Quando Babilônia destruiu Jerusalém? – análise de dois artigos da revista “A Sentinela”

Introdução

1. Visão geral dos dois artigos e o seu principal erudito (oculto)

Certa vez, a organização da Torre de Vigia, órgão dirigente das “Testemunhas de Jeová”, publicou na revista “A Sentinela” dois artigos com proposta erudita para defender uma cronologia que difere do ano amplamente aceito, segundo a qual Jerusalém teria sido destruída pelos babilônios em 607 a.C. e não em 587 a.C., como está nos livros de história. Tais artigos estão nas Sentinelas de 1º de outubro e 1º de novembro de 2011. Elas discorrem sobre história, astronomia e tabuinhas cuneiformes em dois textos atraentes e bem escritos.

O objetivo desse esforço em contradizer uma data bem estabelecida pelos historiadores tem a ver com um ensino de sua escatologia, chamado de “sete tempos dos gentios”, que também já foi defendido por adventistas do século XIX. A Torre de Vigia ensina que um período profético de 2.520 anos terminou no ano de 1914 d.C. e que o início dessa contagem começou no ano da primeira destruição de Jerusalém.

Assim, para se chegar ao ano de 1914 é necessário que Jerusalém tenha sido destruída em 607 a.C. Para mais detalhes sobre isso, leia a conclusão indicada no sumário desta análise.

Visão geral dos dois artigos

No primeiro artigo, pela primeira vez a Torre de Vigia menciona que, de acordo com a “cronologia secular” e algumas traduções da Bíblia (talvez a maioria delas), os 70 anos de Jeremias 29:10 se referem ao domínio de Babilônia sobre as nações e não ao exílio dos judeus em Babilônia. Realmente, a hegemonia babilônica durou exatos 70 anos (609-539 a.C.), conforme predito na Bíblia e informado por historiadores:

1. “Estas nações terão de servir ao rei de Babilônia por setenta anos.” – Jeremias 25:11.

2. “Somente quando os setenta anos concedidos ao rei de Babilônia acabarem, é que eu vos visitarei e cumprirei minha promessa em vosso favor por trazer-vos de volta a este lugar.” – Jeremias 29:10, Jerusalem Bible.

3. “Quando se completarem os setenta anos, castigarei o rei de Babilônia e a sua nação”, diz O SENHOR. – Jeremias 25:12, Nova Versão Internacional.

4. “Os assírios foram definitivamente derrotadas [por Babilônia] em 609 a.C. e a Assíria desapareceu da história.” – Dicionário Bíblico, de John L. Mackenzie, 2001, Ed. Paulus, p. 90, colchetes acrescentados.

5. “[Deus] se refreou de agir até o seu devido tempo…. em 539 AEC, secou e devastou Babilônia e suas defesas.” – Profecias de Isaías, Vol. II, p. 43, § 23, publicado pela Torre de Vigia, colchetes acrescentados.

Embora essa informação seja do conhecimento de muitos estudiosos, foi a primeira vez que as “Testemunhas de Jeová” tiveram a oportunidade de saberem algo a respeito dela, já que estão praticamente proibidas de estudarem esses assuntos em outras fontes que não sejam as publicações da Torre de Vigia.

Obviamente, a Torre de Vigia não concorda com essa aplicação dos 70 anos e tenta provar em seguida que eles não se referem ao domínio de Babilônia. Esta é uma missão bastante difícil, pois as cinco citações acima são bem claras, não acha? Apesar das explicações dadas na Sentinela serem bem superficiais, certamente agradou a maioria das “Testemunhas de Jeová”, uma vez que raramente elas têm intimidade com esse tipo de assunto.

Já no segundo artigo mantém-se o esforço iniciado na primeira parte para desacreditar algumas fontes arqueológicas que contradizem a data 607. Das importantes tabuinhas cuneiformes do período neobabilônico, ele se concentra apenas em uma delas, o diário astronômico VAT 4956, e deixa diversas outras evidências de fora, sem mencioná-las (existem várias provas adicionais e independentes a favor de 587 para a destruição de Jerusalém pelos babilônios).

O principal erudito por trás dos dois artigos

Uma particularidade dessa série de artigos é que boa parte do que foi escrito neles já foi publicada em 2007 por um escritor da Noruega, e seus argumentos a favor de 607 a.C. já tinham sido refutados por alguns eruditos. De fato, quem está por dentro do assunto sabia que mais cedo ou mais tarde a Torre de Vigia faria uso desse escritor. Quem é ele?

Sabe-se que os grandes “eruditos” que a Torre de Vigia tinha já morreram (a exemplo do seu ex-presidente Frederic Franz). E se uma “Testemunha de Jeová” resolvesse se tornar um erudito só para ajudar sua religião? Será que isso não seria apreciado pela Torre de Vigia?

Foi provavelmente o que fez uma “Testemunha de Jeová” da Noruega, chamada Rolf Furuli. Ao que parece, ele decidiu ser um erudito especialmente com o intuito de defender sua religião, já tendo publicado alguns livros sobre cronologia antiga e hebraico. Ele chamou seus textos sobre 607 a.C. de “Cronologia de Oslo”, transmitindo a ideia de que nada tem a ver com as “Testemunhas de Jeová”. Furuli não abordava temas “proféticos”, mas somente históricos, porém hoje pode não ser assim, visto que ele foi excomungado da religião em 2020 (“desassociado”) após questionar no livro My Beloved Religion (“Minha Amada Religião”) as posturas autoritárias e não bíblicas da liderança das “testemunhas de Jeová”, conhecida como “Corpo Governante”.

De todo modo, visto que Furuli ainda fazia parte dessa organização em 2011, a Torre de Vigia se valeu dos argumentos dele, pois provavelmente ele é o único acadêmico do mundo, hoje aposentado, que escreve a favor do ano 607 a.C. Tal data é crucial para manter de pé a referida especulação profética segundo a qual o “tempo do fim” começou em 1914 e, em seguida, Jesus teria escolhido a Torre de Vigia como a única religião verdadeira do mundo. Mais detalhes na sétima seção desta análise.

“A Cronologia Persa e a Duração do Exílio
Babilônico dos Judeus”, de Rolf Furuli

Em nenhum momento, porém, a Torre de Vigia informa na “Sentinela” que Rolf Furuli é a sua principal fonte de pesquisa para esses artigos. Naturalmente, ela não fez uma transcrição dos livros de Furuli. Ela reescreveu o assunto e acrescentou sua visão “bíblica”, dando a impressão de que é a verdadeira autora da linha de raciocínio apresentada. Pode ser até que ela e Furuli tenham chegado a um acordo, para deixá-lo nos bastidores e o seu trabalho ser utilizado sem reservas. Agora que ele não faz mais parte da religião, apesar de manter elevado apreço por ela, é possível que ele venha a tornar público como tudo sucedeu.

Os estudos de Furuli acerca de 607 a.C. já foram refutados minuciosamente, especialmente por Carl Olof Jonsson, da Suécia. A obra de Furuli é completamente falha e tendenciosa no que tange à data 607. Carl Olof Jonsson demonstrou isto usando evidências de altíssimo nível. Mas, como sempre, as “Testemunhas de Jeová” ficarão em permanente ignorância sobre esse fato. Exceto as que resolverem pesquisar no Google.

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