3. A base que existe para o ano 587 a.C.
Um evento historicamente estabelecido
Babilônia só se tornou potência dominante quando derrotou a Assíria (a potência dominante anterior). O que já era esperado, pois com a queda de Nínive, em 612 a.C., a Assíria entrou em declínio. Chegou ao colapso total em 609 a.C., quando o pai de Nabucodonosor derrotou Assurbalit, o último rei da Assíria. Portanto, foi em 609 a.C. que a Assíria deixou definitivamente o cenário mundial e cedeu lugar a Babilônia.
“Fim da Assíria. – …. Então, depois da queda de Nínive em 612, a queda de Haran em 610 e a tentativa de reconquistá-la mais tarde em 609, a Assíria deixou de existir.” – Encyclopedia Britannica, Chicago, 1964, pp. 966, 967.
“Os assírios foram definitivamente derrotadas [por Babilônia] em 609 a.C. e a Assíria desapareceu da história.” – Dicionário Bíblico, de John L. Mackenzie, 2001, Ed. Paulus, p. 90, colchetes acrescentados.
“Segundo a cronologia secular, os babilônios dominaram o território das antigas Judá e Jerusalém por uns 70 anos, de cerca de 609 AEC a 539 AEC, quando a capital de Babilônia foi capturada.” – A Sentinela, 01/10/2011, p. 27.
Depois veja no apêndice outras fontes que citam o fim da Assíria em 609 a.C.
Parece que o escritor desse artigo da Sentinela não queria perder a oportunidade de lançar o mínimo de dúvida que fosse na informação que mencionou. Ele disse que “de cerca de” 609 até 539 AEC os babilônios dominaram o “território das antigas Judá e Jerusalém”. E que essa estimativa é apresentada pela “cronologia secular”. Ou seja, não é obtida da “cronologia bíblica”. Nessa proposital combinação de palavras ele tenta desvirtuar o que acabou de citar…
É claro que a expressão “cerca de” não cabe nesse caso, pois foi precisamente em 609 AEC que o último rei da Assíria foi derrotado, e Babilônia se tornou a nação hegemônica. Babilônia também não dominaria somente os territórios da antiga Judá. Dominaria “as nações” e qualquer “reino” que quisesse, no decorrer dos 70 anos1[1] (Jeremias 25:11, 27:8). Além disso, é na cronologia apresentada pelos historiadores (“cronologia secular”) que podemos saber as datas envolvidas nesse episódio. Em sentido absoluto, não existe “cronologia bíblica”, pois a Bíblia não informa nenhuma data. Ela diz apenas que Jerusalém foi destruída no 18º ano de Nabucodonosor. Nada mais. É uma cronologia relativa. Sem as fontes arqueológicas não há como saber em que data foi o 18º ano de Nabucodonosor.
Pois bem, apenas para enfatizar, se a hegemonia de Babilônia começou em 609 a.C. e terminou em 539 a.C., quantos anos foram, no total?
Setenta anos, conforme foi predito:
“Estas nações terão de servir ao rei de Babilônia por setenta anos.” – Jeremias 25:11.
“Quando se completarem os setenta anos, castigarei o rei de Babilônia e a sua nação”, diz Jeová. – Jeremias 25:12, NVI.
“Somente quando os setenta anos concedidos ao rei de Babilônia acabarem, é que eu vos visitarei e cumprirei minha promessa em vosso favor por trazer-vos de volta a este lugar.” – Jeremias 29:10, JB.

Depois de 70 anos de supremacia, após uma única noite Babilônia amanheceu sob o domínio dos persas
Qual é a base para 587 a.C.?
A mesma cronologia estabelecida que mostra que Babilônia dominou por 70 anos, ao invés de 90 anos, como quer a Torre de Vigia, também indica que Jerusalém foi destruída em 587 a.C.. Sobre o estabelecimento desta data, a Sentinela diz o seguinte:
“Por que muitas autoridades defendem 587 AEC? Elas se baseiam em duas fontes – os escritos de historiadores clássicos e o Cânon de Ptolomeu. Será que essas fontes são mais confiáveis do que as Escrituras?” – A Sentinela, 01/10/2011, p. 29.
A afirmação acima da Sentinela é totalmente capciosa. Considere o seguinte:
1) Não são “muitas” autoridades que defendem 587 (ou 586). São todas! Se houvesse ao menos uma autoridade que não apoia esse ano será que a Torre de Vigia perderia a oportunidade de mencioná-la? Dificilmente.
2)Não existe nenhuma data na Bíblia. O que ela diz é que Jerusalém foi destruída no 18º ano do reinado de Nabucodonosor. Sem as fontes arqueológicas não é possível saber que data foi essa. Portanto, a descrição “cronologia bíblica” tem sido usada pela Torre de Vigia meramente como espantalho para que as “Testemunhas de Jeová” não se aproximem da verdade e descubram que negar 607 não significa negar a Bíblia. Perceba que a situação é colocada especificamente em tal perspectiva, pois eles dizem: “Será que essas fontes são mais confiáveis do que as Escrituras?”. (Pergunte a qualquer “Testemunha de Jeová”, onde a Bíblia, e somente a Bíblia, diz que Jerusalém foi destruída em 607 a.C.; verá que ela não será capaz de apontar o lugar, pois ele simplesmente não existe).
3) Por fim, embora a data 587 possa ser obtida dos historiadores clássicos e do Cânon de Ptolomeu, nem de longe essas são as principais fontes usadas pelas “muitas autoridades”. Veja de quantos lugares adicionais se obtém essa informação, conforme indica a obra de Carl Olof Jonsson:
– Crônica de Nabonido
– Crônica de Aquito
– Outras crônicas do período
– Estela de Hilá
– Estela de Adda-Gupp
– Lista de Reis de Uruque
– Lista real de Beroso
– Cânon de Ptolomeu
– Historiadores clássicos
– Documentos comerciais e administrativos
– Evidências prosopográficas da empreendimento comercial “Filhos de Egibi”
– Diários Astronômicos: VAT 4956, BM 32312, BM 38462[2] etc.
– Textos Saros (tabuinhas sobre eclipses lunares)
– Sincronismo com a cronologia egípcia independente e contemporânea ao período neobabilônico.
Por que o escritor da Torre de Vigia mencionou apenas duas fontes e “se esqueceu” das demais? Essa omissão deve ser fruto de preconceitos previamente cristalizados. A afirmação de que as “muitas autoridades” se baseiam tão somente no Cânon de Ptolomeu e nos historiadores clássicos para determinarem o ano 587 contradiz internamente até mesmo a série da Sentinela, pois outras fontes foram mencionadas nela. Por exemplo, é dito que o diário astronômico VAT 4956 é usado para marcar o 37º ano do reinado de Nabucodonosor. Este diário faz parte do acervo do Museu do Oriente Médio de Berlim (Vorderasiatisches Museum). Como será visto na seção seguinte, querer que essa tabuinha situe a destruição de Jerusalém em uma data que não seja o ano 587 a.C. é um convite à total frustração. É realmente impossível obter tal informação desse diário astronômico. Por esta razão, a declaração abaixo é uma das mais surpreendentes publicadas na série da Sentinela:
“Por causa da confiabilidade superior das posições lunares, os pesquisadores examinaram cuidadosamente os 13 grupos de posições lunares na VAT 4956. Eles analisaram os dados com a ajuda de um programa de computador capaz de mostrar a localização de corpos celestes em determinada data no passado. O que essa análise revelou? Ao passo que nem todos esses grupos de posições lunares são compatíveis com o ano 568/567 AEC, os 13 grupos são compatíveis com posições calculadas para 20 anos antes, ou seja, para o ano 588/587 AEC.” – A Sentinela, 01/11/2011, p. 25.
A revista não mencionou quem são os tais “pesquisadores” que chegaram a essa incrível conclusão. Esta é uma ótima pergunta para ser feita à Torre de Vigia…
Para que a Torre de Vigia e Rolf Furuli estivessem certos seria necessário ter havido um grande empreendimento no passado, envolvendo vários escribas de diversas épocas, que tenha falsificado as tabuinhas cuneiformes para desacreditar o ano 607, e apoiar o 587. Os supostos erros que eles mencionam cometidos por escribas babilônicos em algumas tabuinhas cuneiformes não é suficiente para explicar a vasta ausência de provas para 607 a.C. Só mesmo uma “teoria da conspiração” explicaria isso.
Portanto, as fontes que apoiam a cronologia historicamente estabelecida são muitas, não contradizem a Bíblia e todas as autoridades são unânimes em fixar o ano 587 a.C. (ou 586 a.C.) para a destruição de Jerusalém pelos babilônios.

Crônica de Nabonido, uma das fontes arqueológicas que apontam para 587 a.C.
Notas
[1] Logicamente, nem toda nação se sujeitou à Babilônia durante exatos 70 anos. Mas em qualquer momento durante esses 70 anos Babilônia poderia exigir de qualquer reino algum tipo de tributo ou sujeição. Em 609 AEC, o rei de Babilônia não saiu fazendo essa exigência a todos os reinos. No entanto, foi nesse ano que Babilônia iniciou “oficialmente” sua hegemonia e saiu conquistando os povos, especialmente no reinado de Nabucodonosor.
[2] Na verdade, esta tabuinha serve apenas para mostrar que 607 a.C. não pode ser a data correta
