6. Simulações astronômicas da VAT 4956
Foi comentado na consideração precedente que quase nenhuma das 13 posições lunares se ajusta ao ano 588 a.C. Por outro lado, quase todas se ajustam perfeitamente ao ano 568 a.C. O que faz a data 587 a.C. ser o ano em que Jerusalém foi destruída. Para provar isto as 13 posições lunares da VAT 4956 serão aqui demonstradas, no programa de astronomia Starry Night. Mas é bom que se diga que os softwares mencionados na revista A Sentinela também conduzem a resultados semelhantes.
Se você não está familiarizado com programas de Astronomia e não conhece a maneira que os antigos escribas babilônios registravam eventos astronômicos, sugere-se a leitura do artigo “Noções de Arqueoastronomia, Linguagem dos Diários Astronômicos e os Calendários” (Ainda não publicado, aguardar link).
Atenção! As descrições do diário que você verá nas 13 observações abaixo são uma tradução livre que visa facilitar o entendimento (leia a observação no final desta página). Caso você queira ver o texto da tabuinha tal como ele é no original, clique na imagem abaixo.

Veja a seguir as 13 posições lunares mencionadas no diário astronômico VAT 4956.
Nas simulações referentes às datas pretendidas pela Torre de Vigia, foram usadas as datas que Rolf Furuli apresenta em seu livro, já que a série da Sentinela só menciona algumas delas. No entanto, visto que Furuli é o “erudito” por detrás desses artigos sobre cronologia publicados pela Torre de Vigia, as datas que ele atribui às 13 observações acima podem ser consideradas as datas “oficialmente” aceitas pela liderança das “Testemunhas de Jeová”.
As coordenadas escolhidas para fazer as simulações foram as do local onde ficava a antiga Babilônia:
Latitude: 32º 33′ N
Longitude: 44º 25′ E
Na opção “Time Zone” do software é necessário digitar o número 3.
Os critérios utilizados para indicar se uma simulação se ajusta ao que é descrito no diário foram os seguintes:
1) Para a distância entre a Lua e uma constelação: erros de até 2 graus foram desprezados.
2) Para a distância entre a Lua e uma estrela específica de determinada constelação: erros de até 1 grau foram desprezados.
3) Para outras situações foram desprezados quaisquer erros, desde que o cenário geral esteja de acordo com a tabuinha.
Essas pequenas diferenças não afetam a qualidade das simulações, pois estão dentro de uma margem de erro aceitável do software em relação ao que foi realmente observado, sem falar que os sistemas de medidas na antiguidade não eram tão precisos quanto os de hoje.
Observação Lunar Nº 01
“Ano 37 de Nabucodonosor, rei de Babilônia. Mês de nisanu [1º dia…] a Lua se tornou visível atrás de Touro no Céu.”
Dia do evento segundo os especialistas: 22-23 de abril de 568 a.C.
Ajustando-se o programa para esta data, e antes do pôr do Sol, obtém-se o seguinte:

Perceba que Touro “chegou” primeiro ao horizonte e já está se pondo no oeste (W), e a Lua vem logo “atrás”
Observa-se que a Lua está atrás da constelação de Touro, exatamente como descrito na tabuinha.
Dia do evento segundo a Torre de Vigia: 11 de maio de 588 a.C.
Conforme comenta Carl Olof Jonsson, Furuli cometeu uma série de equívocos para determinar esta data, na tentativa de conseguir que a simulação no software se adequasse ao relato da tabuinha. Embora a data correta para o dia 1º de nisanu de 588 a.C. seja 3-4 de abril, Furuli a move um mês para frente. Mas ele não se decide em qual dia exatamente. Em partes diferentes do seu livro, ele menciona 3 datas para 1º de nisanu: 1º de maio, 2 de maio e 3 de maio. Tudo isto na tentativa de fazer a simulação se adequar ao registro cuneiforme. A razão desse problema é que, de acordo com os especialistas, o dia 1º de nisanu nunca ocorreu no mês de maio do calendário juliano. É uma data muito tardia. Para mais detalhes sobre esse assunto, leia o apêndice C.
De qualquer maneira, nenhuma das três datas apresentadas por Furuli se ajusta perfeitamente ao que foi descrito na tabuleta. A simulação abaixo é do dia 3 de abril de 588 a.C., a data correta para 1º de nisanu:

Conforme se percebe, a Lua está “à frente” da constelação de Touro, e não “atrás”. Então, a simulação não se ajusta.
Conclusão:
A data dos especialistas se ajusta ao relato do diário? Sim.
A data da Torre de Vigia se ajusta ao relato do diário? Não.
Observação Lunar Nº 02
“Noite do dia 9 [erro para: 8], começo da noite, a Lua ficou 2 graus à frente da ß de Virgem.”
Conforme indica a tradução de Sachs e Hunger, a menção “dia 9” está errada, pois o que o diário descreve aconteceu um dia antes. Os especialistas no assunto são unânimes nesta conclusão, e isto foi admitido pela revista A Sentinela, de 1º de novembro de 2011, p. 27. Neugebauer e Weidner também apoiam esta conclusão. Recuar um dia para fazer esse ajuste não é, de maneira alguma, uma liberdade inadequada, pois a simulação do evento corrobora essa correção.
O motivo da Torre de Vigia afirmar que o registro na tabuinha deve ser “9” mesmo, contradizendo todas as autoridades no assunto, é porque os seus pesquisadores chegaram à errônea conclusão de que isso facilitaria as coisas para a sua cronologia. Como pode se ver mais adiante, foi um intento em vão, pois em 588 a.C. o “9” também não se encaixa.
Dia do evento de acordo com os especialistas (corrigindo-se o erro do escriba): 29-30 de abril de 568 a.C.
Ajustando-se o programa para esta data, para o começo da noite obtém-se o seguinte:

Nos pés da constelação de Virgem está o leste, por isso a Lua está na “frente”, indo para o oeste
Com o programa Starry Night é possível identificar as estrelas que formam uma constelação. Basta selecionar a estrela com a seta (usando o botão esquerdo do mouse), e com o botão direito escolher a opção “Info Window…”. Desta maneira, uma caixa se abrirá com as informações necessárias para aquela estrela. É o que foi feito acima, para identificar qual estrela é a beta de Virgem.
O valor obtido foi um pouco maior do que aquele informado pelo diário (2 graus). No entanto, esta diferença é aceitável pois os valores estão bem próximos. Em casos assim, é preciso lembrar-se que há pequenas margens de erro envolvidas. Não apenas do software, mas também das medições feitas pelos babilônios. Os instrumentos que eles tinham à disposição não eram tão precisos quanto os de hoje.
Interessante que se a eclíptica (linha verde) for usada como referência, e forem traçadas a partir da Lua e de Zavijava duas linhas imaginárias aproximadamente perpendiculares à eclíptica, percebe-se que a distância entre essas duas linhas perpendiculares é de cerca de 2 graus, exatamente a distância informada pela tabuinha:

Dia do evento de acordo com a Torre de Vigia: 11 de maio de 588 a.C.
Na página 313 de seu livro, Furuli afirmou erroneamente que 1º de nisanu caiu em 2 de maio de 588. Com base em tal ponto de partida, a data para a simulação seria 9-10 de maio. No entanto, ele avança mais um dia e diz que a data é 11 de maio. Mesmo nesta data, o registro não se adequa à data pretendida pela Torre de Vigia e Furuli:

“Noite do dia 9, começo da noite, a Lua ficou 2 graus à frente da ß de Virgem.” Portanto, o dia não confere, pois a Lua está “atrás”, bem atrás…
Conclusão:
A data dos especialistas se ajusta ao relato do diário? Sim, caso o erro do escriba seja corrigido. Caso contrário, não se ajusta.
A data da Torre de Vigia se ajusta ao relato do diário? Não, de maneira nenhuma.
Observação Lunar Nº 03
“Dia 1º do mês II … a Lua se tornou visível enquanto o Sol ainda estava lá, 8 graus abaixo da ß de Gêmeos.”
Dia do evento de acordo com os especialistas: 22-23 de maio de 568 a.C.
Ajustando-se o programa para esta data, para o começo da noite obtém-se o seguinte:

Realmente, a Lua está na constelação de Gêmeos, abaixo de sua estrela beta (Pollux), que é a estrela do “topo”. Visto que ainda há luminosidade do Sol, que está se pondo, basta acionar o recurso anti-luminosidade do programa para ver melhor o quadro:

A distância angular entre Pollux e a Lua é muito próxima do que foi dito na tabuinha (8 graus).
Dia do evento segundo a Torre de Vigia: 1-2 de junho de 588 a.C.
Antes de mostrar a imagem, uma ressalva se faz necessária. Essa data para 1º de ayaru não pode ser a verdadeira porque em um período de 700 anos (626 AEC a 75 EC) o mês de ayaru nunca ocorreu no mês de junho. Foi sempre antes. Isto pode ser confirmado nas tabelas apresentadas na obra A Cronologia Babilônica, de R. A. Parker e W.H. Dubberstein, pág. 27-47, Editora Universidade Brown (1966).
Sobre este problema, Carl Olof Jonsson fez o seguinte comentário:
“Uma vez que Furuli datou o dia 1º de nisanu em 1º de maio, e depois em 2 de maio, o dia 1º de ayaru cairia um mês lunar depois. Furuli (na pág. 314) o data em 1º de junho. Entretanto, isso entra em conflito com suas datas anteriores, porque se o dia 1º de nisanu começou na noite de 1º de maio, como ele defende no começo (na pág. 296 do livro) e se o mês de nisanu teve 30 dias como a tabuinha diz, ele deveria ter datado o dia 1º de ayaru em 31 de maio. Mas, devido a ele depois mudar a data do começo do dia 1º de nisanu para a noite de 2 de maio (pág. 312,) ele agora pode datar o dia 1º de ayaru em 1º de junho. Ocorre que, conforme já foi salientado, a data de 2 de maio para 1º de nisanu também é inaceitável, uma vez que a lua só se tornou visível em 3 de maio.” – Originalmente publicado em http://kristenfrihet.se/kf2/review.htm, tradução do site Mentes Bereanas.
Mesmo assim, ajustando-se o programa para esta data, para pouco antes do começo da noite, nota-se que o observado não está em perfeito acordo com o registrado no diário, porque a Lua dista da estrela ß de Gêmeos em quase 10 graus:

O recurso que tira a luminosidade foi ativado
Conclusão:
A data dos especialistas se ajusta ao relato do diário? Sim, perfeitamente.
A data da Torre de Vigia se ajusta ao relato do diário? Sim, parcialmente (porque uma data errada foi utilizada).
Observação Lunar Nº 04
“Mês III … [Dia 1º] a Lua se tornou visível atrás de Câncer, do pôr do Sol ao pôr da Lua: 80 minutos.”
Dia do evento de acordo com os especialistas: 20-21 de junho de 568 a.C.
Ajustando-se o programa para esta data, obtém-se o seguinte:

Confirmado! Em 20 de junho de 568 a.C., no final da tarde, a Lua estava atrás da constelação de Câncer. Agora é preciso verificar quanto tempo demorou entre o pôr do sol e o pôr da Lua. Então, é necessário avançar mais no tempo.
Se o escriba começou a marcar do momento em que o Sol se pôs totalmente até a Lua se pôr totalmente, o começo se deu às 19:10 h e o término às 20:30 h, aproximadamente. Isto perfaz um total de 80 minutos, exatamente o tempo indicado pela tabuinha:

Aproximadamente às 19:30 h o Sol já tinha descido totalmente no horizonte

Às 20:30 h a Lua acabou de se pôr totalmente, exatamente 80 minutos depois que o Sol se pôs
Se o escriba contou de quando o Sol estava na iminência de se pôr até a Lua se pôr totalmente, o tempo total foi de aproximadamente 95 minutos, ainda muito próximo do relatado. A diferença é devido às margens de erro envolvidas. Esta segunda situação fica como sugestão para você simular, caso tenha um software apropriado. De uma maneira ou de outra, os dois cenários conferem com aquilo que foi mencionado no diário.
Dia do evento de acordo com a Torre de Vigia: 30 de junho – 1º de julho de 588 a.C.
Ajustando-se o programa para esta data, obtém-se o seguinte:

A Lua também está atrás de Câncer, porém, devido à proximidade do Sol, ela não podia ser vista na maior parte da tarde. Além disso, o intervalo entre o pôr do Sol e o pôr da Lua foi de apenas 35 minutos, considerando-se a melhor situação. Sendo assim, este dia não pode ser aquele que é descrito no documento cuneiforme.
Situação 1 – De quando o Sol acabou de se pôr totalmente até a descida completa da Lua:

Quando o Sol acabou de se pôr, às 19:05 h…

… até quando a Lua se pôs totalmente, às 19:30 h, perfaz um tempo total de 25 minutos
Situação 2 – Limiar do pôr do Sol até a descida total da Lua:

Início do pôr do Sol, às 18:55 h
Das 18:55 h até às 19:30 h, horário em que a Lua se pôs (já visto anteriormente), resulta num total de 35 minutos, muito abaixo do tempo apontado pelo diário.
Conclusão:
A data dos especialistas se ajusta ao relato do diário? Sim, perfeitamente.
A data da Torre de Vigia se ajusta ao relato do diário? Não.
Observação Lunar Nº 05
“Noite do dia 5, começo da noite, a Lua passou em direção ao leste 2 graus da estrela ß de Virgem.”
Dia do evento de acordo com os especialistas: 24-25 de junho de 568 a.C.
Ajustando-se o programa para esta data, obtém-se o seguinte:

A observação para este dia não confere. A Lua está a mais de 9 graus da beta de Virgem. A estrela gama de Virgem, logo abaixo da Lua, é que está a cerca de 2 graus de distância. Logo, a observação se ajustaria se fosse a gama de Virgem. Pode ser que o escriba tenha se confundido e errado o nome da estrela. Com centenas de registros que eles faziam ao longo do ano, não era algo impossível de acontecer.
Há quem pense que o relato se refere ao dia anterior, e isto teria sido o erro do escriba, pois neste dia a Lua passou bem mais perto da beta de Virgem. No entanto, pelo critério que foi adotado aqui, essa possibilidade não parece adequada, pois a Lua dista mais de 4 graus da estrela Zavijava:

A Lua está a cerca de 4 graus atrás da ß de Virgem, na direção leste (atrás)
Dia do evento de acordo com a Torre de Vigia: 3-4 de julho de 588 a.C.
Ajustando-se o programa para esta data, obtém-se o seguinte:

Observa-se que a descrição não se ajusta a essa data, pois a Lua está a quase seis graus da beta de Virgem.
Conclusão:
A data dos especialistas se ajusta ao relato do diário? Não, porém se ajustaria caso o escriba tenha errado o nome da estrela (beta de Virgem ao invés de gama de Virgem).
A data da Torre de Vigia se ajusta ao relato do diário? Não.
Observação Lunar Nº 06
“Noite do dia 8, primeira parte da noite, a Lua ficou 5 graus abaixo da ß de Libra.”
Dia do evento de acordo com os especialistas: 27-28 de junho de 568 a.C.
Ajustando-se o programa para esta data, para o começo da noite obtém-se o seguinte:

A Lua está precisamente onde disse o escriba, a cerca de 5 graus abaixo da estrela beta de Libra.
Dia do evento de acordo com a Torre de Vigia: 6-7 de julho de 588 a.C.
Ajustando-se o programa para esta data, para o começo da noite obtém-se o seguinte:

A Lua está muito distante da posição mencionada, a mais de 11 graus, o que afasta qualquer possibilidade deste ser o dia correto. Em virtude desse grau de afastamento à oeste, a configuração acima poderia até ser descrita assim:
“A Lua ficou atrás de Virgem no céu.”
Isso mesmo. A Lua está muito mais próxima de Virgem do que de Libra, conforme pode ser visto abaixo:

Conclusão:
A data dos especialistas se ajusta ao relato do diário? Sim, perfeitamente.
A data da Torre de Vigia se ajusta ao relato do diário? Não.
Observação Lunar Nº 07
“Noite do dia 10, primeira parte da noite, a Lua estava 7 graus diretamente acima da alfa de Escorpião.”
Dia do evento de acordo com os especialistas: 29-30 de junho de 568 a.C.
Ajustando-se o programa para esta data, para o começo da noite obtém-se o seguinte:

A Lua está exatamente como foi informado pelo observador, numa posição cerca de 7 graus acima de Antares, que é a estrela alfa de Escorpião. A distância de aproximadamente 8 graus que mostra o Starry Night é aceitável e está próxima da esperada. Além do mais, como já foi dito, lembre-se que os instrumentos utilizados pelos antigos escribas não eram tão precisos quanto os de hoje.
Dia do evento de acordo com a Torre de Vigia: 9-10 de julho de 588 a.C.
Ajustando-se o programa para esta data, para o começo da noite obtém-se o seguinte:

A Lua está acima de Escorpião porém a uma distância de quase 11 graus de Antares, quase 4 graus mais longe. Portanto, não está de acordo com o relato.
Conclusão:
A data dos especialistas se ajusta ao relato do diário? Sim.
A data da Torre de Vigia se ajusta ao relato do diário? Não.
Observação Lunar Nº 08
“Dia 15, um deus foi visto com o outro; do nascer do Sol ao pôr da Lua [passaram-se] 30 min. Uma eclipse Lunar que foi omitido.”
Dia do evento de acordo com os especialistas: 4-5 de julho de 568 a.C.
“Um deus visto com outro” significa que a Lua e o Sol estavam visíveis no céu ao mesmo tempo, em horizontes opostos. Ajustando-se o programa para 5 de julho, observa-se que o Sol está nascendo às 05:05 h:

No mesmo momento, a Lua está prestes a se pôr:

Logo, confere com o relato de que “um deus foi visto com o outro”. Agora resta conferir por quanto tempo isso aconteceu, desde o nascer do Sol ao pôr da Lua. O último filete visível da Lua se deu às 05:23 h, ou seja, às 05:24 h a Lua já tinha se posto totalmente, conforme mostra o programa:

Recurso anti-luminosidade ativado
De acordo com o programa, o início exato do nascer do Sol foi às 04:51 h, como mostra a imagem abaixo:

Portanto, o tempo em que a Lua e o Sol foram vistos juntos foi de aproximadamente 33 minutos. Duração próxima da relatada na tabuinha. Caso considere-se de quando o Sol já tinha saído totalmente do horizonte (às 05:05 h), o tempo será de 18 minutos. Qualquer uma das duas situações se ajusta, devido às margens de erro envolvidas. Tal como ocorre em outros casos, é preciso lembrar-se que os instrumentos utilizados pelos antigos babilônios não eram tão precisos quanto os de hoje. Isto deve ser levado em consideração, ainda mais que, na verdade, eles não mediam o tempo e sim o ângulo (em graus) percorrido pelos astros na abóboda celeste.
Eclipse
O diário informou também que houve um eclipse omitido. Isto significa que esse eclipse não pôde ser observado no céu de Babilônia, porque a Lua já estava abaixo do horizonte.
A melhor maneira de saber em que dia e horário esse eclipse aconteceu é mudar o local de observação, da Terra para a Lua. Ou seja, escolher a visão que um observador da Lua teria. Este hipotético observador veria a Terra passar “por cima” do Sol (o que na Terra é visto como eclipse). Escolha como data inicial a meia-noite do dia 4 de julho. Mas faça isto antes de mudar a “observação” para a Lua, pois quando a mudança for feita a data mostrada será em “Universal Time” (UT).
Para mudar o local de “observação” vá para “Go \ Viewing Location” e no “View From” escolha “Moon” (Lua), ao invés de “Earth” (Terra). Aperte primeiramente o botão o> e depois o botão > (“play”), no cabeçalho do programa. Ao executar este passo, você verá uma animação que mostra o movimento do Sol e da Terra no céu, vistos a partir da Lua. Observe a trajetória da Terra durante 24 horas. Veja como ela se move até o Sol. Quando ela ficar acima do Sol aperte o “stop” (botão com o quadradinho).
Às 10:54 h (UT) o eclipse mencionado na tabuinha será visto. É um eclipse parcial que aconteceu no dia 4 de julho de 568 a.C., cujo encobrimento máximo ocorreu por volta das 14 horas:

Observa-se a Terra passando parcialmente “por cima” do Sol
Percebe-se que, na verdade, o eclipse aconteceu poucas horas antes do início do 15º dia do mês 3 (simanu). É provável que este detalhe tenha sido mencionado, entretanto não é possível saber porque esta parte da tabuinha cuneiforme está danificada. No mesmo momento, lá em Babilônia o Sol não pode ser visto com a Lua, pois ela está abaixo do horizonte oposto:

A única maneira de ver esse eclipse seria ir para outro lugar da Terra. Na Austrália, por exemplo. Vá em “Go \ Set Home Location” e em “LookUp” escolha “Sydney – Australia”. Aperte as teclas CTRL e F ao mesmo tempo para aparecer uma caixa de localização. Escreva nela a palavra “moon” (Lua) e aperte “Enter”. O programa irá localizar a Lua e mostrá-la de perto:

As cores do fundo da tela e da “mordida” da Terra foram modificadas para realçar o eclipse
Dia do evento de acordo com a Torre de Vigia: 14-15 de julho de 588 a.C.
Ajustando-se o programa para esta data, observa-se que no dia 15 de julho a Lua está prestes a se pôr às 04:30 h:

O Sol só irá nascer às 05:05 h:

Recurso anti-luminosidade ativado
Neste horário a Lua já se pôs, 17 minutos antes, e ela não pôde mais ser vista no horizonte. Portanto, esse dia não se ajusta ao relato do diário.

A Lua já se pôs quando o Sol estava nascendo
Eclipse
Às 05:20 h do dia 15 de julho de 588 a.C. houve também um eclipse parcial da Lua não observado no céu de Babilônia, conforme mostra a imagem abaixo:

No entanto, visto que a outra descrição não confere com esse dia (“um deus visto com o outro”), então a data está errada para o evento descrito no diário.
Conclusão:
A data dos especialistas se ajusta ao relato do diário? Sim.
A data da Torre de Vigia se ajusta ao relato do diário? Não.
Observação Lunar Nº 09
“Mês 11, … a Lua se tornou visível na constelação de Peixes; do pôr-do-sol ao pôr da Lua: [passaram-se] 58 minutos; … Nessa hora, Júpiter estava a 2 graus do cotovelo de Sagitário … ”
Dia do evento de acordo com os especialistas: 12-13 de fevereiro de 567 a.C.
Ajustando-se o programa para esta data, às 17:55 h, obtém-se o seguinte:

Recurso anti-luminosidade ativado
Realmente, a Lua está na constelação de Peixes e, devido a boa distância que está do Sol (15 graus), é possível vê-la antes mesmo de anoitecer. Depois que o Sol se põe é possível vê-la melhor ainda. Do pôr do Sol até a Lua se pôr totalmente transcorreu um tempo de aproximadamente 57 minutos. A tábua informa que foram 58 minutos. Mas se a medição deve ser entre o início do pôr do Sol e o fim do pôr da Lua, então o tempo mostrado pelo programa será maior. Por volta de 69 minutos. Neste caso, as pequenas margens de erro (do software e da instrumentação babilônica) devem ser levadas em consideração. De qualquer modo, em ambos os casos, a simulação se ajusta bem à descrição feita no documento.

Fim do pôr da Lua
Júpiter em Sagitário:
No momento em que a Lua se pôs, Júpiter não estava visível no céu. Já tinha descido. Mas realmente ele estava em Sagitário “nessa hora”. Conhecendo-se a trajetória desse planeta em relação ao movimento das constelações, seria possível deduzir sua posição. Para constatar isto, basta pedir ao programa para mostrar uma visão mais ampla, a partir da Lua, por exemplo:

Por outro lado, se o “nessa hora” mencionado no registro for um momento em que Júpiter realmente estava visível no céu é preciso avançar ou retroceder no tempo, e observar como o planeta estava posicionado enquanto ainda estava escuro. De uma maneira ou de outra, em ambas as situações a simulação confirma que o dia está correto, conforme mostram as imagens abaixo:

Júpiter em Sagitário às 18:52 h, distante 2 graus da estrela “pi” de Sagitário

Júpiter em Sagitário às 18:52 h, distante 11 graus do aglomerado M25
A tabuinha informa que Júpiter estava a 2 graus do “cotovelo de Sagitário”. Este “cotovelo” foi identificado por P. V. Neugebauer como sendo o aglomerado de estrelas ao redor da estrela “pi” de Sagitário. A distância entre Júpiter e a própria estrela “pi” de Sagitário, segundo o software, era cerca de 2 graus, distância não muito diferente das estrelas ao redor de Albaldah. Mas se o referido aglomerado for um daqueles do catálogo de Messier, então Júpiter estava distante 11 graus de M25 (o aglomerado mais próximo de “pi”). De qualquer forma, o cenário acima está muito parecido com o que foi descrito pelo escriba. Não é razoável achar que a distância maior em relação ao relato afeta a qualidade da simulação, ainda mais que foi preciso aceitar a suposição do Dr. Neugebauer, que pode estar certa ou não.
Dia do evento de acordo com a Torre de Vigia: 21-22 de fevereiro de 587 a.C.
Começando a simulação pela posição de Júpiter, nota-se que o dia acima não pode ser aquele mencionado pela tabuinha, pois Júpiter não está na constelação de Sagitário:

Júpiter não aparece em Sagitário
Na maior parte do tempo, Júpiter ficou no céu durante o dia e não era visível a observadores. Só apareceu no final da tarde e ficou observável até oito horas da noite. No entanto, em nenhum momento ele esteve em Sagitário. Estava em Áries:

Diante da constatação acima, nem seria preciso verificar a outra informação do diário, pois já ficou comprovado que o dia está errado. Mesmo assim, pode-se perceber que a Lua não podia ser vista em quase toda a tarde, porque estava muito próxima do Sol (a cerca de 9 graus).

Cenário fora da descrição da tabuinha, devido à pequena distância entre os astros
Portanto, estar a Lua em Peixes torna-se irrelevante neste caso, tanto por sua invisibilidade aos observadores em Babilônia quanto por Júpiter não estar em Sagitário.
Conclusão:
A data dos especialistas se ajusta ao relato do diário? Sim.
A data da Torre de Vigia se ajusta ao relato do diário? Não.
Observação Lunar Nº 10
“Mês 12, dia primeiro do mês … a Lua se tornou visível atrás de Áries enquanto o Sol ficou lá; do pôr-do-sol ao pôr da Lua: 25 graus [100 minutos], calculado; ”
Dia do evento de acordo com os especialistas: 14-15 de março de 567 a.C.
Ajustando-se o programa para esta data, obtém-se o seguinte:

Nota-se que realmente a Lua está “atrás” de Áries, conforme o relato do escriba. Agora resta contar o tempo entre o pôr do Sol e o pôr da Lua.
Usando o recurso “magnify” no Sol, observa-se que a iminência dele começar a se pôr ocorre aproximadamente às 18:03 h, conforme mostra o programa:

Às 19:50 h, a Lua já tinha descido totalmente (o que pode ser constatado também com o recurso “magnify”):

Cerca de 107 minutos após o início do pôr do sol a lua já se pôs totalmente
Portanto, em tal cenário, entre o pôr do Sol e o pôr da Lua demorou cerca de 107 minutos. Tempo bastante próximo do que foi relatado.
Mas se a contagem começar no instante em que o Sol se pôs totalmente (aproximadamente às 18:06 h), o tempo total entre a descida dos dois astros diminuirá para cerca de 104 minutos. O que fica ainda mais próximo do que foi dito na tabuinha.
Dica: se as árvores atrapalharem a visualização, elas podem ser retiradas em “Sky Settings”, escolhendo a opção “Show flat horizon”.
Dia do evento de acordo com a Torre de Vigia: 24 de março de 587 a.C.
Ajustando-se o programa para esta data, obtém-se o seguinte:

O cenário está de acordo com o relato da tabuinha. Então:
1) Considerando o instante em que o Sol “enconstou” no horizonte (aprox. às 18:09 h) até o momento em que a Lua se pôs totalmente (às cerca de 19:39 h) transcorreu um tempo de aproximadamente 90 minutos.
2) Considerando o tempo entre o instante em que o Sol se pôs totalmente (aprox. às 18:12 h) até o momento em que a Lua desceu completamente (aprox. às 19:39 h) transcorreu aproximadamente 87 minutos.
Portanto, a simulação é aceitável e está próxima do que foi dito na tabuinha.
Conclusão:
A data dos especialistas se ajusta ao relato do diário? Sim, com uma pequena margem de erro.
A data da Torre de Vigia se ajusta ao relato do diário? Sim, com uma pequena margem de erro.
Observação Lunar Nº 11
“Na noite do dia 2, a Lua estava 8 graus diretamente abaixo da n de Touro”
Dia do evento de acordo com os especialistas: 15-16 de março de 567 a.C.
Ajustando-se o programa para esta data, obtém-se o seguinte:

Observa-se que a Lua está onde foi dito na tábua cuneiforme, cerca de 8º abaixo da n de Touro, apesar de não estar tão “diretamente abaixo”, pois está a sudoeste de Alcione.
Dia do evento de acordo com a Torre de Vigia: 24-25 de março de 587 a.C.
Ajustando-se o programa para esta data, obtém-se o seguinte:

A Lua está quase 11º a noroeste de Alcione, ou seja, está acima da n de Touro. Portanto, mesmo a Lua e Alcione estando próximas entre si, estão em uma posição diferente da que foi registrada.
Conclusão:
A data dos especialistas se ajusta ao relato do diário? Sim.
A data da Torre de Vigia se ajusta ao relato do diário? Não.
Observação Lunar Nº 12
“Na noite do dia 7, a Lua foi circundada por um halo; Câncer e a alfa de Leão ficaram nele…”
Dia do evento de acordo com os especialistas: 20-21 de março de 567 a.C.
Ajustando-se o programa para esta data, obtém-se o seguinte:

Observa-se que a Lua está entre Câncer e Regulus (a alfa de Leão), conforme informado no diário.
Dia do evento de acordo com a Torre de Vigia: 29-30 de março de 587 a.C.
Ajustando-se o programa para esta data, obtém-se o seguinte:

Observa-se que a Lua também está entre Câncer e Regulus (a alfa de Leão), conforme informado no diário. O único detalhe diferente neste cenário é que o planeta Saturno aparece em conjunção com a Lua. O que talvez tivesse chamado atenção do escriba, caso este fosse o céu com o qual se deparou naquela noite do dia 7 de adaru, do 37º ano de Nabucodonosor…
Conclusão:
A data dos especialistas se ajusta ao relato do diário? Sim.
A data da Torre de Vigia se ajusta ao relato do diário? Sim.
“E a Lua foi circundada por um halo; Câncer e a alfa de Leão ficaram nele”
Na verdade, o diário astronômico informa que a Lua ficou entre o “presépio” e a alfa de Leão (que é a estrela Regulus). “Presépio” ou “Colméia” é um aglomerado aberto que fica na constelação de Câncer, e é conhecido desde os tempos antigos. Atualmente, é identificado no catálogo de Messier por M44. Sobre esse aglomerado, certo site informa o seguinte:
“Os aglomerados abertos são objetos que formam o esqueleto de nossa galáxia. Por isso quando estivermos observando um aglomerado aberto, estaremos observando uma região do plano galáctico, mas especificamente nos braços espirais. As estrelas que formam estes objetos são estrelas jovens e bastante quentes, em geral, por isso não é raro observar nebulosidades ao redor de aglomerados destes tipos, pois podem estar associados a regiões imersas a material ionizado, devido à alta temperatura, como na Nebulosa da Águia, M16.” – Observatório Astronômico da Universidade Federal do Espírito Santo.

Aglomerado aberto do Presépio (M44)
Presépio está na constelação de Câncer e não faz parte da constelação de Leão. De modo que ele não poderia causar um efeito que abrangesse essas duas constelações. Embora a nebulosidade característica do aglomerado da Colméia possa ter causado algum efeito no avistamento da Lua, o mais provável é que a descrição do escriba se referia ao halo refrativo que pode se formar ao redor da Lua, sobre o qual a Enciclopédia Barsa diz:
“Fenômeno atmosférico caracterizado pelo aparecimento de um ou mais anéis luminosos em torno do Sol ou da Lua. Provocado pela refração da luz do astro ao atravessar cristais de gelo em nuvens de zonas altas da atmosfera.”
Visto que tais halos podem chegar a mais de 40 graus, então é perfeitamente possível que o halo tenha coberto as constelações de Leão e Câncer. De fato, na linha seguinte da tabuinha o escriba informa que “o halo circundou Câncer e Leão”, conforme ilustrado na foto a seguir:

Observação Lunar Nº 13
“Dia 12, um deus foi visto com o outro; do nascer do Sol ao pôr da Lua [transcorreram] 6 minutos”
Dia do evento de acordo com os especialistas: 25-26 de março de 567 a.C.
Os “deuses” acima mencionados são o Sol e a Lua. Ajustando-se o programa para esta data, observa-se que às 06:09 h do dia 26 de março o Sol está nascendo a leste e a lua se pondo à oeste. Se for considerado até o último filete visível da Lua, antes dela se pôr totalmente, o tempo total em que ambos eram visíveis foi de uns 3 ou 4 minutos. Apesar de ser uma duração menor que aquela indicada na tabuinha, devido às margens de erro envolvidas, certamente a simulação se ajusta à descrição de que ambos foram vistos juntos (um no poente e outro no nascente). Mais uma vez, a diferença é resultado das margens de erro envolvidas, especialmente a margem que se refere ao grau de precisão dos instrumentos dos babilônios, já que o tempo envolvido é tão pequeno.
Observação às 06:09 h:

Lua se pondo no oeste…

… e o Sol nascendo no leste, no mesmo instante
Observação às 06:12 h:

Lua prestes a se pôr totalmente…

… com o Sol quase totalmente levantado
Dia do evento de acordo com a Torre de Vigia: 4-5 de abril de 587 a.C.
Ajustando-se o programa para esta data, obtém-se o seguinte:

Percebe-se que a Lua já está se pondo às 04:57 h, quase uma hora antes do sol nascer:

O sol está nascendo às 05:51 h
No momento em que o sol nasce, a lua já se pôs há quase uma hora, e já está abaixo do horizonte.

Portanto, se a Lua e o Sol não são vistos juntos no céu no início da manhã, o dia não está correto.
Conclusão:
A data dos especialistas se ajusta ao relato do diário? Sim, perfeitamente.
A data da Torre de Vigia se ajusta ao relato do diário? Não.
(fim das simulações)
Conforme constatado no Starry Night, aquilo que as simulações acima indicam se resume ao seguinte quadro:

Notas da tabela:
a – Tornou-se aceitável recuando-se um dia. O que está em conformidade com que Abraham Sachs e outros especialistas indicaram em suas traduções do diário, de que o escriba errou o dia que registrou. Ao invés de escrever “8”, ele escreveu “9”. Provavelmente, ele se confundiu com dia e achou que estava no dia 9. O erro não foi devido à semelhança dos caracteres, pois o escriba usou uma variante do número 9 (tišit) que não podia ser confundida com o número 8. Ele usou três cunhas em sentido oblíquo ao invés de 9 cunhas verticais.*
b – Só se ajustou parcialmente porque a data foi “forçada”, mas ela não é a data correta. Veja os comentários na simulação. Se a data correta fosse usada, a simulação não se ajustaria.
c – É dito na tabuinha que a Lua estava próxima da estrela beta de Virgem, porém ela estava próxima da gama. Se o escriba errou e devia ser a estrela gama, então a observação se ajusta.

“8” e “9” na escrita cuneiforme
Para facilitar o entendimento do texto da VAT 4956, as seguintes convenções foram adotadas no texto aqui apresentado:
1 cúbito = 2 graus
2 cúbitos = 4 graus
2,5 cúbitos = 5 graus
3,5 cúbitos = 7 graus
Pata do leão = beta de Virgem
Andorinha = constelação de Peixes
Presépio = constelação de Câncer (na verdade, é um aglomerado aberto que fica nesta constelação)
As palavras à esquerda (em negrito) são os termos que eram utilizados pelos escribas babilônios. Já o que aparece no lado direito são os devidos significados desses termos. Na tradução utilizada nas simulações, optou-se por se usar o significado das expressões utilizadas na tabuinha, ao invés do antigo vocabulário. Portanto, lembre-se que a linguagem original utilizada no diário é outra. Caso você queira ver o texto com o linguajar original clique na imagem da tabuinha que está no topo desta página.
Foram feitas também as seguintes equivalências:
1,3 graus = 6 minutos
20 graus = 80 minutos
25 graus = 100 minutos
