A função de uma vacina é induzir o corpo a produzir defesas específicas contra a doença para a qual o imunizante foi projetado, e antes que o inoculado seja infectado pelo vírus causador. Ou seja, não é realmente a vacina que combate a doença, mas o próprio sistema imunológico da pessoa, que é artificialmente estimulado a fim de ficar preparado para o agente invasor. Caso contrário, a reação seria mais demorada. E, a depender do quadro geral da doente, esse ganho de tempo pode ser a diferença entre a vida e a morte.
A invenção da vacina possui relação direta com os microrganismos causadores de doenças, os quais existem desde muito tempo antes do homem aparecer na Terra. Por esse motivo é que epidemias que ceifam milhões de vidas não são eventos exclusivos dos tempos atuais. Uma das mais lembradas é a Peste Bubônica que assolou a Europa na Idade Média, matando mais de 100 milhões de pessoas. No entanto, o histórico de doenças potencialmente fatais e abrangentes remonta à Antiguidade, em especial a varíola.
De acordo com Levi e Kallás (2002), lesões em múmias da 18ª dinastia egípcia (1580-1350 a.C.) são compatíveis com a varíola. Antigos registros históricos descrevem epidemias de uma doença que se considera ter sido a varíola. Por exemplo, Tucidides (400 a.C.) menciona que Atenas foi atingida pela varíola em 430 a.C. e o historiador Diodorus Siculus (30 a.C.) relata que a varíola assolou o exército cartaginês no cerco de Siracusa, em 396 a.C. No século XVI, quando os espanhóis chegaram às Américas trouxeram também o vírus da varíola, que matou mais de 3 milhões de índios.
A varíola foi precisamente a doença que motivou a criação da primeira vacina em 1796, pelo médico inglês Edward Jenner. Antes disso ele havia dedicado vários anos ao estudo da varíola. Com esse novo recurso, finalmente, uma patologia que há séculos importunava a humanidade poderia ser prevenida, ainda que o método usado por Jenner fosse rudimentar quando comparado às modernas técnicas de fabricação de vacinas (ANDRADE et al., 2003; FEIJÓ; SÁFADI, 2006).
Conforme Aliaga e Souza (2022), havia uma doença que podia acometer vacas leiteiras que se assemelhava à varíola humana e, às vezes, quem ordenhava os animais se contaminava com tal doença, chamada de cowpox. Jenner percebeu que as pessoas que eram contaminadas dessa maneira se tornavam imunes à varíola.
Com isso em mente, Jenner retirou um pouco de pus da lesão de uma ordenadora que havia se contaminado com uma vaca e o inoculou em um menino, que apresentou depois uma forma leve da doença, que durou poucos dias. Após isso, o garoto foi inoculado com o pus de uma pessoa que estava com varíola, porém não contraiu a doença, pois ficara imunizado contra ela. Foi assim que surgiu a primeira vacina. Para ter certeza da eficácia do experimento, Jenner repetiu o procedimento em várias pessoas (ALIAGA; SOUZA, 2022).
Devido à descoberta de Edward Jenner, a Inglaterra fundou o primeiro centro de vacinação do mundo, em 1799. A novidade começou a ganhar o mundo, mas não sem resistência dos que eram compelidos a se vacinarem contra a própria vontade, já que o método de usar pus para fins de imunização causava estranheza na população. A vacina contra a varíola chegou ao Brasil em 1804, trazida pelo Marquês de Barbacena. (LOPES; POLITO, 2007).
Desde a época de Dom João VI as pessoas costumavam recusar a vacina por achar que, ao invés de prevenir uma doença, eram prejudiciais à saúde. O governo do Brasil tentava de todas as formas incentivar a vacinação. O próprio Dom João VI vacinou os filhos em público para mostrar aos súditos que a vacina era segura. Além disso, havia iniciativas oficiais incentivando a vacinação, tal como essa do documento da Figura (WESTIN, 2019).
Figura: campanha do governo imperial pela vacina da varíola, em 1828.

Fonte: WESTIN (2019).
O tempo passou e a resistência à vacinação se manteve, como se observou na conhecida Revolta da Vacina, de 1904. O alvo continuou sendo a varíola, e a pessoa que protagonizou as “campanhas” de vacinação (inclusive forçada) foi o sanitarista Oswaldo Cruz. Até hoje se vê em livros de história charges da época criticando os métodos utilizados por Cruz, mostrando assim que não foi uma campanha pacífica. No Rio de Janeiro houve confrontos entre a polícia e manifestantes que protestavam contra a obrigatoriedade da vacinação, e isso resultou em muitas mortes. Esse evento durou uma semana e hoje é chamado de A Revolta das Vacinas (CRESCÊNCIO, 2008).
De todo modo, a insistência surtiu efeito, pois, com o passar dos anos os ânimos arrefeceram e a vacinação contra várias doenças acabou sendo aceita pela quase totalidade da população brasileira, que hoje é considerada uma das mais vacinadas do mundo (AGÊNCIA BRASIL-LISBOA, 2017). E após anos de vacinação contra a varíola humana, a OMS declarou em 8 de maio de 1980 que essa doença estava erradicada (LEVI; KALLÁS, 2002).
Naturalmente, as técnicas de fabricação de vacinas foram aprimoradas, embora tenham mantido a mesma ideia da época de Jenner, ou seja, de “infectar” sem gravidade a pessoa para que ela produza os anticorpos necessários para combater a verdadeira infecção que causa a doença, caso ela aconteça.
Esse objetivo foi alcançado de três maneiras: com vírus inativado (morto), com subunidade viral (fragmentos específicos do vírus morto) e vírus vivo atenuado (enfraquecido). Há décadas somente essas três tecnologias eram utilizadas para a fabricação da maioria das vacinas. (SCHATZMAYR, 2003; CHAGAS et al., 2019). Como exemplos, há a vacina da raiva com vírus inativado, criada em 1885, a da febre amarela com vírus atenuado, criada em 1935, e a da hepatite B com subunidade viral, criada em 1982 (SOUZA et al., 2019; JACOBSEN; VELASQUEZ, 2019; ENDO et al., 2021).
Parece não haver dúvida que a vacinação de pessoas revolucionou a prevenção de determinadas patologias que há muito afligiam o ser humano, com especial destaque para Poliomielite, cuja eficácia é de praticamente 100%. Outras campanhas de sucesso foram as direcionadas contra o sarampo e a rubéola (HINMAN, 1999; GREENWOOD, 2014).
Quanto ao tempo de desenvolvimento, estabeleceu-se um rigoroso processo em etapas que duram alguns anos, a fim de garantir primeiramente a segurança dos imunizantes e, em seguida, sua eficácia. Ou seja, o desenvolvimento não é rápido, conforme explicaram HOMMA et al. (2003):
O tempo médio de desenvolvimento de uma vacina varia entre dez a 15 anos ou mais. São várias as etapas, e cada uma delas exige parâmetros e condições técnicas específicas. Muitas vezes é necessário voltar à etapa anterior para realizar novos estudos, que, portanto, não configuram um processo linear, direto e simples. Existe a possibilidade — e não pequena — de se chegar a resultados não satisfatórios quando se aumenta a escala do experimento, ou mesmo de se identificar a necessidade de realizar estudos adicionais. Essa operação deve-se repetir tantas vezes quantas forem necessárias, até a obtenção de resultados satisfatórios e a demonstração da potencialidade de transformação do experimento em produto (HOMMA et al., 2003; ver também SBPPC, on line).
Nesse mesmo sentido se manifestou David Greenberg, então vice-presidente científico e médico-chefe do laboratório Sanofi Pasteur nos Estados Unidos, em entrevista de 2018, mostrando que o rigor e a demora para disponibilizar um imunizante seguro e eficaz não mudaram até pouco antes do início da pandemia da COVID-19:
Em geral, é um caminho longo e complicado que leva muito tempo. São de dez a 15 anos para desenvolver uma nova solução para uma doença infecciosa. É preciso primeiro saber a causa da doença, estudar a fundo o vírus ou a bactéria, entender a reação do organismo… Quando temos todas essas informações, começamos a trabalhar na vacina em si. Isso vai tomar mais alguns anos até chegar aos ensaios clínicos. Nessas últimas etapas, precisamos ter contato direto com as agências regulatórias para conduzir os estudos. (REVISTA VEJA SAÚDE, 2018).
De acordo com o Food and Drug Administration dos Estados Unidos (FDA, 2018), o desenvolvimento de novas terapias, nas quais se incluem as vacinas, é composto de cinco passos que começam com os testes pré-clínicos, onde se determinam as substâncias mais promissoras a serem utilizadas no medicamento. É nesta fase que há os testes in vitro e experiências com animais. Após isso começam os testes em humanos, que objetivam a disponibilização do produto para toda a população, o que ocorre em quatro ou cinco etapas distintas (ONCOCLINICAS, 2021):
Fase 0: administração de pequenas doses para até 10 pessoas, visando a determinar características farmacocinéticas da droga.
Fase 1: consiste em aplicar a substância em número reduzido de pessoas saudáveis para avaliar como o imunizante se comporta e se há reações adversas.
Fase 2: é um procedimento semelhante à etapa anterior, porém com uma quantidade maior de pessoas e com diferentes perfis.
Fase 3: é quando a eficácia da vacina é determinada, em um estudo randomizado com milhares de pessoas divididas em dois grupos que serão comparados, um que recebeu a vacina e o outro placebo (substância sem qualquer efeito terapêutico).
Fase 4: nesta última etapa o imunizante é administrado nas pessoas em geral, o público-alvo, sempre com monitoramento constante dos órgãos de vigilância sanitária quanto à eficácia e reações adversas do produto.
Como se nota, liberar um imunizante para a sociedade é um procedimento demorado e isso explica por que Greenberg disse que “é um caminho longo e complicado que leva muito tempo”, de 10 a 15 anos. Em média, as vacinas demoram 10 anos para serem totalmente desenvolvidas, mas outras duram mais. A da varicela (catapora) demorou cerca de 25 anos para estar totalmente disponível (OMS, 2014).
Antes da pandemia da COVID-19, a vacina mais rapidamente desenvolvida foi a da caxumba, que demorou quatro anos para ficar pronta. E outras continuam sendo tentadas, como é o caso da vacina contra a AIDS, cujos estudos já duram décadas (GRADY, 2020).
REFERÊNCIAS
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Brasil é um dos países com maior cobertura de vacinação, mostra relatório. AGÊNCIA BRASIL-LISBOA, 15 de setembro de 2017. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2017-09/brasil-e-um-dos-paises-com-maior-cobertura-de-vacinacao>. Acesso em: 15 jun. 2022.
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