Quando Babilônia destruiu Jerusalém? – análise de dois artigos da revista “A Sentinela”

4. A desolação de Jerusalém e os Setenta Anos

A desolação de Jerusalém e os setenta anos de Babilônia

Quando os 70 anos de Babilônia terminaram em 539 a.C., e teve início o domínio persa, o profeta Daniel voltou sua atenção para a então devastada Jerusalém. Sobre esse episódio, a revista A Sentinela diz o seguinte:

“O profeta Daniel, que viveu até o começo do ‘domínio persa’ e estava em Babilônia quando isso aconteceu, calculou quando os 70 anos terminariam. Ele escreveu: ‘Eu, Daniel, compreendi pelas Escrituras, conforme a palavra do SENHOR dada ao profeta Jeremias, que a desolação de Jerusalém iria durar setenta anos.’— Daniel 9:1, 2, NVI.” – A Sentinela, 01/11/2011, p. 28.

Ao ver a tradução acima, qualquer um poderia chegar à conclusão de que o profeta Daniel realmente disse que Jerusalém ficaria desolada por setenta anos. Consequentemente, o exílio em massa dos judeus teria durado também setenta anos. Mas isto contradiz as evidências históricas e o próprio livro de Jeremias, pois ele disse que os setenta anos se referem ao domínio de Babilônia sobre as nações e não à desolação de Jerusalém. Por este motivo, ao ler os escritos de Jeremias, Daniel não poderia fazer uma aplicação diferente dos setenta anos. E realmente ele não fez isso. Na verdade, a tradução acima da Nova Versão Internacional está errada. Note a seguir o real sentido desse texto, que está melhor vertido na Tradução do Novo Mundo:

“No primeiro ano do seu reinado, eu, Daniel, compreendi pelos livros o número de anos a respeito dos quais viera a haver a palavra de Jeová para Jeremias, o profeta, para se cumprirem as devastações de Jerusalém, [a saber,] setenta anos.” – Daniel 9:2.

A expressão “a saber” não consta no texto hebraico original. Por isso ela está entre colchetes. Sendo assim, o tradutor poderia ter inserido quaisquer palavras que quisesse nesses colchetes. Até mesmo as que deixariam claro que Daniel estava a mencionar dois eventos distintos. Por exemplo:

“No primeiro ano do seu reinado, eu, Daniel, compreendi pelos livros o número de anos a respeito dos quais viera a haver a palavra de Jeová para Jeremias, o profeta, para se cumprirem as devastações de Jerusalém, [e os] setenta anos.” – Daniel 9:2.

Qualquer leitor que estivesse familiarizado com o conteúdo do livro de Jeremias, especialmente numa Bíblia que traduz corretamente o texto de Jeremias 29:10*, não teria nenhuma dúvida quando visse Daniel mencionar “as devastações de Jerusalém e os setenta anos”. Rapidamente, o leitor se lembraria que os setenta anos mencionados são aqueles que foram dados à Babilônia (Jer. 25:10). Por esta razão, nada impediria que dois pares de colchetes fossem acrescentados para esclarecer melhor o que foi dito, pois estaria de acordo com o contexto do livro de Jeremias:

Qualquer leitor que estivesse familiarizado com o conteúdo do livro de Jeremias, especialmente numa Bíblia que traduz corretamente o texto de Jeremias 29:10[1], não teria nenhuma dúvida quando visse Daniel mencionar “as devastações de Jerusalém e os setenta anos”. Rapidamente, o leitor se lembraria que os setenta anos mencionados são aqueles que foram dados à Babilônia (Jer. 25:10). Por esta razão, nada impediria que dois pares de colchetes fossem acrescentados para esclarecer melhor o que foi dito, pois estaria de acordo com o contexto do livro de Jeremias:

“No primeiro ano do seu reinado, eu, Daniel, compreendi pelos livros o número de anos a respeito dos quais viera a haver a palavra de Jeová para Jeremias, o profeta, para se cumprirem as devastações de Jerusalém, [e os] setenta anos [de Babilônia].” – Daniel 9:2.

Portanto, Daniel mencionou numa mesma declaração dois eventos distintos: “… até se cumprirem (1) as devastações de Jerusalém, e (2) os setenta anos de Babilônia.” Sendo que o primeiro acontecimento dependia do segundo.

O que ocorre é que Daniel 9:2 é um versículo da Bíblia que têm demandado certa margem de interpretação por parte dos tradutores. O que muitos deles têm feito são paráfrases do texto hebraico. Meras adaptações do versículo em apreço. Mesmo assim, ainda é possível notar o sentido correto em várias traduções diferentes. Por exemplo, observe o mesmo texto na seguinte versão:

“Eu, Daniel, entendi pelos livros o número de anos que Jeová falou ao profeta Jeremias, que [Jeová] iria realizar a desolação de Jerusalém em setenta anos.” – Daniel 9:1, 2, La Santa Biblia, de Casiodoro de Reina e Cipriano de Valera, colchetes acrescentados.

Durante os setenta anos dados a Babilônia muitas coisas aconteceram. Em setenta anos o reino assírio foi obliterado, os egípcios derrotados e os judeus punidos. Deus também realizou a “desolação de Jerusalém em setenta anos”, e pelo tempo em que ela esteve desolada a ‘terra descansou e cumpriu seus sábados’. Não foram necessários mais do que 70 anos para Deus realizar tudo o que pretendia.

Em princípio, o que determinaria o término da desolação de Jerusalém seria o fim dos setenta anos concedidos à Babilônia. Leia o mesmo trecho em outra versão:

“Eu consultei os livros sobre o número de anos que… deviam ser o termo da desolação de Jerusalém – setenta anos.” – Daniel 9:1, 2, Tanakh, da Sociedade Publicadora Judaica, Jerusalém.

A palavra “termo” não aparece no texto hebraico. Ela foi acrescentada pelo tradutor. No entanto, mesmo deixando-a nesse versículo é possível perceber o sentido correto dessa passagem. “Termo” pode ser entendido também por “término”, e não somente por “duração”. Diz o Dicionário Larousse Cultural: “Termo (ê) s. m. (lat. terminus). 1. Término. 2. Fim, limite… 3. Tempo fixado, prazo.” Deste modo, o que determinaria o término do abandono de Jerusalém seriam os setenta anos de Babilônia. Quando eles terminassem, o caminho estaria livre para Jerusalém voltar a ser habitada. Ficaria faltando apenas os judeus se arrependerem e implorarem que Deus os levasse de volta. Esta atituide de humildade foi outra condição imposta por Deus para que Jerusalém fosse repovoada. – Jeremias 29:12-14; Daniel 9:3-19; Deuteronômio 30:1-6.

De qualquer maneira, os tradutores de Daniel 9:2, da Bíblia judaica Tanakh, deviam saber a quem se aplicam os setenta anos, pois eles traduziram Jeremias 29:10 da seguinte forma:

“Quando os setenta anos de Babilônia terminarem, eu tomarei nota de vós, e cumprirei Minha promessa de favor – por trazer-vos de volta a este lugar.”

Isto apoia o entendimento aqui explicado, de Daniel 9:2.

Por fim, observe como o texto aparece em outra edição da Bíblia, e o que os seus editores entenderam:

“Assim, o país devia desfrutar seu descanso, porque descansou todo o tempo que estava em ruínas, até que passaram setenta anos.” – Daniel 9:1, 2, Versión Popular, da Sociedade Bíblica Americana.

Uma nota ao pé de página desta edição diz que os setenta anos mencionados em Daniel 9:2 se referem a Jeremias 29:10, que aparece nesta mesma Bíblia assim: … tão logo “se cumpram setenta anos à Babilônia, atuarei em vosso favor”.

E assim aconteceu. Tão logo os setenta anos concedidos à Babilônia terminaram, os arranjos de Deus para pôr fim à devastação de Jerusalém começaram a ser feitos.

O “descanso sabático” de Jerusalém

Segundo a Bíblia, Deus havia dito que os israelitas podiam cultivar suas terras por seis anos, mas no sétimo ano ela deveria descansar, sem nenhum cultivo (Deuteronômio 25:1-7). Ao que tudo indica, depois que Israel foi dividido em dois reinos independentes (o meridional e o setentrional) os judeus começaram a negligenciar essa determinação. Mas isto traria uma consequencia, conforme foi predito por Moisés:

“E naquele tempo saldará a terra os seus sábados, todos os dias em que jazer desolada, enquanto estiverdes na terra dos vossos inimigos. Naquele tempo a terra guardará o sábado, visto que tem de saldar os seus sábados. Guardará o sábado todos os dias em que jazer desolada, visto que não guardou o sábado nos vossos sábados quando moráveis nela.” – Levítico 26: 34,35; Deuteronômio 28:1-68.

Havia uma razão por trás dessa lei que exigia um “sábado” de descanso para a terra. Segundo a Sociedade Publicadora Judaica isto “servia para reduzir a quantidade de alcalinos, sódio e cálcio, depositados no solo pelas águas de irrigação.” (Comentário da JPS: Levítico, Baruch A. Levine, Jerusalém, 1989, p. 272). Ao violarem a lei do descanso sabático, eles estavam destruindo gradativamente o solo, reduzindo sua fertilidade.

Se Jerusalém foi destruída e abandonada em 587 a.C. e os judeus retornaram do exílio em 538 a.C., o descanso sabático durou então 49 anos (achar que o retorno se deu em 537 é mera especulação). Interessante que, segundo o livro bíblico de Levítico 25:8-28, o período máximo que um judeu podia ser privado de sua terra, recebida em herança, era também de 49 anos. Assim, quem estivesse em dificuldades financeiras e precisasse vender suas terras, poderia obtê-las de volta ao término de 49 anos. Isso era chamado de jubileu. Em 539 a.C o rei persa conquistou Babilônia e emitiu um decreto libertando os cativos. Com o fim do exílio, em 538 a.C. Jerusalém viu a chegada de seu jubileu. Foi assim que os judeus tiveram a sua terra de volta.

Se os 49 anos de descanso forçado da cidade (durante a desolação) correspondem exatamente ao número de sábados que a terra não havia descansado por negligência dos judeus, então o tempo total de violação da lei foi precisamente de 343 anos (49 x 7).

Para entender melhor. Se em 14 anos, por exemplo, dois anos não fossem reservados para descanso da terra, o povo de Judá ficaria devendo 2 anos para Deus. Se em mais 14 anos, 2 anos não fossem deixados para descanso da terra, a dívida aumentaria para 4 anos, e assim por diante. Se Jerusalém foi destruída em 587 a.C. e os judeus retornaram em 538 (quando Ciro emitiu seu decreto), significa então que a terra ficou desolada por 49 anos. Neste caso, fazendo-se uma regra de três simples, obtém-se que foram 343 “sábados” que a terra não descansou, ou seja, 343 anos:

Visualizando de outra maneira:

Se a negligência dos judeus em não guardar o “sábado” da terra durou até 587 a.C. (ano da destruição de Jerusalém), então significa que essa desobediência começou no ano 930 a.C., pois 587 + 343 = 930.

Será que existe alguma evidência histórica que corrobora a dedução acima? Existe algum evento importante que aconteceu em 930 a.C.? Carl Olof Jonsson responde:

“É interessante que cronologistas modernos que examinaram cuidadosamente tanto a evidência bíblica como a extrabíblica, geralmente datam a divisão do reino em 930 A.E.C. ou próximo disso. (F.X. Kugler, por exemplo, data em 930; E., R. Thiele e K.A. Kitchen datam em 931/30, e W. H. Barnes em 932 A.E.C.) Uma vez que este desastre nacional resultou em uma interrupção geral do culto no templo em Jerusalém por parte da maioria do povo, é razoável pensar que uma ampla negligência em guardar os anos sabáticos tenha também começado nessa época.” – Tempos dos Gentios Reconsiderados, 2ª edição em português, p. 37.

Cilindro com o decreto de Ciro

Logo, ao invés de 70 anos, as “devastações de Jerusalém” duraram 49 anos. Daniel não contradisse este fato. Ele apenas mencionou simultaneamente “as desolações de Jerusalém” e os “setenta anos” de Babilônia em uma mesma declaração. É assim que Daniel 9:2 deve ser entendido. É o caso também dos seguintes versículos do Segundo Livro das Crônicas:

“Além disso, ele levou cativos a Babilônia os que foram deixados pela espada, e eles vieram a ser servos dele e dos seus filhos até o começo do reinado da realeza da Pérsia; para cumprir a palavra de Jeová pela boca de Jeremias, até que a terra tivesse saldado os seus sábados. Todos os dias em que jazia desolada, guardava o sábado, para cumprir setenta anos.” – 2 Crônicas 36:20-21.

Quando o escritor bíblico disse “para cumprir setenta anos” ele quis dizer “até se completarem os setenta anos” de Babilônia. Depois que isto acontecesse é que o descanso da terra poderia ter fim.

Sentido semelhante contém Zacarias 1:12, que diz:

“Ó Jeová dos exércitos, até quando não terás misericórdia com Jerusalém e com as cidades de Judá, que verberaste por estes setenta anos [concedidos à Babilônia]?” – Colchetes acrescentados.

Portanto, Daniel, 2 Crônicas e Zacarias fazem referência à duas profecias diferentes, porém, combinadas.

“No primeiro ano do seu reinado, eu, Daniel, compreendi pelos livros o número de anos a respeito dos quais viera a haver a palavra de Jeová para Jeremias, o profeta, para se cumprirem as devastações de Jerusalém, [e os] setenta anos [de Babilônia].” – Daniel 9:2, Tradução do Novo Mundo, colchetes acrescentados.

“Para que se cumprisse a palavra do SENHOR, pela boca de Jeremias, até que a terra se agradasse dos seus sábados; todos os dias da assolação repousou, até que os setenta anos [de Babilônia] se cumpriram.” – 2 Crônicas 36:21, Almeida, Edição Corrigida e Fiel, colchetes acrescentados.

“Quanto tempo passará até que tu tenhas alguma ternura por Jerusalém e as cidades de Judá, às quais tu tens sido hostil nestes setenta anos [que foram concedidos à Babilônia]?” – Zacarias 1:12, Steven T. Byíngton, colchetes acrescentados.

Jerusalém guardou os “sábados” durante o tempo em que esteve desolada


Nota

[1] Foi visto na análise da primeira parte da série da Sentinela que o hebraico original de Jeremias 29:10 realmente diz “setenta anos para Babilônia”. O profeta Daniel era judeu e sabia ler o hebraico perfeitamente. Com certeza, foi assim que ele entendeu Jeremias. Então, ele não poderia ter se confundido. Além disso, o desenrolar dos acontecimentos mostrou que Babilônia dominou o cenário mundial por exatos 70 anos. Daniel sabia disso e foi testemunha ocular da queda de Babilônia, em 539 a.C. Então, ao ver a profecia no livro de Jeremias, Daniel se deu conta de que a desolação de Jerusalém também estava prestes a terminar, pois os setenta anos já tinham terminado. Parafraseando o que ele disse, o pensamento dele não poderia ser outro senão o seguinte: “Consultei Jeremias e percebi que o fim dos 70 anos de Babilônia indica que a desolação de Jerusalém também deve terminar.”

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