“Deixe o alimento ser o seu remédio e o remédio seu alimento” (Hipócrates)
Quando o ser humano caçava e colhia frutos para a própria sobrevivência, naquela época primeva, o perigo o rondava diariamente, ameaçando-lhe a vida. O risco não se resumia apenas a uma morte abrupta, como aquela ocasionada por feras selvagens, mas também pelo adoecimento devido às intempéries naturais que afetam o organismo das pessoas.
Neste caso, era preciso combater as doenças com tratamentos rudimentares capazes de auxiliar o sistema imunológico e proporcionar uma recuperação mais rápida do doente. Naturalmente, pouco se sabia sobre tais mecanismos biológicos. Desde então muita coisa mudou, e para melhor, pois descobriram-se formas mais eficientes de tratamento. E não só isso.
O homem depois percebeu que, além de tratar, ele poderia prevenir determinadas doenças, o que hoje é conhecido por profilaxia, palavra de etimologia grega que significa precaução. As vacinas surgem nesse contexto de prevenção, após longo período de aprendizado coletivo que visa ao alcance da saúde e, por consequência, de uma vida potencialmente mais longa.
A humanidade em sua busca por tratamento médico e saúde
Como qualquer tipo de aprendizagem, descobrir as maneiras mais adequadas de tratar uma pessoa convalescente não foi um processo sempre eficiente e linear. Foi preciso aprender com os próprios erros.
Um exemplo notório é o uso que se fazia do mercúrio, que os gregos e romanos achavam possuir propriedades curativas, ao passo que, na realidade, é uma substância prejudicial capaz de causar diversos males tais como problemas neurológicos e hepáticos. Mesmo assim, em pleno século XIX ainda era utilizado por médicos para tratar doenças como a sífilis (TILLES; WALLACH, 1996; JÄRUP, 2003; VALDERAS, 2013).
Conforme Santos (2013), na Antiguidade já eram utilizadas substâncias vegetais, minerais e animais com o objetivo de curar doenças. Os egípcios, por exemplo, usavam o ópio como substância hipnótica e a beladona como narcótico. Os princípios ativos de diversas substâncias eram utilizados para formar um repositório de drogas com fins terapêuticos, o que atualmente é a função da farmacologia.
Um dos documentos mais antigos que descreve doenças e formas de tratá-las é o Papiro de Ebers (c. 1500 a.C.). Ele contém um receituário fitoterápico com uma lista de plantas medicinais, a exemplo de açafrão e alho, e a maneira de utilizá-las de acordo com a doença. Além disso, apresenta a primeira descrição que se conhece da Diabetes Mellitus (RAMOS et al., 1998; MOTA et al., 2018; BADARÓ, 2018; ANGELOVA, 2018).
O momento da história, porém, em que se pode dizer que já havia um conhecimento melhor sistematizado para o tratamento de doenças é a Antiguidade clássica, sendo seu primeiro expoente o médico Hipócrates (460-377 a.C.), considerado o pai da medicina moderna e que influenciou gerações de médicos, passando por Galeno (130-200 d.C.) até Avicena (980-1037 d.C.), na Idade Média (SANTOS, 2013; FIORINI, L. R.; MANSO, M. E. G., 2021). Desse tempo em diante, a medicina passou a ter maior sofisticação, ainda que com as limitações próprias de cada época.
Por exemplo, segundo Tubino e Oliveira (2017), a urina de animais foi utilizada para fins terapêuticos. A de éguas grávidas era usada em terapia de reposição hormonal feminina. E veja que atualmente a indústria farmacêutica também utiliza a urina de éguas prenhes para produzir um repositor hormonal chamado Premarin®, mediante uma técnica que isola os estrogênios presentes na urina do animal.
De acordo com os mesmos autores, a urina se tornou tão lucrativa no mundo romano que os imperadores Nero e Vespasiano cobravam imposto sobre a utilização da urina humana. Havia outras aplicações além das terapêuticas. Era usada, por exemplo, na indústria do curtume e em produtos de limpeza doméstica, devido à amônia que se decompõe da urina armazenada. Hoje em dia, produtos de limpeza também possuem amônia em sua composição, devido à sua capacidade de remover gorduras.
Outro antigo procedimento médico que sobreviveu até os dias atuais é a utilização de sanguessugas (hirudíneos), prática que se atribui originalmente ao médico Galeno, do século II. De acordo Iwama (2017), as sanguessugas serviam para drenar o acúmulo de sangue em lesões subcutâneas e, embora hoje esse uso tenha diminuído, elas continuam sendo utilizadas nos transplantes de tecidos, na reimplantação de partes amputadas e na remoção de sangue estagnado. O que faz esses animais possuírem tal utilidade é sua secreção salivar, que possui propriedades anti-inflamatória, vasodilatadora, anestésica e antibiótica, além de função coagulante.
A helioterapia era outro método terapêutico prescrito pelos antigos médicos, que consiste em expor o corpo inteiro à luz do sol. Hipócrates, Galeno e outros incentivavam esse costume, que os romanos chamavam de cura solar. Nas termas de Roma havia uma sala chamada solarium destinada somente a tal propósito. Cícero (106-43 a.C.) e Plínio (c. 61-114 d.C.) mencionam que nela havia dois tipos de banhos de sol, o solem assum, com a simples exposição direta ao sol e o sol lundus, em que o corpo era exposto após ser untado com óleos (TELES, 1919; BIEDMA LÓPEZ, 2007).
A helioterapia dos romanos visava a combater lesões na pele, ftiríase, raquitismo, artrite, anasarca, leucorreia, polisarcia e afecções uterinas. No século XIX, o médico Giuseppe Barellai inovou ao introduzir a terapia solar para tratar tuberculose. Alguns anos depois, o médico Auguste Rollier estabeleceu que o sol possui ação bactericida sobre o bacilo da tuberculose, descoberto na mesma época por Robert Koch. Devido a isso, foram feitas experiências com luz artificial irradiada por lâmpada de quartzo a vapor de mercúrio (BELCULFINÉ, 2001).
Já no início da pandemia do novo coronavírus, estudos aventaram a possibilidade de a luz azul ser eficaz no tratamento da COVID-19, por ter efeito bacteriano comprovado, eliminando inclusive outros tipos de coronavírus. Se mais estudos fossem feitos sobre essa aplicabilidade, se houver sucesso nos resultados será uma opção adicional no combate a essa doença (ENWEMEK et al., 2020).
A produção de vitamina D, substância essencial para a saúde
Os antigos realmente estavam certos ao tentarem curar doenças com a luz do sol. Ainda que não soubessem, o colecalciferol, conhecido por vitamina D3 (na realidade, ele tem a função de um hormônio), é talvez a mais importante substância que contribui para um sistema imunológico eficiente contra as doenças. E são justamente os raios solares, especificamente os ultravioletas B (UVBs), que fazem o corpo humano produzir vitamina D, sendo que os UVBs estão totalmente disponíveis somente ao meio-dia (GRIGALAVICIUS, 2016; HAWK, 2020).
De acordo com Mccullough (2021), a vitamina D foi capaz de controlar asma e artrite reumatoide, e atualmente mostra ser um tratamento seguro e eficaz contra a psoríase, mediante as estratégias de reposição oral, aplicação tópica, fototerapia UVB e exposição à luz solar. E os benefícios não param por aqui, pois se estendem ao próprio combate contra o Sars-Cov-2, pois estudos já indicam que a vitamina D3 e os raios UVB do sol podem ser importantes aliados contra a COVID-19 (MOOZHIPURATH; KRAFT, 2021).
Isso significa que, se o antigo costume da helioterapia fosse resgatado pela medicina contemporânea, haveria significativo impacto na melhoria da saúde das pessoas, inclusive na mitigação da COVID-19. E isto seria alcançado gratuitamente, pois o sol está disponível a todos sem ser preciso pagar por ele.
Para saber como obter o máximo benefício do sol para que seu corpo produza vitamina D, leia o artigo “Estratégias adicionais para o controle da COVID-19, uma janela perdida”.

A utilização de plantas e o desenvolvimento farmacêutico
Sobre esses saberes ancestrais de usar elementos da natureza para a cura de doenças, pode-se mencionar também a lendária Triaga Brasilica, uma beberagem criada pelos padres jesuítas do período colonial. Segundo consta, eles foram ensinados por índios brasileiros sobre como utilizar as plantas com objetivos medicinais.
Por exemplo, aprenderam que a salsaparrilha podia ser utilizada eficazmente contra males do estômago, além de produzir um suco refrescante, que as folhas de tabaco facilitavam o processo digestivo e que as de abacaxi eram eficazes para eliminar pedras dos rins e da vesícula (MOZER; TELLES, 2002). Com o tempo, foi formada uma botica (farmácia) de ervas naturais.
A Triaga Brasilica era cobiçada até pelos europeus, conforme relata Calainho (2005):
[…] Triaga Brasílica, composta de dezenas de ervas, plantas, raízes, gomas, sais minerais e óleos, para cura de envenenamentos, ocasionados tanto por ervas e plantas como por animais, além de outras tantas enfermidades: quaisquer dores internas, verminoses intestinais, febres, doenças epidêmicas, doenças “de mulheres”, etc. De largo consumo no Brasil e na Europa, vendida a preços altos, foi elaborada no Colégio da Bahia e gerou recursos consideráveis para a instituição (CALAINHO, 2005).
De acordo com Leite (2011, 2012), a Triaga era uma versão da “antiga Teriaca inventada pelo médico pessoal do imperador Nero, Andrômaco o velho, e cuja receita havia sido notabilizada e difusa pelo médico de Pérgamo, Galeno, em sua obra De therica ad Pisonem”. Segundo o autor, não obstante os jesuítas tenham acrescentado novos ingredientes e mudado os métodos de preparação, baseavam-se naquela antiga receita do mundo romano. De todo modo, após a expulsão dos jesuítas do Brasil pelo marquês de Pombal a fórmula da Triaga Brasilica foi perdida.
Tais experiências do passado acabaram por se incorporar em níveis variados à atual medicina, através da manipulação farmacológica. É o caso de uma planta chamada quina (coutarea hexadra), exclusiva da América do Sul, pertencente ao gênero Cinchona (cinchona calisaya). Sobre ela, Szczerbowski e Oliveira (2009) mencionam o seguinte:
1638 – A história registra que neste ano,1 a condessa de Chinchón, esposa do vice-rei espanhol no Peru, foi acometida de forte febre terçã. Ao ingerir uma poção feita pelos índios chamada “quina-quina” a febre cedeu e a continuidade do tratamento a deixou curada. […].
A partir deste relato, padres jesuítas da missão espanhola levaram o pó para a Europa para vendê-lo como um medicamento, que depois ficou conhecido como “pó dos jesuítas”. Em 1679, o Rei Charles II da Inglaterra foi vitimado por uma forte febre, porém sendo protestante, preferia morrer a tomar um medicamento católico, por melhor que ele fosse. Neste contexto, surge Robert Talbor com um medicamento “protestante” que o rei não hesitou em tomar. Ficou curado e como agradecimento sagrou Talbor, cavaleiro e médico real. Alguns anos depois foi revelado que o remédio protestante de Talbor era na verdade o “pó dos jesuítas” apenas em uma formulação diferente.
O sucesso do tratamento do rei e da condessa deveu-se às propriedades curativas da casca da quina, que possui um alcaloide chamado quinina, que é eficaz contra a malária. A quinina foi isolada pela primeira vez em 1820, pelos químicos franceses Joseph Pelletier e Joseph-Bienaimé Caventou (SEMEDO et al., 2001; González et al., 2020).
Posteriormente, foram criadas moléculas sintéticas que imitam a função antimalárica da quinina. Em 1943 disponibilizou-se a primeira delas, a cloroquina (CQ). Depois, em 1946, o fosfato de cloroquina foi sintetizado em hidroxicloroquina (HCQ), uma versão menos tóxica, mas que só foi disponibilizada em 1955. Até hoje ela é utilizada para combater não somente a malária, mas também lúpus e artrite reumatoide. Devido à resistência que determinado causador da malária desenvolveu à CQ e à HCQ, começaram a ser desenvolvidos antimaláricos com outros princípios ativos (SÁ, 2010; PEREIRA, 2013; PINHEIRO et al., 2013; GARCÍA; VALENCIA, 2011).
Figura 1 – Estruturas moleculares da quinina, cloroquina e hidroxicloroquina

Fontes: OLIVEIRA; SZCZERBOWSKI (2009) e ACFB (2020), adaptado.
Por fim, uma importante descoberta para a medicina foi a penicilina, que tem sido usada como poderoso agente bactericida. Alexander Fleming a descobriu por acaso, em 1928, muito embora a experiência passada de Fleming tenha proporcionado a perspicácia necessária para que ele percebesse que estava diante de um novo fármaco capaz de salvar milhões de pessoas, o que de fato tem acontecido desde então.
Conforme Pereira e Pita (2005), durante a Primeira Guerra Mundial, Fleming foi convocado pelo governo britânico para desenvolver uma vacina contra a febre tifoide e para estudar as feridas dos soldados a fim de encontrar uma forma de evitar infecções. Após a guerra, em 1919, tornou-se vice-diretor do Serviço de Inoculação.
Os estudos de Fleming prosseguiram. Certa vez, ele deixou no laboratório uma colônia de estafilocócicas e, ao retornar depois, percebeu que havia se desenvolvido um fungo na placa de Petri onde os estafilococos estavam e não havia mais a presença deles até uma considerável distância do fungo. Estava então descoberta a penicilina (PEREIRA; PITA, 2005).
Conclusão
Como se nota, embora a medicina contemporânea tenha alcançado um grau de eficiência jamais visto na Antiguidade, não seria sábio ignorar saberes ancestrais sobre maneiras de tratar determinadas doenças e hábitos que podem melhorar a saúde da pessoa. Inclusive porque parte do que se alcançou na medicina deve-se ao que foi descoberto e testado no passado distante. A postura mais sensata é, portanto, combinar os benefícios do que foi aprendido em vários momentos da história.
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