A ciência incentiva o debate, não o proíbe – estudo retrospectivo da postura dos formadores de opinião durante a pandemia da COVID-19

“Nada é permanente, exceto a mudança sob o comando da razão” (Heráclito)

Sumário

1. O modo de funcionar da ciência e os conflitos de interesse

2. Comportamentos refratários e anticientíficos que impedem a discussão

3. A dificuldade do consenso científico – dois exemplos

4. Aspectos ignorados durante a pandemia

5. Considerações finais

Apêndice

REFERÊNCIAS

Para entender a utilidade da ciência em prol do bem-estar coletivo, primeiramente é preciso conhecer os seus objetivos e princípios norteadores a fim de excluir aquilo a que a ciência não se destina. Isso pode ser alcançado compreendendo os conceitos científicos de verdade, método e consenso.

De posse dessas conceituações, examinar-se-á como exemplo paradigmático a postura predominante dos que falaram em nome da ciência durante a pandemia da COVID-19, não somente em meios científicos, mas também em redes sociais e matérias de jornais chamadas de agências de “checagem” ou “verificação”.

1. O modo de funcionar da ciência e os conflitos de interesses

De acordo com Poiares e Santos (2020), na ciência “não existem verdades absolutas, pois toda a verdade científica é provisória, estando sujeita à neutralidade e à revisão de novas evidências”. Este entendimento é compartilhado por um sem-número de pesquisadores, pois o caráter provisório das teorias científicas está na essência do próprio pensamento científico (VOLPATO, 2016; Nunes, 2017).

Se não fosse assim, o método científico seria impraticável, pois uma de suas técnicas é justamente tentar contradizer (falsear) os resultados apresentados como prova de uma hipótese postulada. Uma vez demonstrado que os resultados são falsos, a hipótese é descartada ou reformulada, para depois passar novamente pelo mesmo escrutínio. Por outro lado, se os resultados se mantiverem inquestionáveis, a hipótese passa a ser aceita como verdadeira, ao menos provisoriamente (LONGO, 2019).

Uma hipótese aceita (ou uma teoria) é a “verdade” do momento, que poderá ser posta em dúvida se surgirem dados e evidências que justifiquem rejeitá-la. O que é aceito como verdadeiro pode ser depois rejeitado quando se descobre que houve falhas na metodologia inicialmente empregada ou conflitos de interesses que afetaram as conclusões (SALEMA, 2019). Por tudo isso e mais é que a verdade na ciência é provisória, devendo sempre ser discutida. Em semelhante sentido, Camelo (2011) ressaltou:

Karl Popper, um dos filósofos mais influentes do século passado, apontou para o fato de que, para ser validada, uma teoria científica deve necessariamente ser confrontada, desafiada, falseada. Dizia que, do contrário, a teoria poderia se tornar dogma – e qualquer dogma, para Popper, seria terrível para a ciência (REVISTA CIÊNCIA HOJE, 2011, on line).

Essa pegada científica de questionar a “verdade” é especialmente importante em situações novas, sobre as quais pouco se sabe, o que resulta inevitavelmente em conflitos. Isso ficou evidente no início da pandemia, quando o consenso científico relativo ao coronavírus se mostrava “muito frágil em alguns pontos” (ROZIÈRES, 2020). Como será visto, essa situação não mudou muito depois daquele momento. As incertezas continuaram e algumas persistem até hoje.

Mesmo assim, os que se julgavam aptos para determinar o que era verdade ou mentira durante a pandemia foram taxativos contra aqueles que expressavam opiniões contrárias, mesmo que estes fossem cientistas, tornando-se, via de regra, “negacionistas” e “contra a ciência”…

Isso culminou na inusitada situação de um jovem jornalista de uma agência de “checagem de fatos” carimbar de “enganoso” as declarações de um Nobel de medicina com décadas de experiência (isto será visto mais adiante). As redes sociais não perdoaram. Na brincadeira, chamaram o rapaz de “cientista de Taubaté”, em alusão a um caso famoso de uma falsa grávida de múltiplos gêmeos na cidade de Taubaté. A “gestante” foi sensação no noticiário até se descobrir que ela havia inventado a história e usava uma barriga falsa.

Quanto ao conflito de interesses, ao abordarem este problema na indústria farmacêutica, Souza et al. (2013) afirmaram o seguinte:

Os conflitos de interesses podem representar poderoso viés na pesquisa científica, alterando o resultado, produzindo má ciência e, mais grave, afetando negativamente a saúde dos participantes, já que efeitos adversos inesperados e ausência da ação prevista podem decorrer de falsos resultados. Esse viés pode ser premeditado ou involuntário, em maior ou menor proporção, mas, seja de que modo for, existe e deve ser levado em consideração. O experimentador é parte do experimento e sua suposta isenção, assim como a inflexibilidade do método científico, é somente um ideal, não algo real (Souza et al., 2013).

Além disso, um levantamento feito nos Estados Unidos apontou que, em uma lista com 25 setores industriais, a indústria farmacêutica é a mais mal avaliada pelos americanos, ocupando o último lugar da lista (MCCARTHY, 2019).

Sendo assim, por melhores que sejam os objetivos do trabalho científico, especialmente no campo da medicina, as pessoas por trás dele não são perfeitas e incorruptíveis: mais uma razão para serem monitoradas quanto ao que fazem em nome da ciência.

Esse acompanhamento por parte de quem está fora do sistema de interesses seria inviabilizado se debates, discussões e questionamentos fossem banidos ou desestimulados. E foi precisamente isso o que aconteceu durante a pandemia, ao ponto de redes sociais apagarem comentários de cientistas e banirem suas contas!

Na ciência, o consenso surge gradualmente, mediante discussões e negociações, sendo que, geralmente, os membros mais proeminentes do debate é que exercem a maior influência para se determinar qual será o consenso. (MUELLER, 1994; ALMEIDA, 2009; FLORIANI, 2000). Quanto a isso, Oliveira e Epstein (2009) ponderaram o seguinte:

As questões acima convergem para um problema específico dessa relação que envolve pesquisa científica e os interesses de atores diversos: Como tomar decisões baseadas no conhecimento científico antes mesmo que o consenso científico tenha sido formado, de maneira a oferecer bases seguras para a decisão política? Com tantos interesses envolvidos, pressões de grupos conservadores ou favoráveis, bem como o lobby dos grupos financeiros que patrocinam a pesquisa científica, surgem controvérsias e inquietações que refletem na agenda setting da mídia massiva, o que amplia a esfera de discussão para a opinião pública, criando o que alguns pesquisadores chamam de “esfera pública temporal”,6 quando os cidadãos são “convidados” a tomar partido em uma discussão. As controvérsias chegam ao público e, depois dele, voltam realimentadas aos segmentos interessados, num processo cíclico de discussão e acirramento do debate. (OLIVEIRA; EPSTEIN, 2009).

Sendo assim, ao final, quando o consenso científico for decidido, provavelmente por uma minoria influente, poderá haver em maior ou menor grau um viés político na decisão. Ou seja, o processo corre o risco de não ser conduzido apenas por aquele ideal de uma ciência livre de interesses particulares. Isso tende a afastar o debate saudável e levar os agentes do processo científico à acomodação intelectual.

No entanto, a necessidade do debate permanece, pois, conforme observado por Rozières (2020), o “consenso científico é criado pela pesquisa, pelo confronto, pela tentativa de refutar as afirmações, pela reprodução dos resultados”. Lembrando que o consenso que for definido não significa unanimidade, ainda que o termo possa remeter à ideia de total aceitação.

2. Comportamentos refratários e anticientíficos que impedem a discussão

Durante a pandemia, o dito consenso foi aparentemente determinado por uma elite científica com viés político de contornos bem definidos, pois diversos cientistas e médicos qualificados foram desacreditados publicamente apenas por questionarem determinadas informações promovidas por quem ditava as regras sanitárias. Foi como se o “cancelamento” praticado nas redes sociais tivesse agora uma versão dentro dos domínios da ciência, prática que também pretende determinar o que é verdade ou mentira.

Por exemplo, um dos pontos levantados foi que em toda a história nunca houve vacinação em massa durante uma pandemia, com bilhões de pessoas sendo inoculadas contra o vírus causador, ainda mais com substâncias ainda em desenvolvimento. Ao verem isso, alguns médicos e cientistas proeminentes disseram que a vacinação em massa forçaria o coronavírus a sofrer novas mutações, reduzindo assim a eficácia das vacinas. O virologista Luc Montagnier, Nobel de Medicina, foi um dos que fizeram tal afirmação.

Tão logo Montagnier expressou a referida opinião, diversas matérias de jornais o acusaram de estar equivocado e promovendo desinformação, matérias que se valeram tão somente de comentários informais pesquisadores discordantes e não de estudos científicos revisados por pares. Foi o que fez, por exemplo, a matéria mostrada na imagem da Figura 1.

Figura 1 – Matéria de checagem do jornal Estado de São Paulo

Fonte: ESTADÃO (2021), versão on line.

Foram muitas as matérias de jornais dedicadas a essa “verificação” de fatos, acusando certas pessoas de promoverem falsidades relacionadas à COVID-19. E os textos eram sempre muito seguros do que estavam afirmando, como se fossem certezas irrefutáveis ou chancelados por uma comissão científica de notáveis. As expressões mais comuns atribuídas aos discursos discordantes foram “falsa ciência”, “desinformação”, “enganoso”, “fake” etc.

Quanto às chamadas fakes news (notícias falsas), apesar de elas realmente existirem, observa-se que nem sempre as informações que receberam esse rótulo pelos “checadores” eram realmente notícias falsas, mas apenas pontos de vista diferentes, mas possíveis. Leituras diferentes da mesma realidade.

Por exemplo, quando se tornou público que a vacina Coronavac do Butantan possuía uma baixa eficácia (cerca de 51%), passou a circular a informação de que uma dose de reforço seria necessária, mas o Butantan informou em sua conta no Twitter que isso era fake news, ao dizer:

O Butantan esclarece que não será necessária uma 3ª dose da vacina contra a Covid-19. Afirmar isso é disseminar Fake News. A Coronavac é segura e eficaz após o ciclo de duas doses e mais 15 dias, conforme apontam vários estudos. (BUTANTAN,2021).

Curiosamente, quatro meses depois o governo federal anunciou que a Coronavac ficaria de fora das doses de reforço e o representante do Buntantan reclamou, dizendo que a decisão tinha sido política e não técnica, apenas com o objetivo de “atingir a CoronaVac” (GZH, 2021).

Dois dias depois, o governo de São Paulo anuncia que usaria a vacina do Butantan como dose de reforço, concretizando o que antes foi considerado “fake”. E nos meses seguintes o Butantan publicou informes ressaltando o quanto a Coronavac seria eficiente ao ser utilizada como dose de reforço (SÃO PAULO, 2021; BUTANTAN, 2021).

O Butantan também negou em seu perfil do Facebook que a Coronavac fosse pouco eficiente, devido à reduzida eficácia (BUTANTAN, 2021). Porém, mais uma vez, pouco tempo depois, uma pesquisa indicou que a Coronavac aumentava em apenas sete vezes os anticorpos contra o coronavírus, ao passo que outras vacinas tinham aumentos maiores. A da Pfizer, por exemplo, aumentava em 175 vezes o número de anticorpos, segundo disseram (EXAME, 2021).

Como se nota, uma informação que foi taxativamente classificada como falsa acabou se mostrando verdadeira. Isso ilustra o quão arriscado é uma resposta rápida com o objetivo de refutar a todo custo um ponto de vista diferente daquele que é considerado o verdadeiro.

Outro caso que exemplifica bem esse problema foi aquele do início da pandemia, quando alguns cientistas e agências de checagem descartaram prontamente, e de maneira bem dogmática, a possibilidade de o coronavírus ter escapado de um laboratório e hoje já se sabe que essa hipótese não só é plausível, mas como a mais provável, conforme indicou uma investigação conduzida pelo Congresso dos Estados Unidos. Segundo consta, as investigações não foram concluídas apenas por falta de cooperação do governo chinês (ROGIN, 2021; CONGRESS OF THE UNITED STATES; 2022; CNN, 2021; EXAME, 2021).

Em suma, para se alcançar a verdade é preciso investigar até mesmo os pontos controversos e inconvenientes à narrativa predominante, inclusive aqueles que estejam em desacordo com o chamado consenso científico. Infelizmente, tal postura mais condizente com a ciência foi desestimulada durante a pandemia, até mesmo com censura explícita, como se verá a seguir.

Um dos casos mais notórios em que opiniões científicas divergentes foram censuradas é o do cientista Robert Malone, um dos criadores da técnica de transferir RNA para células humanas, que está sendo utilizada atualmente em vacinas de RNA-mensageiro como as da Pfizer (MALONE et al., 1989).

Desde o início da pandemia, Malone achou arriscado usar vacinas de RNA-mensageiro em larga escala, pois elas nunca haviam sido utilizadas em seres humanos, além da questão da toxidade potencial da proteína Spike. Ele também se posicionou a favor do uso da Ivermectina contra a COVID-19, medicamento antiparasitário que as agências de checagem garantiram que já foi comprovado cientificamente que é ineficaz contra o coronavírus, ainda que uma quantidade significativa de cientistas discordasse dessa afirmação.

Por expressar opiniões assim, Malone foi banido do Twitter (hoje X), ainda que, pelas regras originais do Twitter, exprimir opiniões científicas divergentes não fosse motivo para suspensão de uma conta. O que seria coerente, pois o Twitter afirmava que sua finalidade era “proporcionar o diálogo público” e que as regras punitivas são apenas para que as pessoas “possam participar do diálogo público com liberdade e segurança” (TWITTER, 2022).

Visto que não havia regra que justificasse o seu banimento, Malone foi enquadrado por outro conjunto de regras que a empresa criou, chamado de “Política de informações enganosas sobre a COVID-19”, que proibia o usuário de publicar “informações falsas ou enganosas sobre a COVID-19 que possam causar danos”. Pelas regras dessa política adicional, se houvesse uma transgressão, a conta seria suspensa por 12 horas. Havendo mais de 5 transgressões, a conta seria suspensa permanentemente. A questão é quem realmente poderia ter certeza o que era verdade ou mentira, pois o cenário ainda era nebuloso e os estudos ainda estavam em andamento.

Na figura 2 há um exemplo de uma das postagens de Malone que motivaram o seu banimento e o que passou a aparecer depois quando se acessava o perfil do cientista no Twitter. Nesse comentário, Malone disse:

Para aqueles que não sabem, o Peru fez uma campanha massiva com ivermectina no último semestre de 2020. A mortalidade caiu 14 vezes em 3 meses. Um novo presidente entrou e parou a campanha. E as mortes aumentaram 13 vezes no mês seguinte.

Figura 2 – Perfil de Robert Malone censurado pelo Twitter

Fonte: TWITTER (2021)

Perceba que Malone disse no seu tuíte apenas o que fora informado em um Review do periódico científico New Microbes and New Infections, publicado em setembro de 2021 e disponibilizado no National Center for Biotechnology Information (NCBI), do governo dos Estados Unidos. Malone não inventou nada. Logo, não foi uma desinformação deliberada. Realmente o periódico referenciado reportou excelentes resultados no uso da Ivermectina no Peru para tratar pessoas com COVID-19, conforme se nota nesse trecho do artigo:

Em 2015, o Comitê Nobel de Fisiologia ou Medicina, em seu único prêmio para tratamentos de doenças infecciosas desde seis décadas antes, homenageou a descoberta da ivermectina (IVM), um medicamento multifacetado implantado contra algumas das doenças tropicais mais devastadoras do mundo. Desde março de 2020, quando o IVM foi usado pela primeira vez contra um novo flagelo global, o COVID-19, mais de 20 ensaios clínicos randomizados (RCTs) rastrearam esses tratamentos hospitalares e ambulatoriais. Seis das sete meta-análises de ECRs de tratamento de IVM relatadas em 2021 encontraram reduções notáveis ​​nas mortes por COVID-19, com um risco relativo médio de 31% de mortalidade em relação aos controles. Durante os tratamentos de MIV em massa no Peru, o excesso de mortes caiu em média 74% em 30 dias em seus dez estados com os tratamentos mais extensos (SANTIN et al., 2021, tradução livre).

O Facebook, por sua vez, adotou políticas semelhantes com o objetivo de conter informações falsas ou enganosas a respeito da COVID-19, conforme o ponto de vista dos administradores da empresa, claro. Recentemente, porém, o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, se retratou publicamente dizendo que as ferramentas de checagem eram enviesadas e “destruiram mais a verdade” (MEIO & MENSAGEM, 2025).

Um caso que chamou atenção, e que confirma a opinião mais recente de Zuckerberg, foi o tratamento dispensado ao prestigiado e centenário periódico científico British Medical Journal (BMJ), depois que este publicou uma matéria investigativa que apontou problemas de integridade nos dados dos testes clínicos da vacina da Pfizer, devido às más práticas de uma empresa contratada pela farmacêutica (THACKER, 2021).

O Facebook marcou a matéria do BMJ como “informação falsa”, causando indignação aos seus editores. Por isso, eles escreveram uma carta aberta ao proprietário da rede social, relatando como um artigo sério estava sendo desqualificado pela agência de checagem contratada pelo Facebook, a Lead Stories. Dentre outras coisas, os editores disseram na carta:

Prezado Mark Zuckerberg,

[…] a partir de 10 de novembro, leitores começaram a relatar uma variedade de problemas ao tentar compartilhar nosso artigo. Alguns disseram não conseguir compartilhá-lo. E muitos outros que suas postagens foram sinalizadas comum aviso sobre “Contexto ausente… verificadores de fatos independentes dizem que essa informação pode enganar as pessoas”. Aqueles que tentaram postar o artigo foram informados pelo Facebook que as pessoas que compartilham repetidamente “informações falsas” podem ter suas postagens reduzidas no Feed de notícias do Facebook.

(…)

Consideramos que a “checagem de fatos” realizada pela Lead Stories é imprecisa, incompetente e irresponsável.

– Ela não fornece quaisquer afirmações de que o artigo do BMJ está realmente errado.

– Há o absurdo título: “Verificação de fatos: O British Medical Journal NÃO revelou relatórios desqualificadores e ignorou falhas nos ensaios das vacinas Pfizer COVID-19”.

– O primeiro parágrafo rotula incorretamente o BMJ de “blog de notícias”. (BRITISH MEDICAL JOURNAL, 2021, tradução livre).

O conflito ganhou novo capítulo quando a Pfizer disse que somente a partir de maio de 2025 aceitaria pedidos de pesquisadores que quisessem ter acesso aos dados brutos dos estudos da farmacêutica sobre a vacina. O BMJ reagiu e exigiu que os dados fossem liberados imediatamente e ainda teceu a seguinte crítica:

A indústria farmacêutica é a indústria menos confiável.30 Pelo menos três das muitas empresas que fabricam vacinas contra a Covid-19 passaram por acordos criminais e civis que custaram bilhões de dólares.31 Uma se declarou culpada de fraude.31 Outras empresas sequer têm histórico de atuação antes da Covid. Agora, a pandemia da Covid fez surgir muitos novos bilionários farmacêuticos, e os fabricantes de vacinas reportaram dezenas de bilhões em receita.32 (BRITISH MEDICAL JOURNAL, 2022, tradução livre).

É importante que os fabricantes forneçam os dados brutos relacionados aos testes de suas vacinas, para que haja uma análise independente por pesquisadores do mundo inteiro, e não apenas pelas farmacêuticas, como tem acontecido.

O cenário até aqui descrito, de cerceamento de opiniões em um contexto de conflitos não resolvidos, parece indicar que houve um esforço internacional para que o consenso científico não fosse alcançado mediante discussões e debates, como seria de se esperar, mas que fosse somente aquele que a mídia, as agências de checagem e os administradores de redes sociais vendiam como definitivo e inquestionável.

Isso faz lembrar um relatório das Academias Nacionais de Ciências dos Estados Unidos que tratou sobre as contramedidas médicas necessárias em casos de epidemias infecciosas, causadas especialmente por coronavírus, como ocorreu na Síndrome Respiratória Aguda Grave, em 2003, e na Síndrome Respiratória do Oriente Médio, em 2012.

Essas doenças preocuparam muito os infectologistas, porém a população do mundo em geral não compartilhava do mesmo sentimento. Por isso, de acordo com o referido relatório, o cientista Peter Daszak expressou sua preocupação pela falta de compreensão das pessoas sobre a ameaça que as epidemias representam, e opinou sobre como isso poderia ser resolvido:

Daszak reiterou que até que uma crise de doença infecciosa seja bastante real, presente, no limiar de uma emergência, isso será ampla e frequentemente ignorado [pela mídia]. Para manter o financiamento para além da crise, ele disse, temos que aumentar a conscientização pública da necessidade de contramedidas médicas necessárias, tais como vacinas pan-influenza ou pan-coronavírus. Um fator decisivo é a mídia, e as forças econômicas seguirão a mobilização. Precisamos usar essa mobilização a nosso favor para conseguirmos o que realmente importa. Os investidores corresponderão se enxergarem lucro ao final do processo, disse Daszak (THE NATIONAL ACADEMIES PRESS, 2016, tradução livre).

Ao que parece, o que Daszak queria, aconteceu, pois durante a pandemia houve uma mobilização sem precedentes em prol de uma agenda sanitária global única contra a COVID-19, capitaneada pela OMS. Os responsáveis por essa política contaram com uma linha de frente midiática formada por um consórcio de jornalistas dispostos a combater tudo aquilo que consideravam “fake news” ou que estava em oposição ao que já tinha sido decidido pelos gestores da crise. Foram pontas-de-lança no alijamento do debate.

Os responsáveis por esse policiamento de opiniões divergentes, às vezes, justificaram sua conduta dizendo que os pontos de vista que sustentavam eram o consenso científico ou que aquilo que rejeitavam não era mais discutido “pela ciência”. Entretanto, tais afirmações geralmente eram incorretas, pois os pontos alegadamente superados continuavam sendo discutidos por cientistas. E se há debates, dúvidas e discussões, não existe consenso.

Aliás, o consenso jamais existirá sem uma “auditoria” independente, feita por cientistas que não faziam parte da rede de interesses que monopolizava a política sanitária adotada na pandemia. Esse controle contribui para que não se caia na armadilha da falácia, que é o argumento com pretensão de ser conclusivo, mas que possui algum erro em sua estrutura ou conteúdo (SANTOS et al., 2021).

3. A dificuldade do consenso científico – dois exemplos

Para ilustrar a dificuldade de se alcançar o consenso científico em pontos controversos, considere o uso de máscaras como medida sanitária. Essa prática foi considerada tão importante que decretos estaduais previram o pagamento de multa por parte dos cidadãos que descumprissem a medida. Embora seja intuitivo supor que a máscara ajuda na proteção contra o coronavírus, por ser uma barreira física, é preciso ponderar outros fatores.

O primeiro deles é que diversos cientistas já tinham chegado à conclusão de que as máscaras são ineficientes para evitar a propagação de outras doenças, inclusive respiratórias, a exemplo da gripe influenza. Isso vai de encontro ao que muitos hoje pensam sobre as máscaras (COWLING et al., 2010; NEILSON, 2016; GUAN, 2018).

Nesse mesmo sentido, o diretor executivo do programa de emergências sanitárias da OMS disse no início da pandemia que “não há evidências específicas que sugiram que o uso de máscaras por toda população tenha algum benefício potencial” contra o coronavírus (CNN, 2020). Até aquele momento, a OMS recomendava máscaras apenas para quem adoecesse, como sempre foi o protocolo para outras doenças respiratórias.

Alguns meses depois, porém, o entendimento foi revisto e a OMS passou a dizer que todos deveriam usar máscaras, ainda que a recomendação tenha vindo com a seguinte advertência do seu diretor-geral, Tedros Adhanom: “Máscaras por si só não vão te proteger da covid-19” (BBC NEWS BRASIL, 2020; UOL, 2020). Esse comentário sugere que a máscara é mesmo um recurso pouco efetivo, mas por algum motivo a OMS passou a ignorar esse ponto de vista.

De fato, a mudança do protocolo não se baseou em estudos robustos que demonstram a real necessidade de tal medida, pois esses estudos não existiam, conforme observaram Liu et al. (2021-2022):

A melhor evidência para estabelecer a eficácia das máscaras faciais de pano seria de ensaios controlados randomizados em cluster (ECRs) […]

Os dois únicos estudos de tamanho considerável ​​que avaliaram máscaras no contexto do COVID-19 não conseguiram demonstrar reduções estatisticamente significativas na transmissão viral confirmada, tanto para máscaras cirúrgicas (um estudo) quanto para máscaras de pano (o outro estudo) (LIU et al., 2021-2022, tradução livre).

O primeiro estudo mencionado é um da Dinamarca, já revisado por pares, o qual concluiu que o uso de máscaras cirúrgicas não reduziu significativamente o contágio por COVID-19:

Neste ensaio clínico randomizado, feito em comunidade, conduzido em um ambiente onde o uso de máscara era incomum e não estava dentre as medidas de saúde pública recomendadas relacionadas à COVID-19, seguir a recomendação de usar máscara cirúrgica fora de casa não reduziu, em níveis convencionais de significância estatística, a infecção incidente pelo SARS-CoV-2 em comparação com a recomendação do não uso da máscara (BUNDGAARD et al., 2021, tradução livre).

O segundo estudo é um que foi feito em Bangladesh e publicado na revista Science, referente a máscaras cirúrgicas e de pano. A conclusão a que chegou é que o uso de máscaras cirúrgicas reduziu as infecções sintomáticas em 11 %, chegando a 35 % para pessoas acima de 60 anos.  No entanto, para as máscaras de pano a evidência foi “menos clara” de que elas reduzem a infecção, pois o estudo demonstrou uma “redução insignificante”. Mesmo assim, a máscara de pano “claramente reduz” os sintomas, garantem os autores (ABALUCK et al., 2021, p. 7).

Antes mesmo da revisão por pares, esse estudo foi imediatamente celebrado como “a prova definitiva” de que a “ciência comprovou” que as máscaras funcionam contra a COVID-19, embora a simples leitura do que foi afirmado no próprio artigo já indique que os resultados foram superestimados e que, aparentemente, eles possuem problemas (G1, 2021; GUIMARÃES, 2021; METRÓPOLES, 2021).

Um dos autores do estudo, o economista Ahmed Mushfiq Mobarak, desde o início da pandemia foi um entusiasta do uso de máscaras e conclamou os governos para que financiassem a compra em massa para a população. Assegurou que se a medida contribuísse para reduzir as mortes em 10% isso resultaria em uma redução de custos em torno de 6 mil dólares per capita. E antes de iniciar o estudo, Mobarak buscou a OMS, o Banco Mundial e a Fundação Bill & Melinda Gates para discutirem como seria o protocolo da pesquisa (THE WASHINGTON POST, 2021).

Em que pese o esforço que houve e o entusiasmo da mídia pelo estudo, a realidade é que os problemas dele vão além do que se infere dessas impressões iniciais, que até um leigo é capaz de compreender. Primeiro, já há diversos estudos que mostram exatamente o contrário do pretendido por Mobarak, segundo os quais as máscaras são ineficientes (THE CENTRE FOR EVIDENCE-BASED MEDICINE, OXFORD, 2020; ALEXANDER, 2021; SCHAUER et al., 2021). Ademais, alguns cientistas questionaram a metodologia do estudo, dizendo que ela está repleta de falhas.

Um deles foi o epidemiologista Martin Kulldorff, do Harvard Medical School, que fez uma verificação detalhada do artigo de Mobarak, apresentando até o código-fonte dos cálculos que executou no computador para avaliar a metodologia do artigo (KULLDORFF, 2021). Além de publicar artigos com tais análises estatísticas, Kulldorff também se manifestou no Twitter, dizendo:

Estranho que os defensores das máscaras estejam empolgados com este estudo. Como defensor de vacinas, eu ficaria horrorizado se um teste de vacina mostrasse 11% de eficácia. Com base nos intervalos de confiança de 95%, nem sabemos se a eficácia da máscara cirúrgica é superior a 0%.

Em um estudo randomizado da comunidade de Bangladesh, as máscaras de pano diminuíram a doença da COVID sintomática confirmada em 5% (IC de 95%: diminuição de 21% para aumento de 11%) enquanto as máscaras cirúrgicas diminuíram em 11% (IC de 95%: 0%-22%) (KULLDORFF, 2021, tradução livre).

Kulldorff chegou a tecer outras críticas semelhantes no Twitter, por achar que lá é um lugar para o livre debate. Como consequência, foi suspenso da plataforma por 30 dias e quando voltou disse que não iria mais postar críticas sobre as máscaras. Abaixo mais uma crítica que ele havia postado:

Com a crença ingênua e equivocada de que lockdowns, máscaras e rastreamento de contatos poderiam controlar a pandemia e proteger os idosos, os planos anteriores de preparação para a pandemia foram ignorados e muitas pessoas morreram. Somente a imunidade de rebanho pode acabar com a pandemia, por meio de infecção natural e vacinas (KULLDORFF, 2021, tradução livre).

Para mais informações sobre a eficiência das máscaras em prevenir a COVID-19, consulte o Apêndice final.

Há também outros questionamentos além desse do uso universal das máscaras. O trancamento da população (lockdown) é um deles. Alguns artigos científicos concluíram que essa é uma medida com pouco ou nenhum efeito na redução da COVID-19. O estado norte-americano da Flórida, por exemplo, que não teve uma rigorosa política de lockdown, ficou com o número de mortes por COVID-19 dentro da média, ao passo que o Havaí, que adotou rigidamente o trancamento, ficou em primeiro no lugar na quantidade de mortos dos EUA (KERPEN et al., 2022). Logo, o que explicaria a doença aumentar e diminuir ao longo do tempo seria apenas a sua curva natural de atuação, com picos e decréscimos, até diminuir e se estabilizar.

Uma meta-análise com revisão de literatura publicada no Instituto de Economia Aplicada, Saúde Global e Estudos Empresariais, ligado à universidade Johns Hopkins, foi taxativa quanto à política do lockdown:

Esta meta-análise conclui que os lockdowns tiveram pouco ou nenhum efeito na saúde pública e ainda impuseram enormes custos econômicos e sociais onde foram adotados. Em consequência, as políticas de confinamento são infundadas e devem ser rejeitadas como instrumento de política pandêmica (HERBY et al., 2022, tradução livre).

Os “checadores de fatos” desacreditaram esse estudo dizendo que os autores são economistas, não têm experiência na área de saúde, que há falhas na metodologia e que o artigo não tem relação com a Universidade Johns Hopkins (CNN, 2022). Não viram o mesmo problema no estudo que celebraram sobre as máscaras, cujo autor é também um economista. De todo modo, há outros estudos que também chegaram à conclusão que o lockdown tem pouca efetividade durante uma pandemia, embora possa ter alguma utilidade no início de uma pandemia. (Souza; Souza, 2020; BENDAVID et al., 2021; SAVARIS et al., 2021; ALLEN, 2021; BJØRNSKOV, 2021).

Um motivo que pode contribuir para uma eventual baixa efetividade dos lockdowns diz respeito às várias formas de transmissão do coronavírus. Por exemplo, onde não há saneamento básico, quando as pessoas se confinam no isolamento, o contágio poderá ocorrer por fezes e talvez até seus gases (MUKHRA et al., 2020; Wu et al., 2020).

Portanto, percebe-se que pontos relacionados à COVID-19 que eram tidos como incontroversos, na realidade possuem incertezas, com artigos científicos a favor e contra. Para minimizar esse conflito, os “checadores” costumavam destacar somente os artigos favoráveis, resultando em um aparente consenso científico. Quando mencionavam os desfavoráveis geralmente era apenas com o objetivo de desacreditá-los. Esse viés ocorreu em praticamente em todos os pontos controversos ligados à pandemia, cujas motivações não cabe aqui especular, como fazem os promotores das teorias da conspiração, tendo eles razão ou não.

4. Aspectos ignorados durante a pandemia

Há informações que são decisivas para se determinar a política sanitária contra a COVID-19. No entanto, para obter tal conhecimento de maneira satisfatória é preciso adotar a postura comentada na seção precedente referente à liberdade para questionar dentro do debate científico. A discussão aberta sobre questões controversas surgidas na pandemia teria contribuído para o engrandecimento da ciência e o alcance do bem comum.

Conforme visto, as fontes jornalísticas não se mostraram as mais recomendadas para colher tais informações, em especial devido às autonomeadas agências verificadoras de fatos, que fizeram de modo recorrente análises enviesadas e superficiais. Os vereditos confiantes que deram, geralmente, se basearam apenas em comentários informais de especialistas cuidadosamente selecionados, deixando de fora os igualmente qualificados que tinham opiniões diferentes ou então os mencionavam apenas com o intuito de desacreditá-los.

Desse modo, a forma mais segura de se informar era mediante consulta direta às fontes especializadas, incluindo aquelas que, às vezes, eram ignoradas apenas porque estavam em desacordo com a narrativa predominante na grande mídia. E quando cientistas desejassem expor para leigos o que eles pensavam, isso deveria ter sido feito sem intermediários jornalísticos e com a presença do devido contraponto, ouvindo e debatendo com seus pares que chegaram a conclusões diferentes.

A primeira questão que deveria ter sido discutida de modo mais franco é sobre a transmissibilidade do vírus e se as vacinas disponíveis seriam capazes de impedir sua disseminação. Quanto a isso, há certo consenso entre pesquisadores, órgãos de regulação e os próprios fabricantes. Eles são claros ao informar que as vacinas não são capazes de impedir a transmissão do coronavírus, e algumas matérias jornalísticas chegaram a mencionar esse fato, apesar de outras terem tentado contradizê-lo (EL PAÍS, 2021; CORREIO BRAZILIENSE, 2022).

Consequentemente, é um fato científico que vacinados também podem infectar outras pessoas, e isso ganharia relevância à medida que a vacinação avançasse, devido à infecção assintomática (ARAÚJO et al., 2022). Embora haja estudos que mencionem a possibilidade de algumas vacinas resultarem em um bloqueio indireto da transmissão, principalmente as de RNA-mensageiro, com o surgimento das variantes do vírus, esse aparente benefício ficou prejudicado. De qualquer maneira, mesmo que isso não tivesse acontecido, o bloqueio seria apenas parcial. Entre os profissionais de saúde, por exemplo, a redução foi estimada em 30%. (FLANAGAN et al., 2021; PIECHOTTA; HARDER, 2022; ORIENT, 2022).

Sobre a incapacidade de as vacinas impedirem a transmissão do vírus, Ahmed et al. (2022) comentam que isso acontece mesmo quando há uma efetiva imunização, seja ela natural ou vacinal:

No geral, visto que a maioria dos epítopos experimentais de células T conhecidos como alvos em indivíduos vacinados e/ou previamente infectados (coletivamente, representando ~ 60% da população global em 25 de dezembro de 2021) não são afetados por mutações da Omicron, nossa análise preliminar sugere que a eficácia da imunidade de células T pré-existente permanecerá intacta. As respostas das células T sozinhas, no entanto, não bloqueiam a infecção e, portanto, não previnem a transmissão. Assim, embora o número de infecções possa aumentar consideravelmente como consequência da capacidade da Omicron escapar de anticorpos, a imunidade robusta das células T fornece expectativa de que, semelhante a outras Variantes de Preocupação (VOCs), o nível de proteção contra o adoecimento grave permaneça alto (AHMED et al., 2022, tradução livre).

Por tais razões, várias entidades se manifestaram no mesmo sentido do que a Fiocruz (2021, p.2) informou ao dizer que a vacina “reduz as chances de se contaminar e evoluir para quadros graves e morte, mas o indivíduo pode se infectar e transmitir o vírus para outras pessoas”.

Obviamente, o objetivo das vacinas seria apenas proteger quem se vacinou. Elas não foram projetadas para impedir a disseminação do vírus, pois vacinas intramusculares não neutralizam o vírus no trato respiratório superior (CHOUDHARY et al., 2021; TIBONI et al., 2021; CREMONA et al., 2022). Por isso a Anvisa (2021) reiterou no subitem 3.3.3 de seu parecer público de aprovação da vacina da Pfizer que não há evidências de que ela previna infecção assintomática e transmissão de pessoa para pessoa:

3.3.3 Eficácia contra infecção assintomática e transmissão do vírus SarsCov-2

Não há evidências de que a vacina Comirnaty previna a infecção assintomática e transmissão do vírus SarsCov-2 de pessoa para pessoa (ANVISA, 2021, grifos incluídos).

Enganou-se, portanto, quem achou que, por estar vacinado, os ambientes que frequentava ficariam mais seguros e que haveria base científica para segregar os não vacinados. Conforme ressaltou recentemente o periódico científico The Lancet, já que a vacina não bloqueia a transmissão do vírus, vacinados “ainda são uma parte relevante da pandemia. Portanto, é errado e perigoso falar de uma pandemia de não vacinados”. Por isso, “vacinados e não vacinados devem coexistir com tolerância e respeito” (THE LANCET, 2021; KAMPF, 2022).

É irrealista dizer que quem se vacina protege as pessoas ao redor, como, às vezes, se viu em matérias de jornal e em campanhas publicitárias de vacinação (G1, 2021; UOL, 2022; FORTALEZA, 2021). Quem se vacina pode proteger apenas a si mesmo, sendo que nem isso é totalmente garantido, pois apenas aumenta a probabilidade de não se infectar. Evidência disso são as mais de 17 mil pessoas vacinadas com duas doses que morreram de COVID no Brasil até setembro de 2021, sendo a maior parte do público que mais necessitava de proteção: os idosos. E essa cifra ainda é subestimada, pois os dados do Ministério da Saúde são incompletos (PODER360, 2021).

A situação mais notória que confirma a impossibilidade de as vacinas impedirem a circulação do vírus são os casos de COVID-19 em ambientes nos quais ficam apenas pessoas vacinadas. Um exemplo são os casos recentes de infecções em cruzeiros marítimos, nos quais passageiros e tripulantes só podiam adentrar se estivessem vacinados e testados. Mesmo assim, centenas de pessoas nesses navios se infectaram (CNN, 2022; CORREIO BRAZILIENSE, 2022; YAHOO, 2022).

Outro fator relevante é que a vacina não é o único meio de ficar imunizado contra o coronavírus. De acordo com os especialistas, ser infectado também possui o mesmo efeito, provavelmente ainda mais duradouro do que a imunização artificial. Até os assintomáticos podem ser imunizados pelo vírus, não obstante nem sempre isso ocorra (NICOLAI et al., 2020; GOLDBERG et al., 2021; KADKHODA, 2021; SOLACI, 2021; REISS, 2022; RODDA et al., 2021). Por isso que, desde quando não havia vacinas, somente a infecção de pessoas resultava na imunidade coletiva que põe fim às epidemias (FINE et al., 2011; METCALF et al., 2015; BALAKRISHNAN; REKHA, 2018). Descobrir formas de manter essas pessoas vivas deveria ter ocorrido com o mesmo empenho que tiveram no desenvolvimento de vacinas em tempo record.

Um exemplo que pode ser usado como referência é a Gripe Espanhola causada pelo H1N1, que foi a pior pandemia da história, com três ondas, sendo a segunda a pior, e pode ter causado 100 milhões de mortes. O número exato é incerto, pois não há registros seguros, porém certamente ceifou pelo menos 20 milhões de vidas, o que ainda é uma mortandade maior do que a causada pela COVID-19. Para que esta tivesse proporcionalmente o mesmo grau de letalidade, ela teria que ter matado mais de 88 milhões de pessoas, e não as 6,3 milhões registradas até 2022 (UFRGS, 2020; NEUFELD, 2020; PODER360, 2022).

Para se ter uma ideia do poder da imunização natural, segundo o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC, 2022), no auge da pandemia, em janeiro de 2021, cerca de 20,5% dos americanos já possuíam anticorpos contra a COVID-19 praticamente só pela exposição ao vírus, pois apenas 0,7% da população havia se vacinado. Quando os casos começaram a cair, em março de 2021, a prevalência de anticorpos já estava em 49,2% com somente 14,9% das pessoas vacinadas (Figura 3). Em dezembro de 2021, o índice passou para 94,7% com 69,8% de pessoas vacinadas.

Figura 3 – Soroprevalência de anticorpos em março de 2021, EUA

Fonte: CDC (2022) e NEW YORK TIMES / GOOGLE (on line), adaptado.

Essa mesma dinâmica resultante da imunização natural se observou em outras infecções, como foi o caso do sarampo no público infantil. Conforme se vê na Figura 4, durante os vários surtos de sarampo que ocorreram na cidade de São Paulo a partir de 1960, a doença apresentou crescimentos e decréscimos. De acordo com Waldman e Rosa (2015), o decréscimo ocorre à medida que os “sobreviventes da doença adquirem imunidade e, com menos crianças suscetíveis, a transmissão torna-se menos provável”, resultando assim na imunidade individual e de rebanho.

Figura 4 – Incidência mensal de sarampo em São Paulo entre 1960 e 1993

Fonte: WALDMAN; ROSA, In: ANTUNES; CARDOSO (2015).

Sendo assim, a vacina entra como medida sanitária com o objetivo de acelerar o processo de imunização coletiva e reduzir o número de mortes, as quais sempre ocorrerão com ou sem vacinas. No caso do sarampo, a vacina foi criada em 1963, após 9 anos sendo desenvolvida. No entanto, no Brasil só houve campanhas de vacinação em massa a partir de 1974, após a criação do Plano Nacional de Imunização (PNI), sendo mais expressivas as realizadas na década de 1980 (DOMINGUES et al., 1997; COGNYS, 2021).

Há também as pessoas super-resistentes à COVID-19 sem nunca terem sido infectadas ou vacinadas. Não se sabe com certeza o motivo, mas uma hipótese é que os resfriados causados por outras linhagens de coronavírus tenham gerado em até 50% da população mundial algum tipo de imunidade permanente. Tais pessoas não são infectadas porque o vírus é imediatamente destruído por células T com memória contra o Sars-Cov-2, razão por que se os super-resistentes fizerem um teste para saber se possuem anticorpos neutralizantes contra a COVID o teste poderá resultar negativo (MATEUS et al., 2020; SHARMA et al., 2020; FERGIE; SRIVASTAVA, 2021; O GLOBO, 2022).

Outro aspecto deve ainda ser considerado que é a letalidade da doença. No que dependesse dos jornais, com suas atualizações diárias de mortes e imagens de cemitérios repletos de caixões, não haveria dúvida que a COVID-19 é uma doença mortal que ameaça a existência do mundo. Percepção reforçada por cenas de hospitais lotados, ignorando-se que, historicamente, eles já costumavam ter alta ocupação e que uma pandemia seria suficiente para o total estrangulamento. Conforme Bittencourt e Hortale já ressaltaram lá em 2009, “superlotação nos Serviços de Emergência Hospitalar (SEH) é um fenômeno mundial” (CONASS, 2013; TRIBUNA DO NORTE, 2014; G1, 2014).

A COVID-19 realmente é uma doença potencialmente letal, porém cerca de 99% das pessoas infectadas jamais morreriam dela, mesmo que não estivessem vacinadas, pois sua letalidade geral é em torno de 1%, sendo maior em idosos (cerca de 3%) e menor em crianças pequenas (quase 0%). Ademais, os assintomáticos podem chegar a quase 90% dos infectados (ALMADHI et al., 2021; IOANNIDIS, 2021).

Ioannidis (2021, p. 19) observou em seu estudo que “as taxas de mortalidade por infecção inferidas tendiam a ser muito mais baixas do que as estimativas feitas no início da pandemia”.  Conforme o estudo, as taxas variaram de 0,00% a 1,54%, conforme o local, idade e perfil das pessoas. Isso está próximo da estimativa de Park et al. (2020), no começo da pandemia, que calculou entre 0,3 e 1,4% fora da China. Os índices de letalidade que os jornais reportavam no auge da pandemia eram maiores que tais percentuais porque não se baseavam no total real de infectados, mas nos casos confirmados por testes.

Por fim, uma questão de importância decisiva, é que tais vacinas eram substâncias ainda em desenvolvimento, mesmo após o seu registro definitivo nas agências sanitárias. Isso fez de tais vacinas produtos experimentais, conforme afirmado textualmente pela Anvisa, na Resolução RDC Nº 444, de 10 de dezembro de 2020, quando liberou as vacinas contra a COVID-19 para a população:

Estabelece a autorização temporária de uso emergencial, em caráter experimental, de vacinas Covid-19 para o enfrentamento da emergência de saúde pública de importância nacional decorrente do surto do novo coronavírus (SARS-CoV-2) (ANVISA, 2020, grifo incluído).

Essa liberação ultrarrápida só foi possível com a simplificação ou redução dos estudos necessários. Por exemplo, as doses de reforço da vacina da Pfizer foram liberadas com base em um estudo com somente 306 participantes de 18 a 55 anos de idade e 12 participantes com 65 anos ou mais, acompanhados durante apenas dois meses (FDA, 2022).

Como consequência dessas informações limitadas e incompletas, as vacinas continuaram a ser estudadas, além de surgirem dúvidas e indefinições, tais como se era preciso ou não doses de reforço; e, se sim, quantas, se poderiam ou não ser de fabricantes diferentes, qual seria o nível de proteção e quanto tempo duraria. E o mais importante: se haveria efeitos adversos desconhecidos, inclusive os de longo prazo.

Quanto a isso, a Pfizer foi clara na Cláusula 5.5 do seu contrato de compra e venda ao governo brasileiro:

O Comprador reconhece que a Vacina e os materiais relativos à Vacina […] estão sendo desenvolvidos rapidamente devido às circunstâncias de emergência da pandemia de COVID-19 e continuarão sendo estudados após o fornecimento da Vacina […] O Comprador ainda reconhece que a eficácia e os efeitos a longo prazo da Vacina ainda não são conhecidos e que pode haver efeitos adversos da Vacina que não são conhecidos atualmente. […] (MINISTÉRIO DA SAÚDE, CONTRATO Nº 52/2021, grifo incluído).

Um exemplo que ilustra esse ponto são os casos de miocardite que começaram a ser reportados relacionados às vacinas de RNA-mensageiro, como a da Pfizer, antes mesmo que os fabricantes reconhecessem a existência desse efeito adverso e o mencionassem nas bulas.

No início, os jornais diziam não haver comprovação desse efeito no músculo cardíaco, não obstante em junho de 2020 o FDA americano já tivesse alertado sobre a possibilidade de miocardite, alerta ignorado pelos “verificadores” de fatos. Depois de confirmada a relação causal, eles passaram a dizer que a miocardite pós-vacinal é um evento raro, sem gravidade e que geralmente os afetados sobrevivem, por isso as pessoas não deveriam se preocupar (FDA, 2020; ISTO É DINHEIRO, 2021; R7, 2021; UOL, 2022; PODER360, 2022).

Considerando-se, porém, que a miocardite pode causar morte súbita, e isso já ocorreu como consequência da vacina, essa inflamação cardíaca não parece ser tão insignificante quanto os jornais diziam (MONTERA et al., 2013; 1NEWS, 2022). Inclusive porque as próprias agências de saúde orientaram que, após a inoculação, se aguardasse um pouco no local para ver se não haveria arritmia cardíaca. E quem apresentasse depois um quadro de miocardite que fosse devidamente acompanhado (FDA, 2021; ANVISA, 2021).

As vacinas de RNA-mensageiro podem causar tanto miocardite quanto pericardite, que são, respectivamente, processos inflamatórios no músculo cardíaco e em seu revestimento chamado pericárdio (WECOR, 2020). O Registro de Cardiomiopatia Pediátrica dos Estados Unidos estimou a incidência anual de miocardite em 1,13 para cada 100.000 jovens até 18 anos. A miocardite pós-vacinal tem sido maior. Por exemplo, o estudo de Chua et al. (2021) mostrou que a ocorrência variou de 5,57 a 37,32 por 100.000 jovens do sexo masculino vacinados. No estudo de Witberg et al. (2021), a variação foi menor, de 6,93 a 14,46, mas ainda superior ao normal.

Ressalte-se que efeitos adversos graves não se restringem apenas aos imunizantes de RNA-mensageiro. Todas as vacinas da COVID-19 possuem algum registro nesse sentido. Vacinas de vetor viral, como a da Astrazeneca, causaram reações graves relacionadas à trombose e algumas mortes, mas as notícias sempre apresentavam essa situação como algo raro e sem grande importância. No entanto, alguns países restringiram ou baniram esse tipo vacina, como ocorreu na Dinamarca, que abandonou a vacina da Astrazeneca por considerá-la insegura (THE GUARDIAN, 2022; DW, 2021; R7, 2022).

Uma evidência que sugere a possibilidade de problemas sérios nas vacinas da COVID-19 são os diversos relatos que circulam em aplicativos de mensagens sobre problemas graves após a aplicação das vacinas, alguns dos quais tiveram a confirmação de que foram mesmo devido aos imunizantes. É o caso de uma mulher chamada Cícera Alves, que precisou amputar uma perna após uma reação à vacina da Pfizer. Ela comprovou o fato em vídeos e laudos médicos, porém o perfil dela foi depois removido. (INSTAGRAM, 2021; REVISTA ESMERIL, 2021).

Essa impressão se torna mais forte quando se considera as notificações registradas no Sistema de Relatos de Eventos Adversos por Vacinas (VAERS) do CDC dos Estados Unidos. De acordo com o relatório que pode ser gerado no VAERS, as vacinas da COVID-19 foram associadas a mais de 75% das mortes ocorridas após aplicações de todas as vacinas, não apenas as da COVID, desde 1981. Ou seja, em pouco mais de um ano, as vacinas contra a COVID-19 superaram em quantidade as notificações de todas as vacinas dos 31 anos anteriores. Isto é algo sem precedentes na história das vacinas (CDC, 2022).

Tais eventos adversos graves podem passar despercebidos porque eles são apenas uma fração dos bilhões de indivíduos que foram vacinados. Mesmo assim, a quantidade de pessoas que foram “sorteadas” (afligidas) com a morte ou com algum problema grave pode chegar a milhares no mundo inteiro, conforme sugerem algumas projeções estatísticas (KYLE, 2021).

E como não poderia deixar de ser, quando esses dados do VAERS foram descobertos e divulgados, os “checadores” da verdade foram rápidos em dizer que eles são irrelevantes, já que são meras notificações de pessoas comuns (LUPA, 2022). Realmente são apenas notificações e cabe às autoridades americanas investigarem cada caso reportado, o que nem sempre é feito. No entanto, o VAERS é uma ferramenta importante para uma análise preliminar dos possíveis efeitos adversos dessas vacinas ainda em desenvolvimento.

Um estudo publicado na revista Lancet analisou as reações adversas reportadas no VAERS que foram associadas à vacina da Pfizer, inclusive os óbitos, mesmo com a ressalva de que “os dados do VAERS sozinhos geralmente não podem estabelecer relações causais entre vacinação e eventos adversos”. Esse estudo, feito por Rosenblum et al. (2022), analisou 4.471 mortes entre dezembro de 2020 e junho de 2021 e descobriu o seguinte.

Dos que morreram, 81,6% tinham 60 anos ou mais. O tempo médio entre a vacinação e as mortes foi de 10 dias, ocorrendo mais no primeiro dia (11,4%) e no segundo dia (7,6%). Certidões de óbito e relatórios de autópsias estavam disponíveis para apenas 18,1% dos casos notificados, sendo 46,5% destes relacionadas a problemas cardíacos e à própria COVID (12,6%). Das mortes sem atestados de óbito ou autópsia, 54,2% foram consideradas de causas desconhecias ou pouco claras.

O estudo também menciona algumas doenças reportadas, a exemplo da síndrome de trombocitopenia e a de Guillain-Barré, porém estas estavam associadas à vacina de vetor viral da Janssen, não às vacinas de RNA-m. Também foram notificados casos de anafilaxia, o que forçou as autoridades atualizarem as orientações clínicas e recomendações de manejo das vacinas, tendo em vista que anafilaxia é grave na maioria das vezes.

Como se nota, pelo estudo não é possível estabelecer uma relação causal entre as mortes e a vacina, tendo em vista a falta de informações, porém existe uma relação temporal. Apenas uma investigação minuciosa, caso a caso, poderia esclarecer todas as mortes, especialmente quanto àquelas cujas causas não foram informadas, sendo elas a maioria (mais de 80%).

De qualquer maneira, será sempre muito suspeito quando uma pessoa que sempre foi saudável morrer ou ficar com sequelas pouco tempo depois que se vacinou. É razoável concluir que foi por causa da vacina, mesmo que não tenha uma comissão de especialistas do governo investigando o caso e confirmando a relação causal. Esse tipo de investigação nunca é feita em todos os casos, até por limitação logística. O caso de um rapaz que veio a óbito em Santa Catarina, abordado mais adiante, ilustra bem esse problema.

Para ilustrar, quando alguém fica febril após ser vacinado, ninguém duvidará que a vacina foi a causa, porém se o quadro dessa mesma pessoa piorar e a ela morrer, logo os entusiastas da vacina dirão que é precipitado culpar o imunizante.

Não é preciso um estudo científico para concluir que, nesse caso, há uma elevada probabilidade de ter sido mesmo por culpa da vacina, devido à relação temporal, especialmente quando quem morreu era sabidamente saudável. No entanto, a conclusão que pode ser apresentada nas investigações oficiais é que a pessoa tinha uma doença que desconhecia, como ocorreu no caso de uma adolescente que morreu após tomar a vacina. Após a investigação, as autoridades disseram que ela tinha uma doença autoimune, o que foi negado pela mãe da jovem (JOVEM PAN NEWS, 2021; G1, 2021). Ao que parece, nunca é dito que a vacina pode contribuir para que o efeito dessas doenças desconhecidas se manifeste, ainda que seja razoável pensar isso. Só esta possibilidade seria suficiente para que tivesse havido um critério mais rigoroso na aplicação dessas vacinas.

Houve um caso em Santa Catarina que demonstra a dificuldade de se comprovar a relação de causa e efeito. O jovem advogado Bruno Graf morreu de trombose 12 dias após a primeira dose da Astrazeneca, vacina de vetor viral. Quando sua mãe, Arlene, tornou o caso público, jornais disseram que não havia provas que tinha sido devido à vacina. Dias depois do óbito as autoridades diziam não haver evidências conclusivas.

Então, consumida pela dúvida, Arlene pagou um exame feito na Espanha, o qual confirmou que a morte fora mesmo causada pela vacina. Depois disso, a relação causal foi reconhecida no Boletim Epidemiológico de Santa Catarina, porém sem referência à iniciativa de Arlene. A conclusão, porém, foi clara. O óbito realmente foi causado pela vacina (PODER360, 2021; BRASIL DE FATO, 2021; CNN, 2022).

O caso Bruno Graf é emblemático porque ilustra a questão dos efeitos adversos graves e as dificuldades de se estabelecer uma relação de causa e efeito entre a morte de uma pessoa e a inoculação, bem como a incapacidade governamental de investigar todos os casos suspeitos. Seria ingenuidade achar que todos eles serão investigados, e com o mesmo empenho demonstrado pela mãe de Bruno, inclusive porque provavelmente na maioria dos casos nem é possível fazer tal investigação, devido à falta de pessoal, de escassez de informações e falta de orçamento financeiro para realizar todos os exames necessários.

Depois da morte do filho, Arlene passou a fazer campanhas para alertar as pessoas dos riscos em potencial das vacinas da COVID. Como passou a ser vista como militante “anti-vacina”, ela foi hostilizada por “verificadores” de fatos e banida do Facebook, Instagram e Twitter, porém ingressou na Justiça para tentar reaver as suas contas. Ressalte-se que Arlene já disse numa entrevista que não é contra vacinas. Os checadores, porém, costumavam generalizar, desqualificando pessoas que estavam apenas usando seu senso crítico e exercendo o direito de escolha para evitar uma vacina ainda em desenvolvimento.

Portanto, pelas razões expostas, que são apenas uma amostra de toda a situação, o registro definitivo na Anvisa não mudou em absolutamente nada o caráter de produtos ainda em desenvolvimento ou experimentais das vacinas contra a COVID-19, apesar de pessoas de dentro da própria agência afirmarem publicamente o contrário, contradizendo assim os critérios originalmente adotados por eles próprios (Anvisa, 2021). O conhecimento que foi sendo adquirido sobre essas vacinas, bem como seus efeitos, à medida que a vacinação em massa avançava, atestou que elas realmente eram produtos experimentais, ainda em desenvolvimento, num “ensaio clínico” de escala global.

Curiosamente, quem dizia que o registro na Anvisa afastou o caráter experimental das vacinas nunca reconheceu que a Coronavac é experimental, uma vez que ela nunca recebeu tal registro e foi até descontinuada. Hoje não é mais utilizada. Consequentemente, continuou sendo uma vacina emergencial e experimental, conforme definido originalmente pela Anvisa e reafirmado por seu Gerente-Geral em 2021, ao dizer que na “autorização de uso emergencial, a vacina ainda está em fase experimental”. Mesmo assim, 6 milhões de doses da Coronavac foram liberadas no primeiro dia de vacinação no Brasil, em 19/01/2021 (EBC, 2021).

5. Considerações finais

Como se viu nessa pesquisa, pode haver uma grande distância em se falar publicamente em nome da ciência e aderi-la de fato em seus princípios fundamentais. Uma vez que o debate é interditado pelos que deveriam prezar pela livre circulação de ideias, já não existe mais ciência. O que resta é apenas retórica fundada no discurso da autoridade.

Conforme ficou demonstrado nas seções precedentes, o que aconteceu durante a pandemia ilustra bem como posturas refratárias e condenadoras das visões divergentes contribuem para a destruição da ciência, tendo sérias repercussões na própria sociedade, já que nesse assunto vidas e consciências estavam em jogo. Os pontos expostos no estudo, devidamente embasados com referências, poderão servir de motivação para que outros pesquisadores se debrucem sobre o problema real abordado no artigo.

Assim, se no futuro ocorrer algo semelhante à pandemia da COVID-19, os erros então cometidos poderão ser evitados, visando ao bem-comum e ao próprio aprimoramento da ciência. Afinal, esse deveria ser o desejo de todos que vivem em sociedade e desejam um mundo melhor, ainda que divirjam sobre como determinada coisa deve ser entendida e conduzida. A discussão saudável e respeitosa poderá resultar em consenso, afastando o efeito danoso que é apenas um dos lados tomar as rédeas da situação e impor seu ponto de vista aos demais.

APÊNDICE

As máscaras e seu nível de proteção contra o coronavírus

Visto que uma máscara, seja caseira ou cirúrgica, é uma barreira entre o rosto e o ambiente, é razoável concluir que ela possui sua utilidade no controle de doenças respiratórias. De fato, a Organização Mundial de Saúde sempre recomendou que pessoas gripadas utilizassem máscaras. No entanto, determinados aspectos devem ser considerados para se determinar o quão eficazes são as máscaras, especialmente em relação ao Sars-Cov-2.

Como se nota na Tabela abaixo, levando em consideração o tamanho do coronavírus, entende-se porque as máscaras tendem a ter eficácia reduzida, especialmente as de tecido (COWLING et al., 2010; NEILSON, 2016; GUAN, 2018; BUNDGAARD et al., 2021).

Tabela – Tamanho do coronavírus (comparativo)

Fonte: elaborada pelo autor (2022).

O diâmetro do coronavírus varia aproximadamente de 0,06 a 0,14 micrômetros (μm), ou 60 a 140 nanômetros (nm) (VARGA et al., 2021). 1 micrometro é 1 metro dividido por 1 milhão. Então, caso se considere um coronavírus com 0,1 μm, ele é 10 milhões de vezes menor do que 1 metro. Ele é tão diminuto que possivelmente se espalha por flatulências (WANG et al., 2020; LEE, 2020; METRÓPOLES, 2020).

Por sua vez, cada microfuro ou poro de uma máscara de pano varia de 80 a 500 μm, por onde um fio de cabelo poderia passar (POZEBON et al., 1999; NEUPANE et al., 2019). O tamanho do microporo dependerá do tipo de tecido e de sua trama. Mesmo em máscaras com mais de uma camada, os poros continuam lá, os quais podem ser vistos contra a luz. Já o coronavírus é impossível de se ver a olho nu devido ao seu tamanho microscópico.

Nesse caso, se cada poro de uma boa máscara de pano medir 80 μm, mesmo assim será 800 vezes maior do que um coronavírus de 1 μm. Logo, é evidente que o vírus passaria com facilidade pelo microfuro. É como comparar uma moeda de 10 centavos (que tem 2 cm) com uma piscina circular com 16 metros de diâmetro.

A situação só não é assim tão extrema porque os vírus não se movem sozinhos no ar, mas, sim, dentro de aerossóis, que são minúsculas gotículas. Cada uma delas possui cerca de 5 μm (VARGAS MARCOSA et al., 2020), o que ainda é 16 vezes menor do que o poro de 80 μm da máscara do exemplo. É como comparar uma moeda de 5 centavos com uma pizza tamanho grande.

Nas máscaras profissionais N95 (ou PFF-2), chamadas de respiradores pelos fabricantes, a situação já é melhor, pois além de elas contarem com um sistema mais eficiente, chamado filtragem por difusão, cada poro delas possui cerca de 3 μm de diâmetro, o que é um pouco menor do que a gotícula, mas ainda assim 30 vezes maior do que o coronavírus do exemplo (3M SCIENCE APPLIED TO LIFE, 2020; EL-ATAB, 2020).

Com tantas situações desfavoráveis, o motivo por que as máscaras ainda são recomendadas para os doentes deve-se apenas à probabilidade de as gotículas serem absorvidas pelo material e ficarem retidas, juntamente com os vírus que carregam, razão por que as máscaras de pano devem ser lavadas periodicamente, para não perderem essa capacidade de absorção. É isso o que mostra a maioria dos estudos que aponta algum benefício das máscaras, nos quais a OMS se baseou para mudar de posicionamento e recomendar que todos usem máscaras (KONDA et al., 2020; HUB JOHNS HOPKINS UNIVERSITY, 2020; TAMINATO et al., 2020; ROBERGE; ROBERGE, 2020).

Ainda há mais um fator que contribui para a baixa eficiência das máscaras: o vírus não se espalha apenas pelo ar, mas também por contato físico. Friccionar a máscara com a mão, por exemplo, pode fazer o vírus passar por ela. Ou então o vírus pode entrar pelas laterais do pano, quando mal ajustado ao rosto (UFPE, 2020). Nem a máscara N95 está totalmente livre dessas dificuldades, inclusive, porque, como ela dificulta mais a respiração, a tendência será a pessoa removê-la com maior frequência e aumentar o risco de contaminação por contato manual.

Assim, pelo exposto, conclui-se que há razões científicas suficientes para questionar a necessidade de todos usarem máscara. Mesmo ela sendo útil para quem adoeceu de COVID-19, seu uso deveria ter sido voluntário durante a pandemia e não obrigatório. Entretanto, pessoas que expressaram publicamente essa opinião foram chamadas de “negacionistas” por agências “checadoras de fatos” (ESTADO DE SÃO PAULO, 2021; POLÍGRAFO, 2020). A ciência passou longe desses comentários.

Autor: Adelmo Medeiros

Fortaleza, 19 de julho de 2026.


REFERÊNCIAS

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Notas

[1] Acessar “Vaccine Adverse Event Reporting” e concordar com os termos (“I Agree”). Clicar em “VAERS Data Search”. Um dos eventos localizáveis são as mortes (“Deaths”). Em “1. Organize table layout” a busca pode ser por fabricante (“Vaccine”) ou para todas as vacinas da COVID-19 (“Vaccine Type”).

[2] Na data de conclusão deste trabalho, o perfil de Cícera Alves já não estava mais disponível no Instagram. Ela havia disponibilizado para o público vídeos e imagens de sua condição, além dos relatórios médicos que comprovam a relação de causa e efeito entre a amputação da perna e a vacina. Cícera também concedeu entrevistas a vários canais, porém com a constante censura de mídias sociais a esse tipo de conteúdo, ficou inviável manter registros de tais vídeos.

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