantes ainda chamam a si mesmos de “Estudantes da Bíblia”. São, portanto, um outro grupo que também acredita na doutrina dos “sete tempos dos gentios”.
Hoje em dia, as “Testemunhas de Jeová” acreditam que seu “Corpo Governante”, sediado em Nova Iorque, é o “escravo fiel e discreto” usado por Jesus Cristo para comandar as demais “Testemunhas”, chamadas de “outras ovelhas” ou “grande multidão”, que chegam hoje a milhões de pessoas. Estas últimas não devem criar expectativas para irem ao céu, pois o lugar delas é aqui na Terra, quando ela for transformada em um paraíso (o mesmo vale para cristãos de outras épocas que não foram selecionados para integrarem os 144.000 “ungidos”). Até a implantação do paraíso terrestre, as “outras ovelhas” devem se sujeitar às “orientações” que “Jesus Cristo” passar através da “organização de Jeová”, cujo núcleo terrestre está em Nova Iorque, nos corredores da Torre de Vigia. Os desobedientes a essas orientações “teocráticas” ou os que renegarem à Torre de Vigia (“apóstatas” e opositores) serão destruídos no Armagedom. Isto também se aplica aos demais da humanidade que não estão associados à Torre de Vigia. Todos eles serão eliminados por Deus. Resumidamente, essas são as “boas novas” pregadas pelas “Testemunhas de Jeová”…
Portanto, no final das contas, o que está realmente envolvido é a autoridade eclesiástica que o “Corpo Governante” tem sobre as “Testemunhas de Jeová”. É por isso que eles não querem abandonar o ano 607 a.C., pois se fizessem isso o mito sobre 1914 desmoronaria e todas as especulações proféticas associadas a ele. Seria o fim da pretensa autoridade que dizem ter sobre os cristãos, a não ser que a fértil imaginação de seus escritores produzisse uma “ótima” e “convincente” explicação às “Testemunhas de Jeová” para uma mudança assim tão radical. Comparando, seria como se o “Papa” chegasse para os católicos e dissesse, em comunicado oficial da Igreja, que o “trono de Pedro” é um mito e que a “Igreja Católica” não tem origem divina, mas mesmo assim os católicos deveriam aceitá-lo na função de “vigário de Cristo” na Terra.
É pela mesma razão que o “Corpo Governante” demoniza os que mostram as falhas de seu ensino. Implantam um medo mórbido na mente dos seus seguidores a respeito dos que escrevem refutando a crononologia da Torre de Vigia. As “Testemunhas de Jeová” temem consultar essas informações, pois foram ensinadas que são matérias inspiradas por demônios, e que servem aos interesses do Diabo. E os que lêem tais refutações são expulsos da religião pelos seus “pastores”, caso sejam descobertos nessa “prática pecaminosa”.
Consideração final
As evidências contra a data 607 a.C. são tão gigantescas que se tudo fosse estudado ninguém teria coragem de defendê-la. Só mesmo os líderes da Torre de Vigia tentam esse feito, numa renitente e orgulhosa teimosia. Rolf Furuli incorporou perfeitamente esse comportamento. Sua “Cronologia de Oslo” demonstrou isso.
Pelo que foi apresentado até aqui, percebemos o quão irresponsável é a declaração abaixo:
“Assim, esses dados apoiam o ano de 607 AEC como a data da destruição de Jerusalém – exatamente como a Bíblia indica.” – A Sentinela, 01/11/2011, p. 27.
Trata-se de uma afirmação enganosa, sem nenhum respaldo, pois:
1) Os dados gerais tirados das tabuinhas não apoiam de maneira alguma o ano 607 para a destruição de Jerusalém. Pelo contrário, o contradizem, conforme pode ser visto adicionalmente em outros textos publicados em www.adelmomedeiros.com (Artigos \ História Universal).
2) A Bíblia não fornece data alguma. Diz apenas que Nabucodonosor destruiu Jerusalém em seu 18º ano de reinado. Sem as tabuinhas cuneiformes e as fontes históricas não é possível saber que ano foi esse.
Além disso, o ano 587 não contradiz absolutamente nada do que a Bíblia menciona sobre o exílio dos judeus, e está em harmonia com certos detalhes nunca destacados nas publicações da Torre de Vigia. Crer na data 587 AEC para a destruição de Jerusalém não é renegar a Palavra de Deus, como a Torre de Vigia insinua. Nem tampouco renegarão o Cristianismo aqueles que optarem por crer no ano 587. De fato, acreditar ou não nessas datas não tem a menor importância para a salvação, ao contrário do que é ensinado às “Testemunhas de Jeová”, através daquelas estórias de “1914”, “últimos dias”, “escravo fiel e discreto”, “apostasia” etc. Para ser um cristão verdadeiro basta seguir os princípios abaixo:
“Jesus disse-lhe: ‘Eu sou a ressurreição e a vida. Quem exercer fé em mim, ainda que morra, viverá; e todo aquele que vive e exerce fé em mim nunca jamais morrerá.” – João 11:25-26.
“Vedes que o homem há de ser declarado justo por obras e não apenas pela fé….. Deveras, assim como o corpo sem espírito está morto, assim também a fé sem obras está morta.” – Tiago 2:24, 26.
“Se algum homem achar que é adorador formal, contudo não refrear a sua língua, mas prosseguir enganando seu próprio coração, a forma de adoração de tal homem é fútil. A forma de adoração que é pura e imaculada do ponto de vista de nosso Deus e Pai é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas na sua tribulação, e manter-se sem mancha do mundo.” – Tiago 1:26-27.
“Por meio disso saberão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor entre vós.” – João 13:35.
“João disse: ‘Mestre, vimos um homem que expulsa demônios em teu nome. Mas nós lhe proibimos, porque ele não anda conosco.’ Jesus disse-lhe: ‘Não lhe proíbam. Pois, quem não está contra vocês, está a favor de vocês’.” – Lucas 9:49, 50, Edição Pastoral.
“[Jesus disse:] Pois, onde há dois ou três ajuntados em meu nome, ali estou eu no meio deles.” – Mateus 18:20.

“Eu estou aqui, junto de vocês”
Somente os textos acima são suficientes para desmontar as pretensões dos líderes da Torre de Vigia, resultantes das especulações proféticas relacionadas ao ano de 1914, que levam os seus seguidores a acreditar que fazem parte da “única religião verdadeira” e que são “os verdadeiros cristãos aprovados por Jesus Cristo”, e que “todos os outros que se dizem cristãos, são, na verdade, falsos cristãos”. Mesmo que as “Testemunha de Jeová” não saiam falando abertamente tais conceitos, é exatamente assim que elas pensam.
Apesar de ser muito difícil uma pessoa que está no rol de seguidores da Torre de Vigia admitir, o que acontece é que a liderança mundial das “Testemunhas de Jeová” mascara a realidade para elas, deixando-as num estado permanente de “ignorância esclarecida”. Com textos bem escritos e atraentes, tocam na superfície dos assuntos, mas não deixam seus seguidores analisá-los com PROFUNDIDADE nas fontes realmente confiáveis. Os que resolvem fazer isso correm o risco de serem excomungados (desassociados/afastados). É uma lástima!
