A menorá e a gematria – alusões proféticas ao cânon bíblico

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A lâmpada é símbolo da Palavra de Deus, conforme o Salmo 119:105[1], e de acordo com o livro de Êxodo, Deus forneceu instruções específicas para que fosse feito um candelabro de ouro com sete lâmpadas, chamado de “menorá”, que iluminaria o Santo, recinto anterior ao Santíssimo, onde ficava a Arca da Aliança. O candelabro possuía uma haste central com seis braços laterais e sete lamparinas no topo.

Como veremos a seguir, o número de ornamentos e receptáculos das lamparinas é exatamente a mesma quantidade de livros da Bíblia. Esta é uma antevisão surpreendente, pois na época dos acontecimentos narrados no livro de Êxodo, onde foi descrito como a menorá deveria ser construída, a Bíblia ainda não existia!

Assim foram as instruções dadas aos israelitas:

“Faça um candelabro de ouro puro e batido. […] Seis braços sairão do candelabro: três de um lado e três do outro. Haverá três taças com formato de flor de amêndoa num dos braços, cada uma com botão e flor […] Assim será com os seis braços que saem do candelabro. […] Na haste [central] do candelabro haverá quatro taças com formato de flor de amêndoa, cada uma com botão e flor. […] Faça-lhe também sete lâmpadas e coloque-as nele para que iluminem […] Tenha o cuidado de fazê-lo segundo o modelo que lhe foi mostrado no monte.” – Êxodo 25:31-34, 37, 40.

Desse modo, cada taça (ou copo) presente nos braços da menorá e em sua haste central possuía três elementos: o copo em si, um botão de flor e uma flor[2].

Visto que em cada taça há três elementos (copo, botão e flor) e em cada braço lateral há três taças, serão nove elementos distintos em cada braço (3 x 3 = 9).

Como são seis braços, então haverá nos braços laterais 54 elementos (6 x 9 = 54), ao passo que na haste central haverá quatro taças, com 12 elementos (4 x 3 = 12). Ao somar o número de elementos dos braços com os elementos da haste central, obtêm-se 66 elementos (12 + 54 = 66), conforme visualizado na imagem abaixo.

Por fim, depois que os elementos decorativos são colocados nos braços e na haste central, acrescentam-se as sete lâmpadas no topo, perfazendo um total de 73 elementos (66 + 7 = 73). Com esse acréscimo, conclui-se a construção da menorá.

A quantidade 73, resultante do acréscimo das 7 lâmpadas aos 66 elementos decorativos, é exatamente o número de livros da Bíblia, conforme vistos nas edições católicas, que incluem os sete livros deuterocanônicos (canônicos tardios), sendo eles: Tobias (ou Tobit), Judite, Sabedoria (de Salomão), Eclesiástico (também chamado de Sirácida ou Ben Sira), Baruque (incluindo a Carta de Jeremias no capítulo 6), 1 Macabeus e 2 Macabeus.

Tal como ocorreu na construção da menorá, cujas lâmpadas foram colocadas depois que os 66 elementos decorativos já estavam prontos, a inclusão daqueles sete livros no cânon bíblico foi definida e ratificada pela Igreja Católica apenas posteriormente em relação aos demais sessenta e seis livros, cujo status canônico foi, de maneira geral, aceito mais prontamente e com menos controvérsias pelas comunidades cristãs.

No entanto, os deuterocanônicos já haviam sido escritos antes do século I e a igreja primitiva já fazia uso deles. Deu-se tal como na menorá: antes de serem colocadas definitivamente no topo da estrutura, as lâmpadas foram feitas em algum momento anterior do tempo.

Note que o número 7 é o símbolo de perfeição e completude. Desse modo, a Bíblia só estaria completa, e iluminando plenamente os caminhos do cristão, com seus 73 livros. Esta é a razão por que tais livros já eram utilizados na igreja primitiva, como revelam a literatura Patrística e até alguns trechos do Novo Testamento (ao contrário do que pensam os protestantes, que acham que não há citações desses livros ou referências a eles).

A gematria como evidência adicional dos 73 livros antevistos na menorá

Nos tempos bíblicos, a cada letra do alfabeto hebraico (idioma do Antigo Testamento) era atribuído um valor numérico, razão pela qual não havia números nas moedas, mas apenas letras que indicavam o seu valor. Semelhante atribuição de valores ocorria no alfabeto da língua grega (idioma do Novo Testamento).

Com isso em mente, desenvolveu-se um método de interpretação bíblica chamado de gematria (“geometria” em grego), pelo qual os referidos valores numéricos são atribuídos a cada uma das letras que aparecem em determinados versículos da Bíblia. Uma vez que esses valores são identificados, algumas operações matemáticas podem ser feitas com eles, tais como somar, multiplicar e fatorar. O objetivo com isso é determinar padrões e informações que não estão evidentes nos textos em si, mas que se mostram bem relacionados a eles.

Um exemplo é o relato em que Jesus disse aos judeus que se o templo fosse destruído ele o levantaria em três dias (João 2:19). Achando que Jesus estava falando do templo de Jerusalém, alguns retrucaram: “Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu o levantarás em três dias?” (João 2:20).

No entanto, Jesus se referia ao templo do seu corpo (João 2:21), que seria “destruído” (morreria), porém após três dias ele o “levantaria” (ressuscitaria). Também é dito na Bíblia que o corpo do cristão é o templo do Espírito Santo (1 Coríntios 6:19), apresentando assim a mesma ideia de que o corpo é um templo. Pouco depois, diz também que Jesus é o último Adão (1 Coríntios 15:45), nome que conecta o templo do corpo de Jesus com o tempo de construção do templo judaico.

Pela gematria, o somatório das letras do nome “Adão”, em grego, resulta precisamente no número 46*, que foi a quantidade de anos necessária para que o templo em Jerusalém fosse construído. Isso é um indicativo “gemátrico” que confirma o que está na superfície do texto de João 2:19-21, sobre o corpo de Jesus ser o templo que seria derrubado e reerguido em três dias. Há, portanto, uma ligação geométrica entre essa informação e o que é dito textualmente no relato.

* Em grego, Adão é adam, palavra formada pelas letras alfa, delta, alfa e mu (ou mi), cujos valores numéricos são, respectivamente, 1, 4, 1, 40, conforme tabela abaixo. Quando somados, esses números resultam no número 46 (1 + 4 + 1 + 40 = 46).

Isto até poderia ser apenas uma coincidência, não fosse o fato de haver inúmeros resultados semelhantes quando outros textos são analisados à luz da gematria. Isso nos leva a concluir que Deus guiou a escrita da Bíblia de um modo tal que vai muito além do que seus leitores costumam pensar, e abrange mais aspectos.

Ressalte-se que foi Santo Agostinho quem notou esta relação simbólica entre o templo e o valor numérico do nome “Adão”. Isso mostra que tal tipo de interpretação numérica não é uma novidade, mas é antes algo que pertence à tradição hermenêutica cristã. Disse Agostinho:

“Devemos nos lembrar de que o Senhor disse que, quando ele vier, ele reunirá os eleitos, dos quatro ventos. Então, se você pegar as quatro letras iniciais dos nomes das quatro partes do mundo (o oriente, o ocidente, o norte e o sul) escritas em grego (anatole, dysis, arctos e mesenbria), você obterá o nome Adão (Adam) […]

“Vejam agora que número formam as letras que compõem o nome Adão (Adam) e vocês encontrarão os quarenta e seis anos empregados na construção do templo. A palavra Adam (Adão) é composta por um α (alfa), um e um δ (delta), quatro, que já somam cinco. Depois vem outro α (alfa), um, o que soma agora seis. Por fim, há um μ (mu), quarenta. Soma total: quarenta e seis”. – O Evangelho de São João Comentado I, Santo Agostinho, p. 300 (PDF, 2.663 Kb).

Assim, não é uma interpretação forçada identificar o valor numérico 46 no referido texto de João e concluir que isso tem a ver com os 46 anos que foram necessários para a construção do templo em Jerusalém, tendo em vista que Jesus estava se referindo ao templo de seu corpo. Esse entendimento já havia na igreja primitiva.

Em reforço a isso, note ainda que no tempo de Jesus os judeus estavam sob a vigência da antiga Aliança, que era bem representada pelo templo judaico e pelo Antigo Testamento, que na Bíblia católica são 46 livros.

Algo semelhante ocorre em textos relacionados à Palavra de Deus, em relação aos quais a gematria aponta para o número 73, indicando assim que a Bíblia foi ‘selada’ pela Providência para que realmente contivesse 73 livros e não apenas 66. Veremos a seguir alguns exemplos.

Isso ocorre, por exemplo, no versículo que talvez seja o mais significativo para essa análise pela gematria, que é o de Êxodo 25:31, no qual se iniciam as instruções para a construção da menorá:

“Farás um candelabro de ouro puro; e o farás de ouro batido, com o seu pedestal e sua haste: seus cálices, seus botões e suas flores formarão uma só peça com ele”.  (Êxodo 25:31, Bíblia Ave-Maria)

Para essa análise, vamos dividir o texto em dois blocos (na citação acima separados por ponto-e-vírgula). No primeiro bloco aplicaremos a gematria em grego e no segundo bloco a gematria em hebraico.

Para não termos que calcular manualmente, utilizaremos o site Bible Wheel, que faz esse cálculo automaticamente utilizando o texto hebraico massorético da edição Stuttgartensia e o texto grego da Septuaginta, edição de Rahlfs. Ao acessar o site, basta informar a versão que se quer a análise numérica da gematria (hebraico ou grego), escolher o versículo bíblico e selecionar as palavras desejadas. Após isso, os cálculos são feitos de maneira automática.

• “Farás um candelabro de ouro puro” (em grego)[3]

O somatório dos valores das letras desse trecho é 4161. Este número pode ser fatorado como 57 x 73, sendo este último o número de livros da Bíblia católica.

• “E o farás de ouro batido, com o seu pedestal e sua haste: seus cálices, seus botões e suas flores formarão uma só peça com ele” (em hebraico)[4]

O somatório dos valores das letras desse trecho é 3212. Podemos fatorá-lo como 44 x 73 – novamente, o número de livros da Bíblia católica.

Logo, o valor do versículo inteiro em grego e em hebraico é 7373. Isto é mais uma ressonância envolvendo o número 73 que aponta para a quantidade de livros canônicos da Bíblia.

O fato de a Bíblia católica possuir 66 livros acrescidos de mais 7 (66 + 7 = 73), pode ainda ser visualizado pela gematria em outras palavras e versículos. Abaixo mais três exemplos:

1. O nome “Palavra” em grego (Logos) possui valor numérico 373, número primo que utiliza os mesmos dígitos do número de livros da Bíblia, o 7 e o 3, que são números importantes e recorrentes no texto da Palavra de Deus.

2. O texto de Zacarias 3:9 descreve uma visão do profeta, em que ele afirma que “sobre esta pedra única estão sete olhos”. A expressão “esta pedra única” em hebraico é ‘even echat’ (‘uma pedra’), cujo valor numérico é 66 x 7, que são justamente o número de livros protocanônicos e deuterocanônicos, que, somados, dão o número total de livros da Bíblia católica, 73.

3. A Igreja Católica canonizou a coleção de 73 livros da Bíblia. No nome “Igreja Católica”[5], em grego, as letras que o compõem possuem valor numérico 462, o mesmo de “esta pedra única” acima, cujo valor pode ser fatorado como 66 x 7.

καθολικὴ ἐκκλησία (katholikê ekklêsia)

K=20, α=1, θ=9, ο=70, λ=30, ι= 10, κ=20, ὴ=8, ἐ=5, κ=20, κ=20, λ=30, η=8, σ=200, ί=10, α=1

20 + 1 + 9 + 70 + 30 + 10 + 20 + 8 + 5 + 20 + 20 + 30 + 8 + 200 + 10 + 1 = 462.

O “modelo” da menorá presente em Zacarias e Apocalipse

“Farás um candelabro de ouro puro. E o farás de ouro batido, com o seu pedestal e sua haste: seus cálices, seus botões e suas flores formarão uma só peça com ele” (Êxodo 25:31).

Sobre esse modelo da menorá descrito no texto acima, note que sete lamparinas foram incluídas em um único candelabro de 66 ornamentos (Êxodo 25:31-40) e sem essa inclusão a menorá não estaria concluída. Esse padrão de sete sendo acrescido a algo único previamente existente se repete em Zacarias e Apocalipse:

1) Em Zacarias 3:9, há sete olhos sobre uma única pedra:

“Porque eis aqui a pedra que pus diante de Josué; sobre esta pedra única estão sete olhos; eis que eu esculpirei a sua escultura, diz o Senhor dos Exércitos, e tirarei a iniquidade desta terra num só dia”.

2) Em Apocalipse 5:1, há sete selos sobre um único livro (rolo):

“E vi na destra do que estava assentado sobre o trono um livro escrito por dentro e por fora, selado com sete selos”.

Desse modo, a Bíblia foi ‘selada’ com os 7 livros deuterocanônicos e com eles teve sua escrita encerrada, formando o cânon aceito desde a igreja primitiva, não obstante algumas opiniões divergentes.

Autores: Adelmo Medeiros e Victor Pires.

Fortaleza, 30 de julho de 2026.


[1] “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra, e luz para o meu caminho” (Salmo 119:105). Em hebraico, cada uma dessas sentenças tem exatamente 11 letras, perfazendo um total de 22 letras, que é o total de letras do alfabeto hebraico. Isso talvez não seja apenas coincidência, mas, sim, uma “dica” de que o entendimento da Bíblia também está relacionado com as letras de seu idioma original e suas quantidades. O que está exposto a seguir aponta nesse sentido.

[2] A flor representada na menorá é a flor da amendoeira, que o formato da menorá busca emular.

[3] Disponível em: https://biblewheel.com/bible/index.php?book=Exo&chapter=25&verse=31&count=1&edition=LXX-Rahlfs&groups=1-6%7C4161%2520%253D%25203%2520%25C3%2597%252019%2520%25C3%2597%252073&glit=1

[4] Disponível em: https://biblewheel.com/bible/index.php?book=LxxExod&chapter=25&verse=31&count=1&edition=BHS&groups=5-14&glit=1

[5] Inácio de Antioquia, discípulo do apóstolo João, foi quem pela primeira vez usou a expressão “igreja católica” para se referir a todas as igrejas cristãs, no início do século II. Inácio conheceu pessoalmente os apóstolos Pedro e Paulo.

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