5. Comentando as evidências arqueológicas
A Torre de Vigia disse nesse artigo o seguinte:
“A maioria dos historiadores seculares acreditam que Jerusalém foi destruída em 587 AEC.” (p. 27).
Isto significa, portanto, que há uma minoria que não acredita, pessoas que poderiam até crer na data 607 a.C. Será mesmo? Por que então a Sentinela não citou nenhum desses historiadores que fazem parte dessa minoria?
A resposta é simples. Eles realmente não existem! A Torre de Vigia não perderia a oportunidade de citar um historiador imparcial que favorecesse a data 607. Todos os historiadores dizem que Jerusalém foi destruída em 587, ou 586. Somente aqueles historiadores que fossem “Testemunhas de Jeová” discordariam disso, abrindo mão da seriedade de uma ciência a favor do dogmatismo de uma religião. E se houver algum historiador tão sui generis assim a Torre de Vigia dificilmente o mencionaria, pois rapidamente as pessoas descobririam tratar-se de uma “Testemunha de Jeová” querendo defender sua religião. Deve ser por isso que ela ainda não citou Rolf Furuli, embora esteja fazendo uso de sua obra.
Mas a Torre de Vigia conta com algo a seu favor. A maioria das “Testemunhas de Jeová” não se interessa por esse assunto, mesmo quando publicado pela religião delas. Dizem que não o entendem, e acham esse negócio de cronologia bíblica muito chato. Por isso que algumas “evidências” apresentadas na Sentinela a favor de 607 não serão discutidas aqui, pois senão ficaria uma análise muito extensa, o que diminuiria ainda mais as chances de uma “Testemunha de Jeová” ler a presente análise. Entretanto, para as “Testemunhas” que querem deixar o “leite” e passar para o “alimento sólido” sempre haverá boas opções de pesquisa.
O site Mentes Bereanas, por exemplo, de uma testemunha de Jeová dissidente, é repleto de informações assim, ainda que ele mantenha alguns ensinos errôneos da Torre de Vigia. Mesmo assim ainda é uma ótima opção para os seguidores da Torre de Vigia se esclarecerem sobre o assunto da “cronologia bíblica”. O problema é que seus líderes nos Estados Unidos não querem que seus seguidores pesquisem sites de outros pesquisadores cristãos, e os que desobedecem correm o risco de serem afastados compulsoriamente da religião, se forem descobertos e não “se arrependerem”.
As evidências arqueológicas
A tabuinha cuneiforme VAT 4956 menciona o 37º ano de Nabucodonosor. Sobre essa tabuleta, a Torre de Vigia diz na Sentinela:
“Veja o exemplo de uma tabuinha conhecida como VAT 4956. A primeira linha dessa tabuinha diz: ‘Ano 37 de Nabucodonosor, rei de Babilônia.’ Em seguida, ela faz uma descrição detalhada da posição da Lua e de planetas em relação a diferentes estrelas e constelações. Também inclui um eclipse lunar. Os eruditos dizem que todas essas posições ocorreram em 568/567, o que faria com que o 18º ano de Nabucodonor II, quando ele destruiu Jerusalém, fosse 587 AEC. Mas será que essas referências astronômicas apontam irrefutavelmente apenas para o ano de 568/567 AEC?” – A Sentinela, 01/11/2011, p.25, negrito acrescentado.
Respondendo sem rodeios a pergunta feita, a resposta é sim!
Se considerarmos que o eclipse mencionado aconteceu em 568/567 AEC, realmente o ano 587 será o 18º ano de Nabucodonosor. Basta fazer o cálculo retroativamente, como mostra o desenho abaixo. O conjunto de todas as evidências permite isso. Se não fosse assim, não haveria unanimidade entre os especialistas no que diz respeito a essa data.

Qualquer pessoa pode constatar por si mesma se o que os eruditos afirmam sobre 587 é verdade ou não, usando modernos programas de computador que simulam eventos astronômicos de épocas passadas. Isto é mencionado pelo artigo da Sentinela, na página 25. E sobre o que se pode constatar nesses softwares, a nota 18 diz:
“Visto que a Lua pode facilmente ser rastreada, as posições dos outros corpos celestes mencionados na VAT 4956 e relacionados à Lua podem ser identificados, e suas posições datadas com boa medida de certeza.”
Observação: Carl Olof Jonsson recomenda que para simular os eclipses o programa mais indicado é o SkyMap Pro 11.04, de Chris Marriott, que usa o método lunar ELP2000-82B. Neste softawre, o valor delta-T utilizado para simular o movimento de aceleração da lua é de 1,7 millissegundos por século, o que proporciona maior precisão. Tal sistemática é resultado das extensas pesquisas feitas por F. Richard Stephenson na obra “Eclipses Históricos e a Rotação da Terra” (Cambridge, 1997).
Mesmo com toda evidência a favor de 567 a.C. para o 37º ano de Nabucodonosor mencionado na VAT 4956, a Torre de Vigia tenta mostrar que há outra possibilidade. Ela diz:
“A tabuinha menciona um eclipse lunar que, segundo os cálculos, ocorreu no dia 15º do terceiro mês babilônico, simanu. Realmente ocorreu um eclipse lunar nesse mês em 568 AEC – 4 de julho no calendário Juliano. No entanto, também houve um eclipse 20 anos antes, em 15 de julho de 588 AEC.” – A Sentinela, 01/11/2011, p.25.
Este argumento foi utilizado por Rolf Furuli na contracapa do volume 2 de seu livro Cronologia Assíria, Babilônica e Persa, Comparada com a Cronologia da Bíblia (Oslo, Noruega: Awatu Publishers, 2007). Mas a bibliografia apresentada na Sentinela (nota 17) em nenhum momento cita Rolf Furuli. Conforme mencionado na introdução desta análise, Rolf Furuli é uma “Testemunha de Jeová” norueguesa que muito provavelmente decidiu ser um “especialista” em história neobabilônica apenas com o intuito de defender data 607 para a destruição de Jerusalém. Ele já publicou dois livros sobre esse tema, além de outro livro sobre verbos hebraicos. Ele chama a “sua” cronologia do ano 607 a.C. de “Cronologia de Oslo”.
Em resumo, o quadro é o seguinte:
1) Se o eclipse da VAT 4956 for o eclipse que ocorreu em 568 AEC:
568 AEC é o 37º ano de Nabucodonosor e a destruição de Jerusalém aconteceu em 587 AEC (data apresentada pelos historiadores).
2) Se o eclipse da VAT 4956 for o eclipse que ocorreu em 588 AEC:
588 AEC é o 37º ano de Nabucodonosor e a destruição de Jerusalém aconteceu em 607 AEC (data desejada pelas “Testemunhas de Jeová”).
A Torre de Vigia ainda afirma:
“A VAT 4956 aponta com mais certeza para 607 AEC…. [De acordo com programas de computador que simulam eventos astronômicos,] ao passo que nem todos esses grupos de posições lunares são compatíveis com o ano 568/567 AEC, os 13 grupos são compatíveis com posições calculadas para 20 anos antes, ou seja, para o ano 588/587 AEC.” – A Sentinela, 01/11/2011, pp. 25, 27, colchetes acrescentados.
É surpreendente ver uma declaração assim tão segura sobre um assunto com pouca margem para reinterpretação. Mas o fato é que a afirmação acima está errada, conforme demonstrado em parte logo abaixo. Será que esse escritor da Torre de Vigia nem sequer testou em um software de astronomia essas alegações de Furuli? Ou ele sabe que está errado, porém confia que as “Testemunhas de Jeová” nunca irão conferir o que ele disse? De qualquer modo, o que ele talvez não saiba é que Furuli cometeu diversos erros que tornaram suas datas completamente inviáveis.
Conforme disse o escritor sueco Carl Olof Jonsson, em sua refutação a Furuli, “quase nenhuma das posições lunares registradas na VAT 4956 se ajusta ao ano 588/587, ao passo que quase todas elas se ajustam de maneira excelente a posições lunares no ano 568/567 AEC.” Isto pode ser confirmado no programa Starry Night. As simulações feitas neste software são mostradas na próxima parte desta análise.
Por conseguinte, torna-se claro que a VAT 4956 não apoia o ano 607 AEC. Assim sendo, o que foi afirmado na Sentinela está completamente errado! Na realidade, é exatamente o contrário do que ela informa. A VAT 4956 aponta com mais certeza para 587 AEC.
Será mesmo que quem escreveu esses artigos da Sentinela realmente simulou os eventos astronômicos descritos na tabuinha? Caso tenha feito isso, é impossível ele ter encontrado outro resultado senão o que está apresentado na seção seguinte desta análise. Neste caso, a matéria que escreveu seria um caso flagrante de desonestidade. Pode ser também que ele tenha apenas confiado naquilo que foi dito por Rolf Furuli, sem fazer a devida verificação. Seja lá o que aconteceu, de uma forma ou de outra os artigos carecem de credibilidade e não podem ser usados como referência por nenhum pesquisador sério.
A despeito de todas as evidências astronômicas, a Torre de Vigia seguiu o raciocínio de Furuli dizendo que aquele eclipse mencionado pela VAT 4956 não é o eclipse lunar que ocorreu em 568 AEC, mas sim o que ocorreu em 15 de julho de 588 AEC, o que faria 607 AEC ser o 18º ano de Nabucodonosor (ano da destruição de Jerusalém), e não o ano 587 AEC. Não se esqueça! Jerusalém foi destruída no 18º ano de Nabucodonosor.
Mas o que o escritor da Sentinela não mencionou (se é que ele sabe disso) é que o eclipse de 15 de julho de 588 AEC está também registrado em outra tábua cuneiforme, a BM 38462, também conhecida por LBAT 1420. Ela foi publicada no livro Diários Astronômicos e Textos Relacionados, de H. Hunger, vol. V (Viena, 2001). E o que essa tabuinha diz a respeito? A BM 38462 informa que esse eclipse ocorreu no ano 17 de Nabucodonosor, e não no ano 37. Ou seja, o ano seguinte (587 AEC) foi o 18º ano de Nabucodonosor, data em que Jerusalém foi destruída. De maneira complementar, a BM 38462 confirma indiretamente o resultado obtido das simulações feitas para as observações mencionadas na tabuinha VAT 4956.

BM 38462 © British Museum
Qual foi a saída que Rolf Furuli tentou encontrar para esse problema gerado pela BM 38462?
“Furuli tenta se esquivar do peso enorme da evidência fornecida por esta tabuinha em apenas umas poucas afirmações bem confusas na página 127 do livro dele. Ele alega erroneamente que os muitos eclipses registrados ‘ocorreram no mês anterior ao que eles eram esperados, exceto num caso em que o eclipse pode ter ocorrido dois meses antes.’ Não há a menor parcela de verdade nesta declaração. Tanto os eclipses previstos como os observados estão de acordo com os cálculos modernos. Esta declaração se baseia em erros grosseiros que ele comete na página anterior de seu livro, onde ele identifica de maneira errada os meses da LBAT 1421, com resultados desastrosos para os seus cálculos.” – Análise Crítica do Segundo Livro de Rolf Furuli sobre Cronologia, de Carl Olof Jonsson, Gotemburgo, Suécia, 2007, p. 7.
Há outras informações da BM 38462 que confirmam ainda mais o 17º ano de Nabucodonosor em 588 AEC. Mas elas não serão comentadas aqui. O que foi mostrado já é suficiente para constatar a fragilidade dessas explicações publicadas na Sentinela.
