2. Os setenta anos de Babilônia
Setenta anos para quem?
Baseando-se nas informações dos historiadores, depois que Jerusalém foi destruída, o exílio dos judeus em Babilônia durou cerca de 50 anos. Então, o que são os 70 anos do livro bíblico de Jeremias?
Por entenderem erroneamente 2 Crônicas 36:20-21, Daniel 9:1, 2 e Zacarias 1:12 (comentados mais adiante), muitos pensam que os 70 anos se referem ao exílio dos judeus em Babilônia. Não somente a Torre de Vigia aderiu a esse entendimento. Há outros religiosos que já pensaram o mesmo. No entanto, o conhecimento bíblico mais refinado de hoje já mostrou que o exílio durou mesmo aproximadamente cinquenta anos, a contar da destruição de Jerusalém, e que os setenta anos de Jeremias se cumprem em Babilônia, e não em judeus exilados. Mas não é necessário vasculhar as evidências arqueológicas para descobrir essa informação. A própria Bíblia responde a quem se aplicam os 70 anos:
“Estas nações terão de servirao rei de Babilônia por setenta anos.” – Jeremias 25:11.
“Somente quando os setenta anos concedidos ao rei de Babilônia acabarem, é que eu vos visitarei e cumprirei minha promessa em vosso favor por trazer-vos de volta a este lugar.” – Jeremias 29:10, Jerusalem Bible.
“Quando se completarem os setenta anos, castigarei o rei de Babilônia e a sua nação”, diz O SENHOR. – Jeremias 25:12, Nova Versão Internacional.
Não obstante a clareza das afirmações acima, a Torre de Vigia diz o seguinte na página 27:
“A Bíblia, porém, mostra que os 70 anos seriam um período de punição severa da parte de Deus – dirigida especificamente ao povo de Judá e Jerusalém.” – Negrito acrescentado.
Ao ver os três versículos bíblicos supracitados, você acha que esse período é dirigido especificamente a quem?
Sim, o foco dos 70 anos é a supremacia de Babilônia, e não o exílio dos judeus, embora ele esteja também dentro da profecia, porque Babilônia foi usada como instrumento de punição da parte de Deus.
Diz ainda a Sentinela, na mesma página:
“Quando [os judeus] se recusaram a mudar seu proceder errado, Deus disse: ‘Enviarei… Nabucodonosor, rei de Babilônia,… contra esta terra, e contra os seus habitantes.” – Colchetes acrescentados.
E qual foi o proceder errado que, finalmente, levou à destruição de Jerusalém? Foi justamente não se sujeitarem à Babilônia! Judá e outras nações deveriam servir ao rei de Babilônia por 70 anos, conforme Deus havia decretado:
“‘A nação e o reino que não o servirem, sim, a Nabucodonosor, rei de Babilônia, e aquela que não puser seu pescoço sob o jugo do rei de Babilônia, para tal nação voltarei a minha atenção com a espada, e com a fome, e com a pestilência’, é a pronunciação de Jeová, ‘até que eu tenha dado cabo deles pela sua mão’”. – Jeremias 27:8.
Por não obedecerem ao referido decreto, Jerusalém foi destruída e os judeus levados ao exílio. Note que, de fato, Deus havia condicionado a sobrevivência deles à sujeição ao rei de Babilônia:
“Até mesmo a Zedequias, o rei de Judá, falei segundo todas estas palavras, dizendo: ‘Trazei vosso pescoço sob o jugo do rei de Babilônia e servi a ele e ao seu povo, e continuai vivendo. Por que devias tu mesmo e o teu povo morrer pela espada…?… E não escuteis as palavras dos profetas que vos dizem: ‘Não servireis o rei de Babilônia’, porque é falsidade o que vos profetizam.’” – Jeremias 27:12-14.
Portanto, os 70 anos não estavam condicionados à destruição de Jerusalém e ao exílio em massa dos judeus em Babilônia. Estes dois eventos foram uma consequencia, e não a causa. Aconteceram simplesmente porque os judeus procederam errado ao não obedecerem o decreto de Deus: de servirem ao rei de Babilônia até que os 70 anos terminassem.
Tão logo os 70 anos concedidos à Babilônia findassem, o rei de Babilônia de então também seria punido. Quando isso aconteceu? Precisamente em 539 a.C., quando Babilônia foi invadida pelo exército persa, sob o comando do general Ciro:
“[Deus] se refreou de agir até o seu devido tempo…. em 539 AEC, secou e devastou Babilônia e suas defesas.” – Profecias de Isaías, Vol. II, p. 43, § 23, publicado pela Torre de Vigia, negrito e colchetes acrescentados.
Sim, claramente os 70 anos de Jeremias 25:11 terminam em 539 a.C., pois foi nessa data que o rei de Babilônia foi punido. Tudo ocorreu no seu devido tempo. Ou seja, aconteceu exatamente o que disse a profecia, de que Deus puniria o monarca babilônio somente ‘quando os setenta anos terminassem’.
Agora note a seguinte inconsistência. Se for considerado que os 70 anos terminam em 537 a.C., conforme a Torre de Vigia afirma, isto significaria que o rei de Babilônia foi punido 2 anos antes do previsto, no 68º ano desses 70 anos! Esta contradição nunca foi explicada pela Torre de Vigia. Observe o desenho abaixo:

(note que a punição ocorre antes do fim dos 70 anos)
Não há necessidade de fazer conjecturas. A profecia cumpriu-se de forma exata. Babilônia só foi punida depois que os 70 anos acabaram, e não antes. Mas para perceber isso é necessário aceitar que os 70 anos se referem à supremacia de Babilônia sobre as nações, e não ao exílio dos judeus na Caldéia. Neste caso, não haverá contradição:

(note que a punição ocorre depois do fim dos 70 anos)
Tudo aconteceu no devido tempo marcado por Deus:
“Estas nações terão de servir ao rei de Babilônia por setenta anos.” – Jeremias 25:11.
“Quando se completarem os setenta anos, castigarei o rei de Babilônia e a sua nação”, diz O SENHOR. – Jeremias 25:12, NVI.
“Somente quando os setenta anos concedidos ao rei de Babilônia acabarem, é que eu vos visitarei.” – Jeremias 29:10, JB.

“Estas nações terão de servir ao rei de Babilônia por setenta anos”
De acordo com muitas edições da Bíblia, a tradução correta de Jeremias 29:10 é a seguinte:
“Quando se completarem para a Babilônia setenta anos, visitar-vos-ei e realizarei a promessa de vos fazer retornar a este lugar.” – Bíblia Vozes.
Ou ainda:
“Quando os setenta anos de Babilônia terminarem, eu tomarei nota de vós, e cumprirei Minha promessa de favor – por trazer-vos de volta a este lugar.” – Bíblia Tanakh.
No entanto, algumas traduções dizem deste modo:
“De acordo com o cumprimento de setenta anos em Babilônia, voltarei minha atenção para vós, e vou confirmar para convosco a minha boa palavra por trazer-vos de volta a este lugar.” – Tradução do Novo Mundo, Bíblia oficial das “Testemunhas de Jeová”.
Sendo assim, qual é a tradução correta? É “para Babilônia” ou “em Babilônia”?
O significado literal da palavra hebraica original (“Le”) realmente é “para”, entretanto, em algumas situações é possível traduzi-la por “em”, se o contexto permitir. Pelo que foi visto até agora, você acha que o contexto favoresse “para” ou “em”? Parece bem evidente que “para” é a melhor tradução. E, por ser o sentido literal do termo hebraico, a Tradução do Novo Mundo deveria traduzi-lo “para” ao invés de “em”, pois seus tradutores já disseram em mais de uma ocasião que o objetivo de sua tradução é procurar sempre ser literal, na medida do possível. – Toda a Escritura é Inspirada por Deus e Proveitosa (1990), p. 329, § 9, publicado pela Torre de Vigia.
Há um fato interessante que é de conhecimento de poucas “Testemunhas de Jeová”. Existem edições da própria Tradução do Novo Mundo que traduzem “para Babilônia” no lugar de “em Babilônia”. É o caso das edições em dinamarquês e sueco (coincidência ou não, foi justamente na Suécia onde surgiu a primeira grande contestação erudita contra a data 607 a.C.).

(Jeremias 29:10 na Tradução do Novo Mundo em sueco)
Na verdade, além das versões em sueco e dinamarquês da Tradução do Novo Mundo, existem outras Bíblias publicadas pela Torre de Vigia que também traduzem Jeremias 29:10 com o sentido correto (“para Babilônia”). Veja quais são elas no apêndice A, ao final desta análise.
De qualquer maneira, sabendo-se o contexto e o foco da profecia, mesmo que Jeremias 29:10 fosse traduzido “em Babilônia” ao invés de “para Babilônia”, ainda assim seria possível entender o texto corretamente. A profecia se cumpre em quem? EmBabilônia ou emexilados judaicos? Em Babilônia, claro.
“De acordo com o cumprimento [da profecia] de setenta anos em Babilônia, voltarei minha atenção para vós, e vou confirmar para convosco a minha boa palavra por trazer-vos de volta a este lugar.” – Tradução do Novo Mundo, negrito e colchetes acrescentados.
Somente se o versículo se referisse indubitavelmente ao exílio é que não daria para dizer que a passagem se refere à Babilônia. Bastaria haver algo assim: “Depois do vosso castigo de passar setenta anos em Babilônia, é que voltarei minha atenção para vós.” Mas, ao invés disso, é dito “de acordo com o cumprimento de setenta anos em Babilônia”.
Para saber mais detalhes sobre os 70 anos de Babilônia e a tradução correta de Jeremias 29:10, baixe o capítulo 5 do livro Tempos dos Gentios Reconsiderados, do escritor sueco Carl Olof Jonsson, disponível neste link (429 Kb, pdf).
Observação 2:
Há quem pense que, mesmo aceitando-se o ano 587 a.C. para a destruição de Jerusalém, é possível aplicar os 70 anos ao exílio dos judeus. Isto porque, segundo a crônica babilônica BM 21946, quando Nabucodonosor assumiu o trono em 605 a.C. ele levou algumas pessoas do território de “Hatu” para Babilônia, junto com um grande despojo (uma espécie de tributo ao novo rei). Hatu é o nome dado à uma região que abrangia diversas nações, inclusive Judá. Portanto, judeus foram levados para Babilônia já em 605, de modo que, em certo sentido, o exílio dos judeus teria começado em 605, e não em 587, quando eles foram transferidos em grande quantidade para Babilônia, depois que Jerusalém foi queimada. Aceitando-se que eles retornaram do exílio em 537 a.C., percebe-se que são quase 70 anos (68 anos). Então, os 70 anos de Jeremias deveriam ser entendidos como um número aproximado, e não rigorosamente exato. – Crônicas dos Reis Caldeus, de D. J. Wiseman, ed. Curadores do Museu Britânico, 1961, pp. 66-75, Reallexikon der Assyriologie, vol. 4, pp. 154-156, editado por D.O. Edzard, com estudos do Dr. J. D. Hawkins.
Esta aplicação pode não ser a correta, mas pelo menos não contradiz o ano 587 a.C., o que a torna melhor que o entendimento da Torre de Vigia, que também tem um erro de dois anos (reveja o primeiro desenho desta seção). Mas, se esse conceito dos “70 anos aproximados” fosse aceito, obviamente surgiriam alguns problemas. Por exemplo, seria necessário encontrar uma explicação para não contradizer Jeremias 25:12, que diz que o rei de Babilônia só seria punido depois que terminassem os setenta anos. Uma saída talvez fosse imaginar que houve dois períodos independentes de setenta anos que correram em paralelo, de maneira quase coincidente: Os 70 anos exatos* da hegemonia babilônica (609-539 a.C.) e os 70 anos aproximados do exílio mais abrangente dos judeus (605-537 a.C.). E note que ainda existe na Bíblia outro período de 70 anos, mencionado em Isaías 23:15-18, que alguns eruditos dizem ser os 70 anos durante os quais a Assíria controlava Tiro (c. 700-630 a.C.). – O Jugo de Babilônia (=Coniectanea Biblica. Coleção do Velho Testamento 4), de Seth Erlandsson (Lund, Suécia: CWK Gleerup, 1970), pp. 97-102.
* Não seria razoável achar que Deus faria questão que sua profecia se cumprisse com a precisão de um relógio atômico, contando cada dia, minuto e segundo. Se fôssemos considerar até os dias, nem mesmo os 70 anos de hegemonia de Babilônia foram absolutamente exatos. Babilônia derrotou o último rei assírio no mês de ululu (23 de agosto a 20 de setembro) de 609 a.C., e depois sucumbiu ante os persas no 14º dia do mês de tashritu (10 de outubro) de 539 a.C., perfazendo um total de 70 anos e alguns dias. (Israel e Judá, Textos do Antigo Oriente Médio, 1985, Edições Paulinas, pp. 82, 90). Em uma comunicação particular que mantive com o professor Bert van der Spek, ele ainda aventou outra possibilidade de entendimento: “Não é necessário tomar os 70 anos como sendo literais: eles são evidentemente uma figura simbólica. Mas, mesmo assim, caso você considerasse o ano 586 como sendo o ano da captura, 70 anos depois o templo foi inaugurado, em 3 de Adar do ano 516, ano 6 de Dario (=12 de março de 515 d.C.). Nada mal, eu diria”.
